13 de maio de 2018

COMBONIANO ORDENADO PADRE


O Diácono Ricardo Alberto Leite Gomes foi ordenado padre na tarde do dia 12 de Maia, véspera da solenidade da Ascensão do Senhor, na Igreja paroquial de São Martinho de Bougado, Trofa.

A Eucaristia foi presidida por Dom António Augusto Azevedo, bispo auxiliar do Porto, que ordenou o novo sacerdote.

A ampla Igreja paroquial estava linda e cheia de fiéis que quiseram estar com o Padre Ricardo em dia tão especial.

Entre os participantes encontravam-se o Vigário Geral dos Combonianos, P. Jeremias dos Santos Martins, Isabella Dalessandro, Responsável Geral das Missionárias Seculares Combonianas, trinta padres (combonianos na maioria), três diáconos, algumas irmã, irmãos, seculares e leigos missionários combonianos.

Da África do Sul vieram quatro pessoas, três leigas e um comboniano, da missão de Acornhoek, onde o novo padre fez o serviço missionário. Alguns amigos e três combonianos fizeram a viagem da Itália.

O coro, de vozes e instrumentos, animou a celebração e cantou algumas peças originais do pároco de São Tiago de Bougado, P. Bruno Ferreira, que dirigiu.

Dom António disse que a ordenação do Padre Ricardo representa «um dia grande para a Igreja, para os Missionários Combonianos, para a comunidade paroquial e sobretudo para o Ricardo.»

No final da celebração o pároco agradeceu a presença e o trabalho de todos os que quiseram estar presentes em tão bela celebração.

O superior provincial partilhou a alegria da ordenação do Ricardo depois de quase 13 anos sem ordenações e louvou o espírito missionário das duas paróquias da Trofa que já deram três filhos à congregação e têm alguns jovens muito empenhados na pastoral vocacional juvenil comboniana.

O neo-ordenado também teve palavras de agradecimento no final da Eucaristia.

«O meu primeiro agradecimento vai para o Senhor que me chamou a consagrar a minha vida a Ele e à missão. Um especial agradecimento à minha família, aos meu pais, irmã e irmão que sempre estiveram presentes na minha caminhada, souberam dar me conselhos e apoio em todos os momentos», disse.

Falando em inglês, teve uma palavra de apreço para o grupo que veio da missão onde trabalhou: «Eu aprendi o significado real do amor, da generosidade, da amizade.»

O novo sacerdote missionário comboniano tem 29 anos.

Fez o curso de Teologia na Católica do Porto e na faculdade de teologia dos Jesuítas em Nápoles, Itália. Depois, fez o serviço missionário de quase dois anos na África do Sul.

O P. Ricardo faz parte da comunidade de Maia desde janeiro de 2018 e trabalha na pastoral vocacional juvenil.

10 de maio de 2018

SENHORA DA ÁFRICA



A Mãe de Deus é evocada como Nossa Senhora da África.

Bento XVI terminou a exortação apostólica Africae munus – o Serviço da África – com uma oração à Mãe de Deus: «A bem-aventurada Virgem Maria, Mãe do Verbo de Deus e Nossa Senhora da África, continue a acompanhar toda a Igreja com a sua intercessão» (n.º 175).

A devoção africana à Mãe de Jesus perde-se nas brumas da memória cristã. Os frescos das antigas igrejas núbias, no que é hoje o Sudão, são testemunho silencioso desse passado de fé. Os três reinos núbios formaram um enclave cristão entre os séculos VI e XV até serem tragados pelo Islão. A Virgem tem um lugar preeminente nessa iconografia antiga de que hoje restam alguns frescos nos museus de Cartum e Varsóvia.

A devoção etíope a Nossa Senhora é expressão dessa herança. Maria é comummente chamada «Kidane Mehret», literalmente «Aliança de Misericórdia». A Igreja Ortodoxa celebra-a no dia 16 de cada mês. A festa anual é a 16 de Abril. O ícone da Virgem Mãe com o Menino ao colo guardada por dois anjos repete-se por inúmeras igrejas ortodoxas e católicas. A mesma devoção está presente entre os coptas do Egipto.

O título Nossa Senhora da África ou Virgem de África tem marca portuguesa. O infante Dom Henrique ofereceu a imagem por ele assim chamada à cidade de Ceuta em 1421. No século XIX, o culto chegou a Argel, na Argélia. A construção da imponente basílica em estilo neobizantino começou em 1858 numa colina sobre o Mediterrâneo e foi consagrada em 1872. O templo é também frequentado por muçulmanos.

A Basílica de Yamoussoukro, na Costa do Marfim, é outro lugar mariano africano dedicado à Nossa Senhora da Paz. O templo, construído entre 1985 e 1989, é uma cópia da Basílica de São Pedro, mas em maior.

Os países africanos de expressão portuguesa além da língua também herdaram a devoção mariana. A padroeira de Cabo Verde é a Senhora das Graças e a da Guiné-Bissau é a Senhora da Candelária. Angola tem em Muxima um santuário nacional dedicado à Senhora da Conceição, que é padroeira de Moçambique.

África é lugar de aparições marianas: Ngome, na África do Sul, e Kibeho, no Ruanda, são dois centros reconhecidos. Mas a Senhora de Fátima também está presente no continente desde 1942 quando foi inaugurado o Santuário de Namaacha, em Moçambique. O cardeal John Onaiyekan, arcebispo de Abuja (Nigéria), explicou que a mensagem de Fátima é muito importante para África, porque «é um apelo à paz».

Hoje, há pelo menos 57 paróquias dedicadas à Senhora de Fátima no continente. Moçambique está à frente com 16. Angola tem 11. O lugar de culto mais deslumbrante é o altar de Nossa Senhora de Fátima no cume nevado do monte Kilimanjaro, na Tanzânia, a 5895 metros de altitude.

A devoção mariana com rosto africano é sobretudo corporizada na Legião de Maria. A organização nasceu na Irlanda em 1921. Milhares e milhares de mulheres católicas dedicam-se de alma e coração ao serviço das suas comunidades desde o cuidado dos templos e da ordem nas celebrações ao serviço aos mais necessitados inspiradas na Virgem de Nazaré.

6 de maio de 2018

COMBONIANOS IBÉRICOS FAZER RETIRO JUNTOS









As províncias de Espanha e Portugal decidiram fazer em conjunto o retiro anual de 2018 para aprofundarem a comunhão que já vivem através de encontros anuais regulares.

O P. Tesfaye Tadesse pregou o retiro aos 51 participantes (27 da Província de Espanha e 24 da de Portugal) em Salamanca de 29 de abril (à noite) a 5 de maio (de manhã).

«Estamos aqui para nos encontrarmos com o Senhor, para nos deixarmos encher e refrescar de Deus, para celebrar a vida espiritual que está em nós», o P. Tesfaye explicou na introdução ao retiro.

O Padre Geral guiou os participantes num exercício de agradecimento e de louvor pelo dom da vida, da fé, do discipulado, do encontro, da comunidade, da missão, da consagração, da conversão, da vida apostólica e da Mãe.

O retiro decorreu em ambiente de silêncio gozoso e de Pentecostes: o P. Tesfaye usou o italiano enquanto que os participantes rezavam, cantavam e partilhavam em espanhol e português.

Os retirantes sentiram-se particularmente unidos com os católicos da paróquia de Nossa Senhora de Fátima de Bangui (República Centro-Africana). A 1 de maio, enquanto a comunidade celebrava a festa de São José Operário, um grupo radical islâmico atacou a igreja com granadas e balas, matando 16 pessoas. Entre as vítimas conta-se o padre local, que presidia à Eucaristia.

Na adoração do meio-dia rezavam cada dia por um continente diferente e pelas situações mais dramáticas.

O retiro conjunto das províncias ibéricas foi um momento histórico de comunhão e de oração à volta de Jesus, inspirados por São Daniel Comboni e pela Regra de Vida.

As duas províncias combonianas – que entre 1964 e 1969 formaram uma única circunscrição – têm feito um caminho de comunhão interessante: todos os anos organizam um encontro de convívio, os conselhos provinciais reúnem-se uma vez por ano em conjunto e participam nas assembleias provinciais.

As duas províncias além de partilharem um animador do Código Deontológico, estão a explorar maneiras de formarem uma Comissão de Formação Permanente comum e um postulantado ibérico em Granada (Espanha).

