23 de setembro de 2017

LATINICES


O Papa Francisco, na peregrinação centenária a 12 e 13 de maio, fez um gesto profético que – parece – passou ao lado dos liturgistas do Santuário de Fátima: celebrou a missa integralmente em português com aquele sotaque latino-americano gostoso.

O Papa quebrou o «protocolo litúrgico» em uso no Santuário que impõe que algumas saudações da missa e a própria consagração sejam feitas em latim.

Pensei que quem de direito tivesse tomado nota do gesto papal.

Enganei-me: o latim continua a ser usado na Eucaristia.

Por volta do santo os acólitos distribuem umas folhinhas brancas com letra e música de algumas partes da oração eucarística em latim…

Talvez por um saudosismo mal resolvido, um revivalismo anacrónico, a ânsia de uma linguagem mistérica... 

Tudo menos liturgia, porque a liturgia literalmente é a energia do/no povo!

Não percebo o alcance da opção.

Se é para chegar a mais gente – já que Fátima é um santuário internacional – então é uma falácia: o latim é uma língua morta e poucos a aprendem e menos ainda a usam…

A consagração em português seria entendida e seguida pela grande maioria dos peregrinos… Em latim nem todos os padres a seguem!

O Papa tem um amor enorme pela liturgia nas línguas vernaculares.

Recentemente publicou um motu próprio a dar mais controlo às conferências episcopais sobre a revisão dos textos litúrgicos em curso.

Antes eram os especialistas que «impunham» a tradução oficial.

A revisão do missal em inglês foi muito traumática: os revisores encartados impuseram uma linguagem litúrgica que tem pouco a ver com o inglês corrente.

A oração comum em Fátima é linda porque é feita em línguas vivas: dá um sentido de universalidade à liturgia e ao lugar.

O latim? Destoa!

18 de setembro de 2017

ANA TABAN, ESTOU CANSADO


Colectivo sul-sudanês usa as artes para promover paz e liberdade de expressão.

Há cerca de um ano, um grupo de artistas do Sudão do Sul juntou-se para criar uma plataforma activista pela paz na sequência dos combates de Julho de 2016 em Juba que fizeram um número indeterminado de mortos. Decidiram chamar-se Ana Taban («Estou Cansado», em árabe).

Músicos, actores, comediantes, guionistas, criadores de moda, artistas plásticos formaram o Ana Taban para terem uma influência positiva na nação em guerra consigo própria desde Dezembro de 2013.

Estão cansados da guerra e do sofrimento; de verem de braços cruzados o país a arder; de viverem num país rico em recursos naturais com uma economia em colapso; de formarem uma diversidade cultural linda destruída pelo tribalismo; de verem um povo faminto numa terra fértil; de serem usados para se matarem uns aos outros para benefício de alguns.

Ana Taban propõe-se promover os valores da paz, coragem, integridade, cidadania, não-violência e não-alinhamento político através de acções concretas no país e nos campos de refugiados que albergam um milhão de sul-sudaneses nos países vizinhos.

Os jovens activistas escrevem no seu manifesto que «querem ser uma plataforma para a juventude do Sudão do Sul contribuir com as próprias ideias em matérias importantes que afectam a nação». Fazem-no através de concertos, arte urbana, murais, dramas, vídeos, canções, Internet…

Querem também encorajar a juventude «a participar activamente em temas importantes a respeito da nação e recusar serem usados como instrumentos de guerra e destruição».

Finalmente, pretendem «empoderar a juventude do Sudão do Sul, equipando os jovens com talentos para serem poderosos influenciadores da paz através do poder da sua arte e dos dons que Deus lhes deu».

Um programa vasto que pretende virar o sentido da história no Sudão do Sul. O país mais jovem do mundo tem vivido num caldo de violência e guerra desde o século XIX, quando turcos e árabes atacavam as comunidades sulistas ao longo do Nilo Branco para fazerem escravos. Entre 1955 e 2017, passou quarenta e três anos a lutar contra o Governo arabizante do Norte e contra si próprio e menos de duas décadas em paz.

«O sofrimento continua a cobrir o nosso amado país com o sangue, as lágrimas e a fome dos inocentes. Até quando?», pergunta o colectivo na sua página no Twitter.

Jacob Bul Bior, actor e porta-voz do colectivo, explicou-me numa mensagem electrónica que o impacto maior de Ana Taban está no alargamento do espaço cívico para os jovens se expressarem. «Havia tanto medo no ano passado e agora vemos melhorias; temos mais e mais jovens a participarem nos nossos eventos e a falarem livremente sobre aquilo que é importante para eles. Com os limites à liberdade de expressão e de informação no país, sentimos que isto é importante e levou a uma mudança maior», escreveu.

É o que auguro: os Sul-Sudaneses precisam de paz e de reconciliação para se erguerem das cinzas da guerra fratricida e construírem a nação vibrante com que sonharam a 9 de Julho de 2011 quando celebraram a independência com tanta esperança.

17 de setembro de 2017

MISSÃO DO CORAÇÃO AO CORAÇÃO


As Jornadas Missionárias 2017 decorreram em Fátima a 16 e 17 de setembro sob o tema inspirador «Missão do coração ao coração» no âmbito do jubileu centenário de Fátima.

D. Manuel Linda, presidente da comissão episcopal Missão e Nova Evangelização, abriu as jornadas dizendo que é no coração, fonte do pensar e do querer, que se abraçam as grandes opções de vida.

A Doutora Isabel Varanda reflectiu sobre o tema «Sim… Faça-se… – Aceitação da missão. Acreditar no impossível».

«Ser missionário é não ser autorreferencial», sublinhou a teóloga da UCP- Braga.

Dom António Couto tratou o tema mariano «Feliz porque acreditaste… – Participação do missionário no mistério de Cristo».

«O missionário verdadeiro tem que ter o sabor de Deus, tem que estar ao dispor de Deus» ao jeito de Maria, disse o biblista, Bispo de Lamego. E recordou: «Meia hora de leitura diária da Bíblia dá uma indulgência plenária e é a grande porta santa que nos abre à vida.»

O padre Adelino Ascenso, Superior Geral dos Missionários da Boa Nova, partilhou uma reflexão sobre o tema «A minha alma engrandece o Senhor… – Da experiência de Deus às experiências dos missionários».

«Só a partir da experiência de Deus é que estamos aptos a narrar Deus», sublinhou o presidente dos IMAG, os institutos missionários ad gentes.

A Doutora Margarida Cordo trabalhou o tema «Apareceu no céu um grande sinal… – Missão como promessa e realidade.»

«Ninguém é missionário por narcisismo, pois já se desprendeu do que nos torna adictos ao individualismo, reforçados pelas exigências e desafios da realidade», a psicoterapeuta salientou.

Os cerca de 250 participantes dividiram-se em quatro grupos para reflectirem sobre quatro questões concretas.

Sublinharam a necessidade de um amor missionário, mais colaboração entre os agentes de evangelização, proximidade para acolher, escutar, ir ao encontro dos mais fragilizados, ter tempo para os outros e para Deus, simplificar a linguagem para chegar às periferias, cuidar da casa comum e das pessoas, porque o cuidado leva à justiça e à paz.

O Doutor André Costa Jorge reflectiu sobre o tema candente «Exaltou os humildes… – Missão como denúncia e acolhimento. Tráfico humano e refugiados.»

«Nós existimos todos porque fomos acolhidos. Se fomos acolhidos porque não acolher? Quem acolhe, ganha. Todos os povos que acolheram imigrantes, tornaram-se mais felizes e mais ricos. Acolher o estrangeiro, traz-nos felicidade, não nos traz pobreza», disse o responsável do JRS - Portugal, o Serviço Jesuíta aos Refugiados.

Frei João Lourenço encerrou as Jornadas com o tema «Magnificat – Cântico missionário para hoje.»