2 de maio de 2018

ORAÇÃO POR BANGUI


Senhor Jesus, estamos aqui contigo,
somos tua comunidade.
Em ti e contigo estamos em comunhão
com toda a humanidade neste mundo em que vivemos.
Hoje, aqui e agora, queremos estar em comunhão
especialmente com o continente da nossa querida África.
Oferecemos-te o que somos e fazemos na África,
o nosso desejo de Esperança e de Paz.
Pedimos-te hoje, aqui, o dom da Paz para todos os países
mas especialmente para a República Centro-Africana,
para a capital, Bangui,
para a paróquia de Nossa Senhora de Fátima.
Apresentamos-te, pomos nas tuas mãos e no teu coração
as dezasseis pessoas que foram mortas e os seus familiares em luto
e todos os feridos;
Os que estão a passar por medos e ansiedades devido ao perigo da violência;
a família comboniana aí presente
      Dai-lhes a graça de fortalecerem os que sofrem!
Ámen.
P. Carlos Nunes 
Missionário Comboniano

10 de abril de 2018

COM OS JOVENS NO CORAÇÃO

©BFrutuoso 
A Comissão da Família Comboniana propôs o tema «São Daniel Comboni: desafio para os jovens de hoje» para o ano pastoral de 2017-2018 em sintonia com a Igreja universal que, liderada pelo Papa Francisco, prepara a XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional».

O Sínodo dos jovens, que decorre no Vaticano de 3 a 28 de outubro, está a ser preparado de uma maneira inovadora usando o espaço digital.

O Papa Francisco apresentou o Documento Preparatório com uma carta aos jovens, escrita a 13 de janeiro de 2017. «Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração», escreveu logo no início da missiva, convidando os jovens a «saírem» ao jeito de Abraão.

E continuou: «Um mundo melhor constrói-se também graças a vós, ao vosso desejo de mudança e à vossa generosidade. Não tenhais medo de ouvir o Espírito que vos sugere escolhas audazes, não hesiteis quando a consciência vos pedir que arrisqueis para seguir o Mestre. Também a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores.»

O Papa argentino confiou os jovens a Maria de Nazaré, «uma jovem como vós, à qual Deus dirigiu o seu olhar amoroso, a fim de que vos tome pela mão e vos guie para a alegria de um “Eis-me!” pleno e generoso.»

A preparação do Sínodo incluiu dois questionários: um sobre a pastoral vocacional juvenil e outro, na internet, disponível para quem o quiser preencher.

O Papa também organizou uma reunião pré-sinodal com mais de 300 jovens de todo o mundo no Vaticano de 19 a 24 de março que contou com a participação de outros 15 mil jovens em fóruns nas redes sociais.

Que provocações nos coloca o tema «São Daniel Comboni: desafio para os jovens de hoje»?

Os jovens tinham um lugar especial no coração de São Daniel Comboni. A palavra jovens aparece 321 vezes nos Escritos, jovem 191 vezes e juventude 43 vezes. Ao todo são pelo menos 555 registos se o localizador do Word não me trocou as voltas!

E o que escreve Comboni? Muitas e variadas coisas sobre os jovens africanos, os jovens missionários e a sua própria juventude.

Nota que os primeiros convertidos eram quase todos jovens (E 207); alegra-se com o progresso dos jovens (E 450); resgatou cinco jovens Oromos (chama-lhes Galla) no mercado de escravos de Adem (E 597); nota com alegria que as jovens africanas bordaram um paramento valioso para o Papa (E 678, 690); inclui no Plano o trabalho dos jovens catequistas (E 831-835); denuncia o tráfico de jovens africanos (E 865-866); procurou «por todos os meios ganhar o coração dos jovens» (E 871). Encomenda-se à oração das jovens do Instituto (E 1027); e quer que apressem a preparação «de jovens corajosos, habituados a toda a espécie de agruras, mortificações e sacrifícios: tal deve ser o apóstolo da África, o qual deve pôr-se inteiramente nas mãos da Providência» (E 1215).

Comboni também se preocupa com «a libertinagem e corrupção da juventude moderna» (E 140-141, 316), mas escreve: «a juventude está sujeita a certas crises inevitáveis, não nos devemos admirar; chegado o tempo da maturidade, as coisas acalmam-se» (E 783); e proclama: «mas a juventude é sempre juventude» (E 1755).

Sublinho esta mensagem de esperança: «Esta juventude, na qual depositamos as maiores esperanças, representa um conforto para o coração do missionário, que a rodeia de amorosos cuidados» (E 4966).

Tanto Comboni como Francisco trazem a juventude no coração: ambos acreditam nos jovens. Este é o nosso grande desafio: continuar a acreditar nos jovens em tempo de grande carestia vocacional, acolhê-los em casa e no coração e cuidar deles.

Os jovens continuam a ser generosos e a responder às grandes causas ao seu jeito que é diferente do nosso.

Em fevereiro de 2017 havia 745 candidatos ao presbitério diocesano nos pré-seminários, seminários menores, propedêutico, seminários maiores e no ano pastoral. Os dados são da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios.

Por outro lado, segundo a FEC, 389 jovens e adultos estão empenhados em projetos de voluntariado missionário de curto, médio e longo prazo no estrangeiro e 1014 desenvolvem atividades de voluntariado/missão em Portugal no ano passado.

A Missão País 2018 contou com cerca de 3000 universitários que participaram em 52 missões organizadas por 43 faculdades durante a semana de férias do Carnaval.

Os testemunhos dos oito jovens do «Fé e Missão» que no verão de 2017 estiveram um mês em Carapira (Moçambique) vão nesta linha: fiquei encantado pelo modo como responderam e continuam a responder aos desafios que a missão lhes coloca.

Resta-nos encher o coração dos jovens, dar-lhes o nosso coração, vez e espaço, e acreditar neles!

E continuar a rezar pelas vocações, a primeira empresa dos enviados de Jesus: «A colheita é muita, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita. Ide» (Lucas 10, 2-3a).

6 de abril de 2018

SURPRESA FELIZ


Depois de quase todo o dia sem horas sem corrente eléctrica, o gerador a pedir refrigeração (trabalhou durante 4 horas seguidas, coitado, para aguentar até ao fim da celebração da missa) e a velinha a suspirar para me dar o último fio de luz. Aqueci o arroz e o ful (favas) que, de passagem se diga, estavam fav(ul)osas e pus-me no pátio à fresca, a apanhar o último pó de areia, ao qual ninguém pôde escapar durante estes três últimos dias. Sem uma pontinha de exagero, digo-te que não vi o Sol durante estes três dias, escondido pela tempestade. São dias avermelhados/amarelados como aqui dizem, mas Deus nos livre porque se fossem dias negros como a noite, literalmente falando, como outras vezes acontece, seria muito pior.

E como ia contando, eis que se fez luz de novo, embora já a altas horas da noite.

Surpresa feliz, embora estivesse já a caminho do vale dos lençóis (passe a expressão, mas na verdade aqui, com os meus 42 e mais graus e a comichão da tempestade de areia não uso tal coisa desde janeiro passado). Uma rápida vista de olhos ao correio electrónico e... achei-me pegado ao teclado, a pensar em ti, em vocês, nesta Páscoa Santa a acontecer, mesmo em cima de nós.

O sono passou, muito embora amanhã vai ser dia de pica-boi. E, para mais, estou sozinho já desde há três semanas. São as tais coisas dos missionários quando a comunidade mínima de três é só de dois: foi quase sempre assim neste meu querido Sudão e, mais querido ainda, Darfur. Antes, fui eu três meses a Portugal e agora é a vez do Lorenzo Baccin (férias, operação aos olhos e ao tornozelo). Que os sequestradores não saibam que estou sozinho porque senão ainda acontecerá como daquela outra vez. Mas, felizmente, caso seja preciso defender-me, espero que o Tong Aketch esteja, de novo, amanhã de manhã, como daquela outra vez, em boa forma, como bom soldado que foi, habituado a usar a espingarda ou a fingir que a tem escondida debaixo da jalabia, isto é nas cerual (ceroulas, literalmente, em árabe correcto).