«Como Maria, ser missionário é colocar-se à disponibilidade de Deus, deixar-se acolher por Ele para que possamos ser instrumentos daquele acolhimento que abre os corações à ação do Espírito», salientou o biblista franciscano.

As Jornadas Missionárias 2017 foram integradas na peregrinação nacional das Obras Missionárias Pontifícias a Fátima no jubileu centenário.

11 de setembro de 2017

BEM-HAJA, D. ANTÓNIO


Conheci-o na minha infância: foi coadjutor em Cinfães nos dois anos a seguir à sua ordenação a 8 de dezembro 1972. Éramos vizinhos. Ficámos amigos. 

Aprendi a apreciar a sua simplicidade, o seu sorriso tranquilo, o seu conversar manso, a profundidade do seu pensamento, a arte de bem pregar um sermão…

Encontrámo-nos muitas vezes em Cinfães, Lamego, Braga, Aveiro, Porto, Fátima… Conversas longas, tranquilas, sem a pressa do despachar… a querer saber de todos e de tudo, uma curiosidade amiga, uma amizade preocupada com as pessoas.

Entesouro as nossas conversas, a sua amizade, o seu testemunho de homem de Deus e homem da Igreja, construtor de pontes e de consensos, com uma paciência extremada…

Sempre me senti bem recebido pelo Dr. António – como lhe chamávamos em Cinfães.

Aprendi muito com o senhor e do senhor!

Homem dedicado até ao limite!

Numa das visitas que lhe fiz no Porto, encontrei-o cansado. Perguntei: – O Dom António não fez férias?

– Ó Zé, o meu pai nunca fez férias!, foi a sua resposta.

A sua amizade para com os combonianos era enorme. Tinha um coração comboniano: como o mostrou aos provinciais combonianos europeus em 2014; como falou aos participantes na Assembleia Europeia da Missão, na Eucaristia conclusiva a 13 de março, na Maia; como afirmou ao aceitar presidir à Peregrinação da Família Comboniana a Fátima, a 22 de julho.

A sua homilia da Peregrinação é um legado espiritual à Família Comboniana.

Esta manhã, a notícia do seu falecimento deixou-me pasmado: não queria acreditar que o Dom António tinha falecido de ataque cardíaco. Tão de repente, aos 69 anos.

No da 29 de agosto não lhe dei os parabéns, porque estava no Mosteiro do Couço em retiro e a cobertura da rede telemóvel é muito fraca… Queria mandar-lhe um email, mas fui adiando…

Está no abraço terno e eterno do Pai das misericórdias, junto à sua querida mãe que tanto amava.

Está em paz no descanso de Deus!

Interceda por nós.

Obrigado pela sua amizade, pelo seu carinho.

Tenho saudades suas.

31 de agosto de 2017

AVÉ MARIA


A ave-maria é a oração cristã mais usada no mundo católico, que rezamos muito frequentemente. Tem duas partes: uma saudação e uma rogação. O processo de incubação da ave-maria foi longo: levou cerca de mil anos; começou no século V e ficou pronta no século XV.


A FORMAÇÃO

A ave-maria começou com a junção das saudações do anjo Gabriel e de Isabel a Nossa Senhora, respetivamente os versículos 28 e 42 do capítulo 1 de São Lucas. Esta junção efetuou-se antes de 446: aparece na homilia de um autor que morreu nessa data.

Os irmãos ortodoxos tomaram a dianteira: a junção aparece nas liturgias orientais de Antioquia e Alexandria entre os séculos IV e V. No século VI chegou à liturgia romana: São Gregório Magno usou-a no Sacramentário Gregoriano, o livro litúrgico por ele publicado.

Depois juntaram os nomes de Maria e Jesus às duas saudações e às vezes também Cristo.

A segunda parte da ave-maria é rogativa, uma oração de súplica. Foi usada na oração da noite para pedir a proteção da Mãe da graça e da misericórdia desde o século XIII.