Mas não haverá azar, in sha Allah. Estou em boa forma e disposição, el hamdu lillah. O pior é que os cobres começam a faltar e estamos em obras nas duas escolas de Jir e Taiba. Quando o material é chinês e não há outra escolha acontece isto, refazer o podre que não aguentou sequer um ano. Talvez cometemos o erro de começar obras sem contar com o que se tem na mão, como diz o Evangelho. Mesmo no banco, que seria a minha solução, não tem dinheiro para me dar, muito menos para me emprestar. Diz-me o meu amigo director do banco que espere uns dias até ver, que vai ver se mo arranja. Há pois que confiar em Deus e no Sr. Director. Isto é que vai uma crise, eh?! A rir digamos mas é a verdade pura. O Sudão, os dois Sudãos, estão mesmo na mesma mó de baixo. Bem, dizem que o humor também faz bem. Assim seja por sempre. Ámen!

A propósito, estou aqui a agradecer as amêndoas da Páscoa que a Província Portuguesa me enviou. Essas, juntas com as de outros amigos/as que também têm a missão do Darfur como apontamento na sua vida de cristãos, vão dando até que o meu amigo do banco arranjar o tal pacote das 20.000 libras sudanesas que me prometeu. Caso contrário, já me vejo na cadeia até pagar o último cêntimo. Mas talvez não será mau de todo pois, pelo menos, sei que lá descansarei das canseiras dos dias de tanto trabalho do lado de fora das grades. Também... pela comida que me darão na prisão – ful e lentilhas, sempre da mesma cor, todos os dias e sempre – seria um tanto ao quanto aborrecido. Embora, a verdade se diga, são das melhores comidas que por aqui encontro.

Obrigado a todos vós da Província Portuguesa pela rica oferta da Páscoa. Deus vos recompense em grande por meio daquilo que Ele melhor do que nós sabe.

Bem, já me levantei três vezes e outras tantas voltei a sentar-me. Mas agora é de vez, a esta hora da manhã, (não te digo que horas são). Deus me ajude a ter força para o pica-boi, amanhã. Pedindo desculpa pela tua paciência, se é que conseguiste ler-me até aqui. O vale dos lençóis, desta vez, com pó comichoso ou não, terei que o aguentar.

Aqui, hoje, Quinta-Feira Santa, tivemos quatro gatos-pingados mas a celebração foi muito boa. Fiquei contente mesmo com os poucos 15 paroquianos. Já muito fazem eles, muito boa gente e de muito boa fé. Embora digam eles que não perdoar aos Janjauides, ao governo de El Bashir e de Salva Kiir não é pecado. Deus que os julgue que eu não posso.

De todos os modos, seria talvez muita coisa esperar que venham a todas as celebrações, sendo a que mais sofre de participantes a Quinta-feira.

Em Outubro estamos para entregar a paróquia à diocese. É uma grande pena mas não se pode aguentar mais sem nos podermos mexer lá por longe no trabalho pelas periferias da imensa paróquia do Sul do Darfur. Quando o pessoal e padres sudaneses (Nubas) podem fazê-lo... O bispo Tombe Trille, Nuba, inteligente, muito bom homem de Deus e sério, não teve senão que aceitar a proposta do Provincial. Dar-nos-á uma paróquia onde nos poderemos mover sem problemas de (maior) perto de El Obeid. Mau... de aí já fui eu expulso em 1994 pelos mesmos motivos, da guerra... Mas Deus lá está, como aqui dizem. Mas uma vez, precisamos da vossa oração. Shukran!

O sono fugiu e ainda não voltou. Deus me ajude de manhazinha na operação pica-boi.

Uma boa e Santa Sexta-Feira Santa a prolongar-se pela Páscoa, a grande Páscoa sem fim! Ámen!
Feliz Martins

5 de abril de 2018

ADEUS, SACOS DE PLÁSTICO



Quénia interdita fabrico e uso de sacos de polietileno.

À terceira foi de vez: depois das falsas partidas em 2007 e 2011, o Quénia baniu o fabrico e uso de sacos de plástico (polietileno) em 28 de Agosto de 2017. A lei, saída do Ministério do Ambiente e dos Recursos Naturais e da Autoridade Nacional da Gestão do Ambiente, é das mais pesadas do globo: fabricantes e comerciantes do artigo proibido ficam sujeitos a uma multa de dois a quatro milhões de xelins (entre 16 mil a 32 milde euros) ou a pena de prisão de dois a quatro anos.

A interdição do uso dos sacos de polietileno foi comunicada via SMS e por meio de anúncios que aconselhavam as pessoas a usarem embalagens próprias ou bolsas recicláveis para levar as compras. Os sacos amontoados em casa tinham de ser entregues em pontos indicados para reciclagem.

O Quénia junta-se a mais de uma dúzia de países africanos que proibiram total ou parcialmente os sacos de plástico leves ou taxam o seu uso como a Eritreia (que os baniu em 2005), Ruanda (fê-lo em 2008), Guiné-Bissau, Cabo Verde, Tunísia, Camarões, Mauritânia, Senegal, Zanzibar, Marrocos, África do Sul, Maláui e Uganda. Namíbia e Tanzânia devem juntar-se-lhes em breve.

A indústria queniana dos sacos de polietileno opôs-se à proibição, que – diz – custa 60 mil postos de trabalho nas 176 fábricas que vão ter de fechar. O Quénia era um dos maiores fabricantes de sacos de plástico na região. Um industrial do ramo está mesmo a exigir em tribunal uma compensação pela perda do investimento.

Lylian Naswa, funcionária pública que mora no Quénia profundo, saudou a medida: «Sacos de plástico? É certo acabar com eles. É uma barafunda total com os sacos de plástico atirados por todo o lado. É o adeus aos sacos de plástico.»

O saco de plástico, além de ser uma fonte enorme de lixo e sujeira nos espaços públicos – fez-me impressão ver as pequenas acácias do antigo aeroporto de Cartum «decoradas» com sacos coloridos levados pelo vento, quais árvores de Natal fora de lugar e de tempo –, entope sistemas de drenagem e provoca inundações.

Sobretudo, afecta seriamente a vida na terra e nos oceanos: um saco de polietileno leva até 1000 anos a decompor-se e, segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente, com sede em Nairobi, só os supermercados distribuem mais de 100 milhões de sacos por ano no Quénia. O país usa 288 milhões de sacos por ano. Muitos animais marinhos confundem o plástico com comida e introduzem-no na cadeia alimentar ou morrem devido à sua ingestão como também acontece a algum gado, sobretudo cabras e vacas.

A interdição já reduziu em 80 por cento o uso de sacos de polietileno, embora continuem a entrar ilegalmente no país através dos vizinhos Uganda e Tanzânia. O braço pesado da lei também já se faz sentir: em Fevereiro, um juiz de Mombaça condenou 29 pessoas a uma multa de 50 mil xelins (cerca de 400 euros) cada ou a um ano de prisão pelo uso do artigo proibido.

Entretanto, enquanto na Europa se tenta reduzir o uso de sacos de plástico leves para 40 unidades por ano por cabeça até 2025, as autoridades quenianas já têm um novo alvo na mira: as garrafas de plástico.

27 de março de 2018

SINAIS DA RESSURREIÇÃO SÃO MAIS ABUNDANTES



Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais … vós o matastes, cravando-o na cruz por meio de gente perversa… Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas (Actos 2, 22ss)

O Conselho Geral, reunido nestes dias de Consulta, quer desejar a cada um de vós uma Santa Páscoa na Alegria e na Paz de Cristo Ressuscitado.

Este ano, mais do que noutros anos, parece que a Páscoa nos chega de modo veloz, rápido, quase inesperado. Parece que o tempo corre mais rápido ou são talvez os acontecimentos que nos surpreendem e nos fazem sentir a urgência da Páscoa, o desejo de celebrá-la como Jesus e com Jesus: «Tenho de receber um baptismo, e que angústias as minhas até que ele se realize!» (Lucas 12, 50).

Celebramos a Páscoa de Jesus, a Páscoa dos apóstolos e de cada um de nós. Celebramos a Páscoa dos povos que sonham um mundo mais justo e fraterno. Celebramos a Páscoa da criação que espera ser renovada e feita nova criatura em Cristo. Na realidade todos nós gememos com gemidos inefáveis, enquanto esperamos a nossa libertação: «Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto. Não só ela. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito» (Rom 8, 22-23).