Os ortodoxos já tinham ajuntado o «rogai por nós pecadores, amém» em Alexandria no ano de 647.

A ave-maria como a temos hoje aparece em 1508 quando os franciscanos juntaram «agora e na hora da nossa morte».

Em 1568 o Papa Pio V promulgou o novo Breviário Romano que saiu do Concílio de Trento e incluiu a ave-maria completa para iniciar a oração do ofício divino.


AS PALAVRAS

Avé: o anjo Gabriel saúda a Virgem de Nazaré, dizendo «Salve» na tradução da Bíblia dos Capuchinhos. O texto grego usa Xairé, que vem de verbo alegrar-se. «Alegra-te» seria uma tradução mais literal.

É difícil traduzir esta saudação: em alemão dizem «Saudada sejas»; em francês «Eu vos saúdo»; em espanhol «Deus te salve»; em inglês «Salvé», em árabe «Paz contigo»…

Eu prefiro «Alegra-te» porque a alegria é a melodia de fundo de toda a bíblia e da experiência de Deus: um santo triste é um triste santo, diz o povo.

A alegria faz bem à saúde: «O coração alegre é, para o corpo, remédio salutar», recorda o Livro dos Provérbios (17,22).

Estamos habituados a rezar a vida como um vale de lágrimas. Mas o salmista recorda-nos que «Aqueles que semeiam com lágrimas, vão recolher com alegria» (Salmo 126,5). E Jesus sublinha-o: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria!» (João 16,20).

Diz Neemias: «A alegria do Senhor é a vossa força» (Neemias 8,10).

E o autor do Eclesiastes aconselha a alegria: «Vai, come o teu pão com alegria e bebe com prazer o teu vinho, porque a Deus agradam as tuas obras» (Eclesiastes 9,7).

Uma alegria que é cósmica: «Alegrem-se os céus, exulte a terra! Ressoe o mar e tudo o que nele existe! Alegrem-se os campos e todos os seus frutos, exultem de alegria todas as árvores dos bosques na presença do SENHOR, que se aproxima e vem para governar a terra! Ele governará o mundo com justiça e os povos, com a sua fidelidade», como proclama o Salmo 96 (vv. 11-13).

Uma alegria que vem de Deus: «É que o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo», escreve Paulo aos cristãos de Roma (Romanos 14,17).

Uma alegria que é uma maneira de rezar: «Todas as vezes que me lembro de vós, dou graças ao meu Deus, sempre, em toda a minha oração por todos vós. É uma oração que faço com alegria» (Filipenses 1,3-4).

Uma alegria que é o mandamento do missionário: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!» escreveu Paulo aos Filipenses (4, 4).

A saudação do anjo a Maria é a saudação a cada um de nós: alegra-te!

Maria: São Jerónimo escreveu que Maria quer dizer Estrela do mar. Mas em hebraico também pode significar menina desejada, rebelião e mar de amargura.

Cheia de graça: é o novo nome que Gabriel chama a Maria de Nazaré. Ela é a agraciada do Senhor. «Cheia de graça», num sentido mais literal da expressão, pode também assumir-se como sinónimo de «plena de Deus» (cheia = plena; Graça = Deus)

É interessante notar que graça e alegria em grego partilham a mesma raiz. Maria é convidada à alegria porque está cheia do amor de amado (outra maneira de traduzir cheia de graça).

Os autores protestantes preferem traduzir por «a mais favorecida».

Na Encíclica Redemtoris mater, São João Paulo II escreve: «Quando lemos que o mensageiro diz a Maria «cheia de graça», o contexto evangélico, no qual confluem revelações e promessas antigas, permite-nos entender que aqui se trata de uma «bênção» singular entre todas as «bênçãos espirituais em Cristo». No mistério de Cristo, Maria está presente já «antes da criação do mundo», como aquela a quem o Pai «escolheu» para Mãe do seu Filho na Incarnação ― e, conjuntamente ao Pai, escolheu-a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade. Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excecional; e é amada neste «Filho muito amado» desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda «a magnificência da graça». Ao mesmo tempo, porém, ela é e permanece perfeitamente aberta para este «dom do Alto» (cf. Tiago 1,17) Como ensina o Concílio, Maria «é a primeira entre os humildes e os pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem d'Ele a salvação» (RM 8).

A palavra graça está relacionada com oferta livre. O bispo D. António Couto de Lamego propõe outra leitura: a graça é o modo materno de Deus nos olhar enquanto nos embala nos seus braços. Graça é colinho de Deus! Todos gostamos de colinho, todos queremos o colinho de Deus, a sua graça.

O Senhor está contigo: Maria é convidada à alegria e chamada cheia de graça porque o SENHOR está com ela. Não se encontra só!

A saudação de Gabriel recorda a profecia glorificadora de Sofonias sobre Jerusalém: «O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa» (Sofonias 3,17).

O Senhor é a fonte da graça e da alegria. O SENHOR é o nosso espaço vital. «É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos», anuncia Paulo aos cidadãos de Atenas (Actos 17,28). O salmo 139 canta esta presença envolvente de Deus.

Santo Agostinho diz: «Fizeste nos Senhor para vós, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em vós.»

Através do mistério da Encarnação o SENHOR passa a chamar-se Emanuel, Deus-connosco – recordou o anjo do Senhor a José ao anunciar-lhe o nascimento de Jesus (Mateus 1,23). A Palavra de Deus, o Verbo é companheiro, caminhante, que monta a sua tenta entre nós através do mistério da encarnação (João 1,14 diz literalmente que «O Verbo fez-se carne e acampou – montou a sua tenda – entre nós).

Bendita és tu entre as mulheres: da saudação do anjo passamos à saudação de Isabel que distingue Maria entre todas as mulheres. Porquê? Isabel felicita Maria: «Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor» (Lucas 1,25).

Podia ser por ser a mão do Senhor: de entre todas as mulheres que nasceram e haviam de nascer Maria foi a eleita para ser Mãe de Deus. Mas Isabel diz que a felicidade maior de Maria, a sua bem-aventurança, é ter acreditado na força da Palavra de Deus. Jesus disse «Felizes os que ouvem a Palavra do Senhor e a põem em prática» (Lucas 11,28). Maria é Mãe bem-aventurada não apenas por ter concebido e dado à luz Jesus, mas na medida em que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (cf. Mateus 12,49-50).

Ter fé é isso mesmo: acreditar que a Palavra do Senhor se vai cumprir, que a Palavra tem em si a força da vida. Que o Senhor tem a última palavra e é uma palavra de vida, de vitória.

Bendito o fruto do teu ventre: Isabel diz bem de Maria e diz bem do fruto do seu ventre, Jesus (cujo nome quer dizer Deus salva). O fruto que Eva partilhou com Adão trouxe o pecado, a descoberta da nudez, as dificuldades da vida, a morte. O fruto da semente plantada pela sombra do Espírito Santo no seio de Maria é bendito, porque é vida e vida em plenitude para todos (João 10,10). O mistério da salvação começa na encarnação. Maria inverte o sentido do pecado: se por «Eva» chega a morte, por aquela que é «Avé» (alegre/agraciada) chega a Vida verdadeira.

Jesus: o seu nome em hebraico é a sua missão - Deus salva!

Santa Maria: Deus disse a Moisés: «Sede santos, porque Eu, o SENHOR, sou santo» (Levítico 19,2). Por seu turno, Isaías teve uma visão em que os serafins cantam o Deus três vezes santo cuja glória enche toda a terra como no-lo recorda Isaías (Isaías 6,3), enche cada um de nós.

Santo em hebraico significa separado. Deus é santo porque é separado. Separado de quem? De nós? Não, porque ele é Emanuel, Deus-connosco. Deus é separado dele próprio, não autocentrado, não vive para si. Deus é comunidade trinitária que transborda o seu amor e vem à nossa procura.