Desde o início deste ano de 2018 que o Senhor nos fez experimentar de um modo muito concreto o significado desta Festa através da passagem de alguns dos nossos confrades – seis no total – que o Pai chamou a si. Eles celebraram a sua páscoa definitiva. Alguns, de modo inesperado como o P. Rogelio Bustos Juárez, membro do Conselho Geral. A páscoa para ele veio depressa, sem pré-aviso. Para outros, fez-se anunciar deixando espaço para um caminho de purificação, lento e atribulado. Mas em todas as situações, a Páscoa chega através do sofrimento, do despojamento, do perder-se na vontade do Pai: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice! No entanto, não seja como eu quero, mas como Tu queres!».

Nas visitas que fizemos este ano, como Conselho Geral, ao Uganda, Sudão do Sul, Togo, Gana, Benim e República Democrática do Congo, tocámos os sinais da paixão de Jesus na vida desses povos. Contudo, são ainda mais abundantes os sinais da Ressurreição revelados nos sonhos dos jovens, na beleza das crianças, na resistência dos adultos. E na vida doada de tantos pastores, dos catequistas e dos nossos missionários, testemunhas da Ressurreição, verdadeiros sinais do facto que Deus continua a ressuscitar Jesus de Nazaré cada dia.

Caros confrades, queremos convidar-vos a viver a Páscoa de modo simples e humilde, convictos de que Jesus venceu verdadeiramente a morte e o sofrimento, nossos e do mundo. Encorajamos-vos a vivê-la como o grão de trigo que morre para dar fruto abundante; como o peregrino que avança na noite da dor e do desespero tendo os olhos fixos na luz que emana do Ressuscitado; como as mulheres diante do sepulcro que «erguendo os olhos, observaram que a pedra tinha sido rolada, apesar de muito grande»; como os apóstolos no cenáculo que, ouvindo as palavras de Jesus «A paz esteja convosco!», se encheram de alegria; como os discípulos de Emaús que se deixaram acompanhar pelo peregrino desconhecido que lhes faz arder o coração ao explicar-lhes as Escrituras e se lhes revela na fracção do Pão; como Comboni, que viveu a missão sob o sinal da Cruz Gloriosa do Ressuscitado: «A cruz é o único conforto verdadeiro, porque é a marca da obra de Deus. À paixão e morte de J. C. seguiu-se a ressurreição. O mesmo sucederá na África Central» (Escritos 5559).

Queremos desejar-vos um tempo de alegria profunda deixando-nos fascinar pela presença gloriosa do Ressuscitado que venceu a morte e continua também hoje a vencer todos os tipos de morte do nosso mundo. Ele inunda-nos com a sua Luz, enche-nos de esperança e abre os nossos olhos à sua Presença inefável!
O Conselho Geral

26 de março de 2018

COLABORAÇÃO: DENOMINADOR COMUM




ENCONTRO CONSELHOS PROVINCIAIS DE PORTUGAL E ESPANHA 
Viseu, 20 de março de 2018 

Queridos irmãos em Cristo das províncias de Espanha e Portugal,

Os conselhos provinciais de Espanha e Portugal, reunidos em Viseu a 20 de março de 2018, queremos agradecer a Deus este tempo de caminho quaresmal que estamos a percorrer e permanecemos à espera da Ressurreição de Jesus, que anima as nossas vidas e dá um sentido novo à missão.

Se a memória não nos falha, já é o quarto ano em que os dois conselhos provinciais nos encontramos para continuar a colaborar entre ambas as províncias em espírito de serenidade e escuta de Deus e dos membros das duas províncias. Antes de mais, damos graças por perceber que não há tensões entre nós e que a colaboração é o denominador comum que nos acompanha para podermos fazer juntos tudo o que seja factível e possível.

Em fins de abril, e pela primeira vez, encontrar-nos-emos em Salamanca para as duas províncias fazerem o Retiro em conjunto acompanhados pelo Padre Geral. Sem dúvida que será para todos nós um momento de graça e de bênção.

Na reunião que tivemos aqui em Viseu, avaliámos os compromissos que fixamos na reunião de Granada no ano passado e seguimos mantendo este espírito de colaboração.

Contudo, desejamos focar a nossa atenção em três sectores que queremos continuar a ter em consideração:
  1. Formação Permanente. Mantemos o nosso compromisso de continuar a trabalhar juntos na medida do possível em encontros interprovinciais como: retiro, encontros com combonianos anciãos, encontro de formação permanente e estudo conjunto do Código Deontológico a partir do momento que a sua redação final esteja aprovada. Tudo isto se concretizaria com a criação de uma só Comissão de Formação Permanente a nível ibérico. 
  2. Proposta para criar um Postulantado Ibérico em Granada e um noviciado europeu, como já acontece em Santarém. 
  3. Proximamente vai realizar-se um encontro conjunto entre Portugal e Espanha para partilhar e analisar trabalhos pastorais nas paróquias onde haja uma presença comboniana. 
Agradecidos a São Daniel Comboni por manter vivo em nós este clima de continentalidade que caraterizou a vida do nosso santo fundador, desejamos continuar a crescer no espírito pascal de Cristo morto e ressuscitado.
Os Conselhos Provinciais de Espanha e Portugal 
Viseu, 2018

21 de março de 2018

RESISTIR É CRIAR – RESISTIR É TRANSFORMAR


Mensagem final dos membros da Família Comboniana
Participantes no Fórum Social Mundial e no Fórum Comboniano 

Ministerialidade e trabalho em rede/colaboração na Família Comboniana
e com as outras organizações 

Salvador da Bahia, 10-19 de Março de 2018 

Nós leigos, irmãs, irmãos e padres missionários combonianos, que participámos no Fórum Social Mundial (FSM) e no Fórum Comboniano (FC), saudamos-vos a partir de Salvador, terra de resistência negra e de culturas afrodescendentes, com um coração cheio de gratidão e de esperança. De 10 a 19 de Março de 2018 vivemos juntos uma experiência forte e única ao participar no FSM, que tinha como tema “Resistir é criar – resistir é transformar” e no VIII FC com o tema “Minsiterialidade e trabalho em rede/colaboração na Família Comboniana e com as outras organizações”. Agradecemos de modo particular aos nossos conselhos gerais que juntos nos escreveram uma mensagem de encorajamento pelo empenho na JPIC e pela nossa participação no FSM como experiência do vivido do nosso carisma nos desafios do mundo de hoje.

A nossa participação foi relevante e numerosa: 53 pessoas provenientes da África, Europa e América. Experimentámos a grande riqueza do nosso carisma na variedade dos nossos empenhos. Pela primeira vez participaram também representantes dos jovens em formação no escolasticado e no CIF com um seu formador. Agradecemos também pelas respostas recebidas de quatro escolásticos ao questionário que o comité central tinha enviado com o objectivo de compreender até que ponto é que os temas da JPIC estão presentes na formação. Reafirmamos o empenho de envolver sempre mais as pessoas em formação e os formadores sobre os temas da JPIC e nas dinâmicas do FSM e do FC.

No FSM apresentámos como Comboni Network quatro workshops: Land grabbing, Extracção minerária, Situação sócio-política da RD. do Congo e do Sudão do Sul, Superação da violência e discriminação de género. Isto permitiu-nos partilhar na metodologia do FSM o nosso empenho como missionários e missionárias por um outro mundo possível. Um stand, preparado por nós, permitiu-nos fazer animação missionária, encontrar e dialogar com muitas pessoas e darmo-nos a conhecer. Entre os numerosos workshops propostos pelo FSM, acompanhámos com interesse Os novos paradigmas, Teologia e libertação, Jovens, Resistência dos povos originários e afrodescendentes, e Migrações. Durante o desenvolvimento do Fórum, participámos também na assembleia mundial das mulheres. O FSM realizou-se em clima de festa, interrompido pela morte de dois activistas dos direitos humanos: Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e Sérgio Paulo Almeida do Nascimento, em Barcarena, estado do Pará.

O Fórum Comboniano realizou-se no signo da continuidade com os encontros precedentes. As jornadas foram intercaladas por momentos inculturados de espiritualidade, durante os quais celebrámos a vida, os sofrimentos e as esperanças, em sintonia com as realidades dos Países de proveniência e com aquelas encontradas no Fórum. Interrogámo-nos sobre a necessidade de aprofundar a reflexão acerca dos novos paradigmas da missão, de consolidar esta experiência como família comboniana e de poder dar maior espaço de participação aos leigos e às leigas. Nesta reflexão fomos acompanhados e animados por Marcelo Barros, que partilhou o estado actual da teologia e libertação, e Moema Miranda, que, depois de uma análise da realidade mundial, indicou algumas luzes para o caminho propostas pela Laudato Si’. Perante um neoliberalismo sem limites, o convite lançado foi no sentido de pôr em diálogo os pobres e de consolidar a fé na presença do Espírito de Deus que caminha connosco na história.

Interpelados por aquilo que vivemos, propomos:
  • Publicar um livro que reúna a história e as esperanças destes onze anos de Fórum Comboniano, indicando caminhos para o futuro. 
  • Ampliar a coordenação do Comboni Network para um melhor serviço de sensibilização e formação sobre os temas da JPIC. 
  • Realizar um Fórum Social Comboniano continental para pôr em confronto as diversas realidades nas quais estamos empenhados. 
  • Criar um fundo económico para sustentar as actividades ligadas ao empenho da JPIC. 
  • Consolidar uma plataforma on-line onde recolher e partilhar experiências e material sobre os temas da JPIC. 
Depois desta experiência, sentimos ainda mais consistente a importância de nos reencontrarmos para uma maior colaboração entre nós, para nos confrontarmos como Família Comboniana e como pessoas empenhadas em âmbitos diversos mas unidos no empenho da JPIC para procurar novos caminhos de minsiterialidade e novos paradigmas da missão.

Salvador da Bahia, 19 de Março de 2018
Festa de São José, Operário

20 de março de 2018

«ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA»




«ALARGA O ESPAÇO DA TUA TENDA» (Is 54, 2) 

Mensagem final da 18ª Assembleia Geral da UCESM 

Snagov (RO), 5-10 de março de 2018 

Durante estes dias tivemos a oportunidade de experimentar a nossa unidade através da diversidade. Reunidos juntos como os religiosos da Europa, ouvimos a chamada de Deus e da Igreja para sairmos para as pessoas necessitadas.

Estamos profundamente comovidos pelo sofrimento de milhões de pessoas deslocadas que migram de todo o mundo e dentro da Europa. Como UCESM (União das Conferências Europeias dos Superiores Maiores), queremos ampliar o espaço da nossa tenda para os acolher.

Inspirados pelo Evangelho de Jesus, movido pelo Espírito Santo e os desafios que ouvimos ao longo do tempo que estivemos juntos, comprometemo-nos a continuar a apoiar a população migrante na Europa. Ao respeitar e defender a dignidade e os direitos humanos de todos os migrantes, esforçar-nos-emos para atender às suas necessidades através do acompanhamento, do serviço e da advocacia.

UCESM, que inclui comunidades interculturais na Igreja na Europa, compromete-se a ficar ao lado dos nossos irmãos e irmãs deslocados em amizade e oração. Nós também apoiamos a todos no seu direito de ter um lar. A nossa esperança é estar abertos a cada um com um coração que escuta.

Todos somos chamados a sair, a encontrar migrantes, a agir como congregação e das nossas comunidades onde estamos. É unindo-nos nesse caminho global de compreensão e ação que seremos um testemunho profético do amor de Deus para todas as pessoas. Amando-nos uns aos outros, incluindo o nosso próximo e o outro, o espaço dos nossos corações será ampliado e nossa «tenda» abrangerá muitos mais.

Snagov, 9 de março de 2018

CARTA ABERTA DE APOIO AO POVO DO BRASIL



«Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus» Mt 5,10).

Nós, leigos, irmãs, irmãos e padres missionários combonianos de 16 países, de 3 continentes diferentes, reunidos em Salvador da Bahia no âmbito do Fórum Comboniano (de 11 a 19 de março) e do Fórum Social Mundial (de 13 a 17 de março) queremos nesta carta aberta manifestar a nossa solidariedade ao povo brasileiro de maneira geral e, em particular, a todas as pessoas de boa vontade que, apesar dos tempos difíceis da atualidade, de golpe e reformas nocivas, de intervenção militar, perseguições, ameaças e assassinatos, mantêm-se firmes no empenho da defesa dos direitos das pessoas e da criação, resistindo contra todas as formas de discriminação de gênero, raça, etnia, religião e ainda de destruição do meio ambiente.

A situação política e social com a qual nos deparamos no Brasil, de modo mais relevante os recentes assassinatos de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e de Sérgio Paulo Almeida do Nascimento, em Barcarena, Pará, causa-nos espanto e atinge-nos como parte da mesma família humana e de toda a criação, na certeza de que tudo está interligado, e impulsiona-nos, inspirados pelo carisma do nosso fundador, São Daniel Comboni, a fortalecer o nosso empenho na defesa de uma vida digna para todas as pessoas, e sobretudo, as mais pobres e abandonadas da sociedade.

Como missionárias e missionários, interpelados pelo testemunho de Jesus Cristo, reafirmamos o nosso compromisso nas várias dimensões da justiça e da paz, unindo-nos a todas e a todos os defensores da dignidade da vida humana e da criação, e auguramos que a força do Ressuscitado nos anime e fortaleça sempre mais na construção de um mundo mais justo e fraterno, nos guie pelos caminhos do Bem-Viver, e nos inspire nas denúncias das violações que ferem estes ideais.

Continuamos unidos e unidas,
Os 53 participantes do Fórum Comboniano 2018.
Salvador da Bahia, 19 de março de 2018
Dia de São José, Operário


16 de março de 2018

S. MIGUEL (AÇORES): ROMARIAS QUARESMAIS






Este ano, mais uma vez, participei nas Romarias Quaresmais da minha terra. Devo confessar que para mim, foi uma das mais penosas; o ideal é ter entre 30 e 50 anos para poder caminhar longas horas com chuva ou com calor. Este ano fomos agraciados com uma semana de tempestade, vento forte, chuva, granizo e… muito frio.

As Romarias (não confundir com as festas que em Portugal se realizam e que usam o mesmo nome), surgiram em meados do século XVI (1522), durante a última grande erupção vulcânica na Lagoa do Fogo, que atravessou a ilha, dividindo-a a meio, destruindo a então capital, Vila Franca do Campo. As pessoas apavoradas percorreram as Igrejas e lugares de culto onde se encontrasse uma imagem da Virgem Maria, procurando a sua intercessão.

O movimento eminentemente laical e só para homens, foi criando raízes e hoje está estruturado do seguinte modo: caminha-se uma semana completa; à frente vai a cruz pendurada ao pescoço de um adolescente. Cruz essa que é beijada à noite e no início do dia seguinte. Os romeiros formam duas filas, ocupando meia faixa de rodagem da estrada. Na parte final do “rancho” caminha o mestre (pessoa escolhida entre os romeiros e confirmada pelo pároco e com plenos poderes durante a caminhada), encerra o cortejo o “arrematador das almas”, nome simpático que se dá àquele que vem no fim do cortejo e cuja função é informar as pessoas sobre o número dos irmãos, proveniência e tomar nota de pedidos de oração (Pai-Nossos, Ave-marias, Glórias…). Ao número dos irmãos acrescenta-se mais três, Jesus, Maria e José. A quem pede uma Ave-maria, cada romeiro rezará uma e a pessoa rezará outra por cada romeiro, está é uma maneira simples de oração de intercessão.

A caminhada inicia-se pelas quatro da manhã e dura todo o dia. Faz-se uma média de 35/40 kms por dia, porque muitas vezes andamos aos ziguezagues entre igrejas capelas e oratórios.

Terminado o dia, o sino da paróquia onde se dorme dá um sinal para que a população venha receber e dar dormida aos romeiros.

Chegados a casa de quem oferece hospedagem, é feita uma oração, toma-se banho, janta-se e vai-se dormir… porque a canseira é grande. Muitas vezes as pessoas oferecem os seus quartos e vão dormir em sítios menos cómodos. Para compensar o romeiro deixa o terço pessoal já rezado para que a família o ofereça pelas suas intenções.