Pedro na primeira carta exorta: «Mas, assim como é santo aquele que vos chamou, sede santos, vós também, em todo o vosso proceder, conforme diz a Escritura: Sede santos, porque Eu sou santo» (1Pedro 1,15-16).

Maria é santa porque depois de obter resposta às suas legítimas questões diz: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas 1,38).

Ser santo na cultura do individualismo narcisista globalizado é colocar o OUTRO como o centro da nossa vida, é abraçar a mística do encontro como a saída para os problemas sociais, políticos e culturais que nos desafiam.

Mãe de Deus: este é o título mais lindo de Maria. Foi-lhe dado em 431 no Concílio ecuménico de Éfeso, uma reunião de teólogos para esclarecer a união da divindade e humanidade de Jesus. O cânone primeiro do referido concílio é claro: «Se alguém não confessa que Deus é segundo a verdade o Emanuel e que por isso a santa Virgem é mãe de Deus (pois deu à luz carnalmente o Verbo de Deus feito carne), seja anátema.»

O patriarca Nestório dizia que Maria era mãe de Cristo mas não era mãe de Deus porque em Cristo havia duas pessoas: a humana e a divina.

O que os padres de Éfeso fizeram foi reconhecer aquilo que Paulo escreveu aos cristãos da Galácia: «Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gálatas 4,4).

Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte: Maria é a mãe de Deus e é a nossa mãe. Por isso lhe dizemos: «Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte.»

Todos nós somos santos, todos nós somos pecadores. Esta é a ambiguidade da experiência cristã. Precisamos da graça e da misericórdia de Deus para nos cristificarmos, sermos como Cristo.

João recorda na primeira carta que «se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós» (1 João 1,8). Um santo que não reconhece o seu pecado, a sua fragilidade, não é santo: é soberbo.

Maria foi-nos dada como mãe no alto da Cruz. Jesus disse a João: «Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois, disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (João 19,26-27). Somos filhos e a mãe intercede por nós. Ela é mãe de misericórdia e volve o seu olhar misericordioso para interceder por nós junto do Pai e pedir a paz e o perdão agora e na hora da verdade: a hora da nossa morte.

Amém: terminamos a ave-maria como terminamos todas as orações – com um AMÉM! Palavra hebraica que quer dizer certamente, estou de acordo, em verdade, verdadeiramente, assim seja. Em linguagem popular: assino de cruz!

O amém é o nosso assentamento áquilo que os nossos lábios, a nossa mente e o nosso coração rezaram. É uma palavra que cristãos, judeus e muçulmanos partilham, rezam. Uma ponte para o diálogo inter-religioso, uma ponte para a paz.

Amém!

CURSO DE MISSIOLOGIA 2017


O Curso de Missiologia é uma iniciativa dos Institutos Missionários Ad Gentes (IMAG) com o apoio das Obras Missionárias Pontifícias em ordem à qualificação do missionário e, consequentemente, da Missão. Este ano, realizou-se entre 21 e 26 de agosto, nas instalações dos Missionários da Consolata, tal como tem sido hábito, e contou com 60 participantes, oriundos de nove países e quatro continentes.

O Curso iniciou com D. António Couto, Bispo de Lamego, que falou sobre o tema “A Missão no Evangelho de S. Mateus”, o evangelista do ano, aquele monumento do perdão, evangelho da Igreja. Mateus, cobrador de impostos, homem marginal, que Jesus escolhe e transforma em grande discípulo; Mateus, aquele cuja experiência explosiva do perdão e da transformação da sua vida o levou a querer que o mesmo perdão e a mesma vida abalassem toda a humanidade. Mateus, o homem renascido que organiza o seu evangelho em cinco discursos: discurso programático da montanha; discurso missionário; discurso das parábolas do Reino; discurso eclesial e discurso escatológico. Mateus, o evangelista que nos mostra o caminho que devemos trilhar: sem ouro nem prata, sem bastão nem sandálias, vendo a imagem de Deus naquele com quem nos cruzamos; sempre abertos à surpresa e com a sensibilidade apurada para que entendamos as parábolas do Reino, tais como a semente, o trigo e a cizânia, o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido no campo, a pérola.