Diferenças entre as Romarias Quaresmais e caminhar a Fátima a pé:

Na romaria todos se tratam por irmãos. Todos os grupos (paroquiais) caminham no sentido dos porteiros do relógio, ficando o mar à esquerda. Raramente se ultrapassam e quando o têm de fazer abre-se alas e depois da saudação deixam-se passar pelo centro. Caminha-se em duas filas e ocupa-se sempre os mesmos lugares na fila. O mestre tem muito poder e é obedecido por todos. A Romaria Quaresmal não é um passeio, mas um tempo de sacrifício, penitência e oração. Ninguém fala enquanto se reza ou caminha, até que seja dada ordem em contrário. Ninguém fica para trás, só excecionalmente e com conhecimento do mestre. Ninguém abandona o grupo, seja pelo motivo que for e caso o tenha de fazer, só o faz com autorização do mestre, acompanha-o outro irmão. O mestre fala pouco; tem uma pequena campainha no bolso e quando toca todos páram, mas a reza continua até que ele diga “seja louvado Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Indumentária: Roupa larga, xaile dobrado ao meio, contendo no meio um plástico para abrigo em caso de chuva, um saco de pano que serve de mochila para roupa, comida, produtos de higiene… (convém que pese pouco), lenço para a cabeça que abriga do frio do sol ou da chuva e um bordão que ajuda nas subidas e descidas.

Comida: A paróquia organiza-se e leva-nos uma refeição por dia. A outra, faz-se na casa onde se pernoita. O café é servido também por grupos que se organizam. Regra geral, o álcool não é permitido.

Orações: chegados a uma aldeia, rezamos em voz alta a Ave-maria e o Pai-Nosso; reza-se pelas intenções e necessidades das pessoas que ali vivem. Chegados à Igreja cantam-se as saudações à Virgem. Dentro da Igreja implora-se a proteção de Deus para os romeiros e para a comunidade cristã. O bispo diocesano dá uma lista de intenções para serem rezadas.

Pessoalmente, gosto de caminhar de madrugada em silêncio, tendo como música de fundo a oração dos irmãos. Vou fazendo revisão de vida e rezando por todos aqueles que me pedem. Pena é que a experiência de oração e fraternidade que experimentamos, fique tantas vezes só por aquela semana.

Pe. José Tavares
Missionário Comboniano

12 de março de 2018

INQUÉRITO «ALÉM-MAR»


Se é leitor da revista missionária Além-Mar, por favor, colabore connosco e dedique dois minutos a responder a este inquérito AQUI.

Obrigado pela sua visita e pelos minutos que dedica a preencher este questionário. Completá-lo vai-nos ajudar a obter os melhores resultados para a edição da revista Além-Mar.

Obrigado!

11 de março de 2018

R.D. do Congo: APELO VIBRANTE



 Eugène MUHINDO Kabung

«Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!» (Mt 25:40)

Porque é que me persegues, porque é que me matas? Não pertencemos todos à mesma natureza humana? Haverá ainda um pouco de humanidade? É certo que o sofrimento é inerente à humanidade, porque nascer já é entrar no sofrimento (Schopenhauer). No entanto, sem pretender omitir esta afirmação, o nosso olhar para com o outro deve nos desafiar a viver o dom do irmão, irmã. Desta forma, longe de persegui-lo, massacrá-lo, sequestrá-lo, é humano partilhar e promover a cultura da paz.

O que é que realmente está acontecendo no Congo, particularmente em Kinshasa, Lubero e especialmente Beni? Não podemos ficar indiferentes quando as pessoas são mortas, violadas sequestradas. Quem é o pai que se alegra com a morte de seus próprios filhos e seu infortúnio? A não ser que seja um sádico, tornando-se como aqueles animais que comem os seus próprios pequeninos.

A realidade que se está vivendo na República Democrática do Congo é trágica e podemos perguntar-nos que legado estamos a deixar para as gerações futuras, ao semearmos todos os dias a semente da vingança. Com certeza que não é apenas aqui no Congo, mas, em tantas outras partes do mundo que sofre de constantes guerras e estupros, como no Sul do Sudão. É horrível, o que se está a passar na província do Norte do Kivu (RD Congo) e em particular nas cidades Beni e Lubero de onde sou natural: massacre de populações, violações de mulheres e crianças, raptos de crianças para fazer delas crianças-soldados. Desde 2009 até hoje este fenómeno aumenta de dia para dia. Desde então, vive-se autênticas barbaridades, onde muitas famílias foram reduzidas e encontram-se num estado de pobreza e luto. Na minha família por exemplo em menos de um ano perdemos quatro membros, todos eles raptados e deles não há notícias. O mais certo é que foram mortos à machadada ou com machetes ou com outro tipo de armas brancas nas florestas vizinhas como tem acontecido com centenas de pessoas. Pergunto-me para que servem os 17 000 soldados da ONU (MONUSCO). O número de viúvas, de crianças órfãs aumenta de dia para dia, famílias inteiras são exterminadas.

Quero deixar-vos o testemunho de uma criança que encontrei numa família de acolhimento: «Eu chamo-me Ali, nasci e cresci em Eringeti. Os meus pais são agricultores. O meu pai tem um moinho. Numa certa tarde em que o pai tardava em regressar do moinho, uma multidão de homens e mulheres, jovens altos, uns vestidos de preto e outros de branco entram na nossa casa. A minha tia estava na cozinha, a minha mãe no quarto, o meu tio na sala de entrada, eu e meus irmãos junto da nossa tia. Estes homens obrigaram-nos a partir com eles. Quando partimos, um deles colocou-se sobre os meus ombros e perguntou-me como me chamava, eu respondi-lhe que me chamava Ali. Eles tinham catanas, machados, martelos, etc. Quando chegámos junto de uma bananeira, longe do nosso bairro, começaram a massacrar a gente. Então eu chorava… chorava… Sim, chorava. Eles deixaram-me junto de uma mulher toda enxovalhada e suja. Eu pensava que era a minha mãe. Então eu chamava: Mãe, mãe, mãe… Oh mãe, tu dormes muito, mãe eu tenho frio, cobre-me, mas a mãe não respondia. Durante toda a noite eu chorava pela mamã. Então pela manhã cedo um senhor apercebeu-se que eu chorava pela mamã. Este senhor estava com medo e correu de volta para me encontrar e levar-me dado que eu me encontrava no meio das pessoas que tinham sido mortas. As minhas roupas estavam banhadas de sangue. Então, a esposa deste senhor vestiu-me e deu-me de comer. Por fim reconheceu minha identidade.

Quando meu pai chegou (...) um dos meus irmãos chegou a casa, trouxe a mensagem de outros mortos: mãe, tia, tio e irmãos, e aqueles que ele não conhecia. Eram dez horas da manhã. Então meu pai, perturbado, chamou um seu amigo da localidade de Beni. Ele veio ter connosco após os enterros. Eu continuava a chamar e chorar: Mamã, mamã, mamã… A minha morreu desta maneira e o meu pai está doente.»

Podemos imaginar o sofrimento desta criança e o trauma que se seguiu. O testemunho desta criança nos mostra o sofrimento de milhares de crianças que viram morrer as suas mães e mães que viram morrer os seus filhos de forma horrorosa e indiscritível.

Quero deixar um apelo vibrante a toda a humanidade para que o fogo da caridade possa acender-se em cada pessoa a fim de podermos construir um mundo mais humano e fraterno. Quem és tu que matas o teu irmão? Recorda-te que «todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão».

A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano interpela-nos a estar atentos aos profetas da mentira, citando a passagem de Mt 24,12: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos». Cada um interrogue-se o que está fazendo pela paz no mundo. E assim, ouça, veja e aja. Que a misericórdia de Deus converta os inimigos da paz.

Que Cristo seja o nosso modelo. E que Maria e José intercedam por este povo sofredor.

Kisangani, 09/03/2018 
Eugène MUHINDO Kabung, 
Postulante comboniano

1 de março de 2018

LIDERANÇA EXCEPCIONAL


Fundação distingue ex-presidente da Libéria.


A Fundação Mo Ibrahim honrou Ellen Johnson Sirleaf, ex-presidente da Libéria, com o Prémio Ibrahim 2017 para a Excelência na Liderança Africana.

Numa citação de treze parágrafos, a Fundação explica que «confrontada com desafios renovados e sem precedentes, Ellen Johnson Sirleaf demonstrou uma liderança excepcional e transformadora» durante doze anos à frente da república mais antiga da África.