O segundo dia foi dedicado ao tema “Cristianismo e Globalização: Estado, Igreja e Missionação na Época Moderna e Contemporânea”, um tema vastíssimo que foi tratado magistralmente pelo Prof. Doutor José Eduardo Franco. O Cristianismo como motor de globalização, numa irradiação que iniciou no século XV. Foram realçadas algumas figuras incontornáveis, tais como o Padre António Vieira (1608-1697, Missionário do Ocidente), gigante que tivera como seu par, um século antes, Francisco Xavier (1506-1552, Missionário do Oriente). O sonho, tal como aquele do “Reino de Prestes João”, instigador de muitas expedições missionárias, o que nos mostra a importância da dimensão no imaginário para a nossa “saída” destemida ao encontro da “surpresa de Deus”. O Cristianismo que, com o movimento dos descobrimentos, passou de regional para universal, à semelhança do que tinha acontecido nos inícios da Igreja, embora em dimensões diferentes. Ficou-nos gravada na memória a necessidade do desenvolvimento de uma “metodologia da credibilidade” e do testemunho, não só na China e no Japão como também no mundo ocidental, não só no passado como também no presente.

Seguiu-se, na quarta-feira, a Doutora Teresa Messias, que nos falou da “Espiritualidade Missionária”: a respiração; o desejo de Deus de sair de Si e de Se nos doar. Não missões, mas sim a Missão: a Missão que é Cristo. Antes que nos apercebamos, acontece muita coisa com a existência de Cristo. Contínuo dom do Verbo. Jesus é, Ele próprio, a actividade missionária por excelência. Porque Jesus é, na sua natureza, a Missão. Assim, o apelo a que nos abramos à experiência de fé e à missão, a Ele, numa relação que é Pessoa. Amor dinâmico que é dom de si e recepção do outro. Espiritualidade da missão é uma espiritualidade da desinstalação, uma espiritualidade de movimento interior e exterior; um esvaziamento que gera vida. Esvaziar-se não pode ser conotado com perda, pois perder-se para dar vida é a verdadeira felicidade. Missão, que é Cristo, implica escuta, discernimento e um processo de inculturação. Não é a viagem que faz de nós missionários, mas sim a nossa atitude. A missão começa já, no lugar onde estamos, no mundo onde vivemos: em oração; em comunhão.

A quinta-feira foi dedicada ao tema de “Literatura e teologia: a ficção de Shūsaku Endō”, introduzido pelo Padre Adelino Ascenso. O escritor católico japonês, que viveu entre 1923 e 1996, foi um dos autores mais significativos do século XX, pertencendo a uma geração de escritores cristãos japoneses do pós-guerra. Baptizado aos 12 anos de idade, Endō lutou ao longo de toda a sua vida com questões relacionadas com a sua fé, nomeadamente com a forma de ser, simultaneamente, japonês e cristão. A sua obra literária adquire contornos universais em virtude da natureza profundamente antropológica dos temas teológicos tratados na sua obra de ficção. Após uma parte sistemática sobre os temas de literatura e fé, literatura e teologia, a natureza da narrativa e a tradição literária japonesa, foram apresentados alguns elementos da cultura japonesa: a harmonia, o escondimento, o silêncio e a “tripla insensibilidade” (Deus, pecado e morte), mundo em que o Cristianismo continua a ter uma presença pequena em número, embora a comunidade católica do Japão seja hoje muito respeitada pelos japoneses por causa do serviço que ela presta a todos, independentemente da religião, tal como refere o Papa Francisco. Temas teológicos, tais como o silêncio de Deus, o forte e o fraco, uma nova imagem de Cristo (débil, maternal e companheiro) e a apostasia, foram identificados e avaliados através da análise do romance Silêncio.