A laureada tem uma história de vida notável: nasceu há 79 anos em Monróvia, a capital liberiana; formou-se em Economia na Libéria e em Harvard, nos Estados Unidos; foi ministra das Finanças; viveu em detenção domiciliária e foi presa; foi exilada no Quénia e nos EUA; dirigiu o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para a África; trabalhou no Banco Mundial.

Perdeu as presidenciais de 1997 para Charles Taylor e ganhou as de 2005 ao ex-futebolista George Weah, sendo a primeira presidente africana eleita. Conduziu a Libéria dos horrores de catorze anos de guerra civil (que fez 250 mil mortos) para a democracia. Conduziu o processo de reconciliação nacional, alistou a ajuda de grandes organizações humanitárias e atraiu investimento estrangeiro.

Em 2011, partilhou o Prémio Nobel da Paz com outras duas laureadas e conquistou o segundo mandato presidencial. O Comité Nobel quis distinguir a presidente Sirleaf por «salvaguardar a paz, promover o desenvolvimento económico e social e por reforçar a posição das mulheres».

É esta liderança que a Fundação Mo Ibrahim quer reconhecer e celebrar com o prémio que concedeu à ex-presidente liberiana: «Durante doze anos no cargo, Ellen Johnson Sirleaf pôs os alicerces sobre as quais a Libéria pode ser agora construída. No processo, ela restaurou a dignidade dos Liberianos e o orgulho do país.» E continua: «Manteve firmemente as suas prioridades e a sua determinação para ter êxito em nome do povo da Libéria.»

Mais benquista no exterior que no seu país, a «Dama de Ferro» africana enfrentou algumas dificuldades: apoiou numa eleição o senhor da guerra Charles Taylor; foi acusada de corrupção e nepotismo (empregou os filhos em lugares-chave do governo); dias antes de terminar o mandato, o seu partido expulsou-a, porque apoiou George Weah nas presidenciais de 2017 em vez de fazer campanha pelo seu vice-presidente Joseph Boakai. E teve de lidar com a grave epidemia do vírus de ébola que matou quase cinco mil liberianos entre 2014 e 2015 e afectou severamente a economia nacional. Mas, para a Fundação Mo Ibrahim, estes reveses não minoram a liderança de excelência da senhora Sirleaf.

Ellen Sirleaf junta-se à galeria dos líderes laureados pelo Prémio Ibrahim que inclui Hifikepunye Pohamba da Namíbia (2014), Pedro Pires de Cabo Verde (2011), Festus Mogae do Botsuana (2008) e Joaquim Chissano de Moçambique (2007). Nelson Mandela recebeu o prémio a título honorário em 2007. E embolsou cinco milhões de dólares americanos pagos em prestações durante dez anos, mais 200 mil por ano depois de dez anos.

O prémio foi instituído por Mo Ibrahim, magnata anglo-egípcio das telecomunicações, para distinguir e promover a excelência na liderança africana.

20 de fevereiro de 2018

Bispos: ABERTURA SOLIDÁRIA


Os bispos das 21 dioceses de Portugal publicaram as respetivas mensagens para a Quaresma, exceto Viseu, e indicaram a quem se vai destinar o produto das renúncias quaresmais dos diocesanos. A maioria manifestou uma abertura de horizontes que importa assinalar.

Assim:
  • Viana do Castelo reparte as entradas pelas obras na catedral e o financiamento de um hospital no Gana; 
  • Braga destina o produto ao Fundo Partilhar com Esperança e à missão de Ocua, em Pemba (Moçambique); 
  • Lamego contempla as obras no seminário para o adequar à formação pastoral e as vítimas da guerra no Kivu (RD do Congo); 
  • Porto reparte a pecúnia com Fundo Solidário Diocesano e a Guiné-Bissau; 
  • Viseu vai ajudar as vítimas dos fogos do ano passado e uma missão vicentina em Moçambique; 
  • Guarda também auxilia as vítimas dos incêndios e uma obra na Guiné-Bissau; 
  • Aveiro apoia o colégio da diocese e São Tomé e Príncipe; 
  • Leiria-Fátima vai ajudar os cristãos perseguidos no Iraque e no Paquistão; 
  • Portalegre-Castelo Branco tem a RD Congo e o Fundo solidário como destinatários; 
  • Setúbal vai ajudar os cristãos no Iraque e Síria e um projeto na Trafaria; 
  • Évora também destina as renúncias à Síria;
  • Beja distribui o dinherio pela Terra Santa e pela diocese; 
  • Funchal quer ajudar o Fundo Social Diocesano e construir casas para os cristãos no Iraque;
  • Forças Armadas e de Segurança reservam um terço para a capelania e enviam dois terços para Moçambique; 
  • Lisboa vai financiar um programa de educação na República Centro-Africana.

Quanto às restantes dioceses,
  • Santarém quer melhorar o Fundo de Partilha Diocesano, 
  • Angra apoia as vítimas dos incêndios nas dioceses de Portalegre-Castelo Branco e Viseu; 
  • Bragança-Miranda está virada para o seminário e a pastoral;
  • Vila Real empodera a Conferência de São Vicente de Paulo para fazer face à pobreza encapotada e vai criar bolsas de estudo para ajudar seminaristas pobres;
  • Coimbra quer apoiar a Obra Frei Gil 
  • e Faro ajudar um projeto em Aljezur.

Os bispos estão de parabéns: a maioria vai para além das necessidades entre portas e vai fazer chegar o produto da renúncia solidária à África e à Ásia.

9 de fevereiro de 2018

HORA CR17


Ramaphosa conquistou a liderança do ANC. Por fim!

Cyril Ramaphosa, o CR17 da África do Sul, ganhou a liderança do Congresso Nacional Africano – ANC em inglês – para os próximos cinco anos. O combate eleitoral de 18 de Dezembro com Nkosazana Dlamini-Zuma, a ex-mulher do presidente em exercício, foi renhido e dramático. O resultado do escrutínio foi anunciado depois de sucessivos adiamentos. A vitória foi curta: de 179 votos num colégio de quase 5000 eleitores-delegados vindos de todo o país.

Estive na África do Sul no início de Novembro e deu para perceber pelos jornais e pelos colegas missionários que a eleição da liderança do ANC prometia luta até ao fim, sem um vencedor claro.

Explicaram-me que a vitória de Dlamini-Zuma seria um seguro de vida para o presidente ex-marido a contas com inúmeros processos por corrupção. Se Ramaphosa ganhasse, Jacob Zuma seria o grande perdedor, pois ficava à mercê de novas investigações judiciais. O presidente já sobreviveu a oito moções parlamentares de censura.

Ramaphosa tem um percurso interessante: nasceu no bairro negro de Soweto, nos arredores de Joanesburgo, há 65 anos. Iniciou o activismo político ainda jovem e na recta final do regime branco do apartheid. Foi co-fundador da União Nacional dos Mineiros, um dos maiores e mais poderosos sindicatos do país. Negociador hábil, era o braço-direito de Nelson Mandela nas conversações com o Partido Nacional que pôs termo ao regime de discriminação racial e abriu a África do Sul à democracia.

Tido como sucessor de Mandela, foi preterido em favor de Thabo Mbeki, a escolha do ANC para vice-presidente em 1994 e candidato do partido para as presidenciais de 1999, que ganhou.

Ramaphosa, desiludido, abandonou a política e dedicou-se aos negócios. É apresentado como um empresário de sucesso e um dos sul-africanos mais ricos, embora não conste entre os 22 bilionários africanos da lista da Forbes, que inclui cinco sul-africanos.

Um tribunal absolveu-o de cumplicidade na matança pela polícia de 34 mineiros em Marikana durante uma greve violenta em 2012. Ramaphosa fazia parte da administração da empresa inglesa que explora as minas de platina e enviou um e-mail à polícia para pôr termo à greve.

Em 2012, voltou à política activa e dois anos depois foi eleito vice-presidente. Apesar de integrar a administração do presidente Zuma, é tido como um reformador capaz de guiar o partido e o país para lá dos escândalos de corrupção e relançar a economia do país.

Com a vitória mínima de Ramaphosa, a África do Sul pode começar a recuperar alguma autoridade moral que caracterizou o nascimento da Nação Arco-Íris sob a liderança exemplar de Mandela, mas perdida sucessivamente devido à corrupção e avareza de muitos dos dirigentes do ANC. O país disputa a primazia económica africana com a Nigéria, mas os índices de desemprego (na ordem dos 26 por cento), pobreza e desigualdade social são dos mais altos do mundo.

Ramaphosa será o candidato do ANC às presidenciais de 2019, mas o partido que encabeçou o processo de democratização do país está em queda: nas eleições municipais de Agosto de 2017 perdeu câmaras de cidades importantes para a oposição, incluindo Joanesburgo e Pretória. Além de recuperar a confiança do eleitorado, vai ter de unir o ANC, profundamente clivado pela eleição de Dezembro passado.

7 de fevereiro de 2018

Sudão do Sul: ORAÇÃO E JEJUM


Líderes religiosos propõem que as negociações de paz entre as diversas fações beligerantes no Sudão do Sul sejam acompanhas por orações e jejum.

A Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD) está a facilitar uma nova ronda de negociações entre as partes em conflito no Sudão do Sul para reabilitar os acordos de 2015 e salvar a paz que teima em ganhar raízes no países mais jovem do mundo..

A guerra civil já leva quatro anos e, apesar de alguns acordos assinados pelas partes, o conflito continua a matar e a destruir o país.

Recentemente, António Guterres, secretário-geral da ONU, lamentou que nunca viu «uma elite política com tão pouco interesse no bem-estar do seu povo» como a do Sudão do Sul.

O Conselho das Igrejas do Sudão do Sul proclamou um dia de oração e jejum para o sábado, 10 de fevereiro sob o tema «O meu povo, sobre o qual foi invocado o meu nome, se humilhar e procurar a minha face para orar e renunciar à sua má conduta, hei de escutá-lo desde o céu, perdoarei os seus pecados e curarei dos males o seu país» (2 Crónicas 7, 14).

Por seu turno, o Papa Francisco convidou as pessoas de boa vontade a juntarem-se a ele num dia de oração e jejum pela paz especialmente no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo a 23 de fevereiro.

A guerra fez mais de dois milhões de refugidos e outros tantos deslocados internos no país. O número de mortos é incerto, mas mais de 100 mil pessoas perderam a vida no conflito.

Filippo Grandi, Alto Comissários das Nações Unidas para os Refugiados, disse recentemente que o conflito do Sudão do Sul atingiu «proporções épicas».

Os líderes religiosos do país apelaram às partes sentadas à mesa das negociações em Adis-Abeba que «respeitem, honrem e cumpram o acordo» que assinarem há ano e meio.

«Que o orgulho, avareza, luta pelo poder político não sejam maiores que a necessidade de paz e reconciliação no Sudão do Sul», escreveram.

E deixaram uma mensagem para os países vizinhos: «Que nenhum interesse regional ou bilateral seja servido à custa do povo do Sudão do Sul.»

5 de janeiro de 2018

CONTINENTE DE ACOLHIMENTO


A grande maioria dos refugiados da África são acolhidos na África.

O Papa Francisco dedica o Dia Mundial da Paz – que se celebra a 1 de Janeiro – aos «Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz» e propõe que «com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se vêem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.»

Estamos habituados a ver a África como continente origem de emigrantes e refugiados, mas alguns dos seus países são espaços de acolhimento com práticas exemplares.

Há cerca de 250 milhões de migrantes e 22,5 milhões de refugiados espalhados por todo o mundo; metade tem menos de 18 anos. São gente que procura vida melhor e enfrenta riscos tremendos para a tentar. No ano passado, mais de 3000 morreram afogados no mar Mediterrâneo. Recentemente descobriu-se que algumas centenas foram vendidos como escravos em leilões na Líbia, o porto principal de embarque para a Europa, por menos de 400 euros para trabalhos forçados e prostituição.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugidos diz que a África Subsariana acolhe mais de seis milhões de refugiados, um quarto do mundo inteiro. A maioria escapou do Sudão do Sul, República Centro-Africana, Nigéria, Burundi e Iémen.

O Uganda e a Etiópia são os dois países que mais refugiados têm na África. O Uganda recebeu mais de um milhão de sul-sudaneses que fogem da guerra civil desde Dezembro de 2013, mais 215 mil refugiados da República Democrática do Congo, 50 mil do Burundi, 44 mil da Somália, 20 mil do Ruanda, 13 mil da Eritreia e 11 mil do Sudão. A Etiópia acolheu mais de 847 mil cidadãos do Sudão do Sul, Somália, Eritreia e Sudão.

Os Camarões, Chade e Níger dão guarida a cerca de 200 mil nigerianos que fugiram da violência do Boko Haram.

O Uganda e a Etiópia são apresentados como referência pelas políticas abertas de acolhimento aos refugiados. As autoridades ugandesas distribuem pequenas parcelas de terra aos refugidos para habitação e cultivo, embora a competição pelo domínio dos recursos naturais escassos gere alguma tensão com as populações locais.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, disse na última Cimeira de Solidariedade com os Refugiados que o Uganda é «o símbolo da integridade do regime de protecção aos refugiados» e propôs as suas políticas de portas abertas como exemplo a seguir no acolhimento dos refugiados.

Há países africanos onde há deslocamentos forçosos, mas que também recebem refugiados. Por exemplo, o Sudão do Sul acolhe pessoas do Sudão (mais de 276 mil), da República Democrática do Congo (14 900), da Etiópia (4500) e da República Centro-Africana (1800).

O papa deixa um recado importante na sua mensagem: «Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.» Um alerta que serve para a África e serve para a Europa!

3 de janeiro de 2018

Viseu: DIA DE ALEGRIA




«Celebrai dias de alegria e cantai a Sua glória», diz o Livro de Tobias (13, 8).

É neste registo que a comunidade comboniana de Viseu, hoje, celebra o dom da vida do Ir. António Martins da Costa, que completa 90 anos, e do P. Inácio Babo de Macedo, que faz 68 anos.

O Ir. António Martins além de ser o comboniano português mais idoso é também o comboniano mais antigo: fez os primeiros votos a 9 de setembro de 1954 e os perpétuos seis anos depois.

O Ir. António das Barbas – como é carinhosamente chamado – nasceu em Cepões a 1 de janeiro de 1928, mas foi registado a 3.

A sua vida reparte-se por Moçambique (1962-1969 e 1970-1976), Brasil-Nordeste (1984-1993 e 1997-2009) e Portugal (1954-1962, 1969-1970, 1976-1984, 1993-1997). Regressou em 2010 e vive em Viseu, no Centro de A colhimento da Província.

Apesar de ser o decano da província todos os dias vai trabalhar para a quinta de que é encarregado. A comunidade agradece os vegetais e fruta frescos!

Durante a missa de ação de graças presidida pelo provincial, o Ir. António disse que não pensava chegar a tal idade já que os pais morreram cedo e ele teve alguns problemas de saúde no Brasil.

«Agradeço ao Senhor, porque é Ele que nos leva longe», disse num momento de partilha.

O P. Inácio é de Vila Cova da Lixa. Foi ordenado em 31 de setembro de 1977. Trabalhou na RD do Congo (1977-1983 e 1987-1993), Paris (formador de 1983 a 1987), Moçambique (1999-2008) e Portugal (1993-1999). Regressou em 2008. Vive em Viseu depois de um AVC o ter deixado limitado em julho do ano passado.

«Rezar é o que posso fazer. E não sei rezar», disse durante a eucaristia.

O P. Feliz Martins, missionário no Darfur (Sudão), escreveu uma mensagem para os dois aniversariantes:

Parabéns a você nesta data querida...
Contigo celebro a vida. É bom estares vivo!
Não te espantem os calafrios da velhice!
Porque os anos acumulados ajudam no segredo da maturidade e sapiência.
E quando se lhe ajunta o ingrediente do Amor 
Então vive-se a juventude sem cessar
Onde o provisório dá lugar ao infinito.
A mensagem está aí, jovem como a eternidade, 
Buscando um coração afinado onde pousar o convite: 
Deixa-te amar pelo Amor 
Semeia amor ao jeito do Amor 
E terás parte na Sua juventude!
Não serás jamais anfitrião da caducidade
E a velhice não será hóspede em tua casa.
Serás jovem no mundo. 
Serás Jovem em Deus Amor.
Serás Jovem com Deus eternamente Jovem.

Um abraço de parabéns aos aniversariantes!