Sexta-feira foi o dia do “Diálogo inter-religioso” apresentado pelo Padre José Nunes, onde foi realçada a perspectiva actual da Igreja face às outras religiões, que é a da proposta de um fecundo diálogo, baseado no apreço e respeito por essas mesmas religiões. Qual o estatuto teológico das religiões não-cristãs? Qual o seu valor salvífico? Estas foram algumas das questões levantadas e às quais o docente procurou dar resposta, baseando-se no rico espólio de documentos do magistério sobre este assunto, recorrendo, igualmente, a autores domo Daniélou, Congar e Rahner, entre outros. O desenvolvimento do tema espraiou-se por diversas secções, desde as condições básicas para o diálogo e os seus vários níveis, desaguando na apreciação teológica das religiões não-cristãs. Na qualidade de uma das três perspectivas actuais da Igreja para a missão ad gentes – a par da libertação e da inculturação –, o diálogo inter-religioso é um tema que não poderá, de forma alguma, ser ignorado. De facto, todas as religiões têm elementos estruturantes comuns, tais como o âmbito do sagrado, o mistério, a atitude religiosa e as mediações.

A luz da exposição “As cores do sol: a luz de Fátima no mundo contemporâneo”, cuja visita guiada se realizou no sábado, iluminou toda esta semana do Curso de Missiologia.

Na missa de encerramento, presidida pelo Padre Adelino Ascenso, presidente dos IMAG, foram entregues os diplomas aos 18 cursistas que completaram o biénio de participação e todos foram enviados para os seus campos de trabalho e missão.

A evangelização começou, muitas vezes, a partir da imposição de uma imagem estereotipada de Cristo, procurando-se, então, adaptar as realidades culturais a tal sólida imagem. No entanto, o ponto de partida terá de assentar nos fundamentos da natureza humana. As energias terão de ser concentradas na área da pré-evangelização, preparando-se, deste modo, cuidadosamente, o terreno antes de colocar as sementes. Necessitamos de um novo paradigma da missão, o qual terá de passar pelo “ide e escutai”, “ide e aprendei”. É urgente que nos consciencializemos de que pouco teremos para ensinar: quando muito, seremos instrumentos através dos quais Cristo ensinará. A nossa atitude terá de ser aquela de quem vai ao encontro do diferente com o coração de portas abertas à escuta.
P. Adelino Ascenso
Presidente dos IMAG

24 de agosto de 2017

Ir. ALFREDO FIORINI: MÁRTIR COMBONIANO


Faz hoje 25 anos que o irmão missionário comboniano sucumbiu às balas assassinas numa emboscada no Muiravale, na estrada entre Nacala e Carapira, no norte de Moçambique.

Conheci-o no outono de 1990.

Veio para Lisboa para aprender português. 

Um homem, sereno, sorridente, sábio com coração de poeta.

Era médico.

Trocou uma carreira promissora na marinha pela vida missionária comboniana.

Chegou a Moçambique a 3 de fevereiro 1991.

Foi destinado ao Hospital de Namapa, uma estrutura sanitária do Governo arruinada pela RENAMO.

Mais tarde foi transferido para a missão do Alua.

Foi morto numa emboscada da RENAMO a 24 de agosto de 1992 no mesmo troço onde a comboniana Teresa Dalle Pezze foi assassinada uma dúzia de anos antes.

Viajava de Nacala para Carapira depois de um curto período de descanso junto ao Índico.

27 balas vararam o carro. Uma atingiu-o em cheio na testa.

Tinha 37 anos.

Os rebeldes, ao aperceber-se que tinham matado um missionário, não tocaram nos pertences.

Foi sepultado a 31 de agosto na Igreja da Terracina natal, mártire entre os mártires.

Escreveu num poema a comentar Mateus 11, 28:

Venho a ti; Tu só lês
dentro de mim
se as minhas intenções
são suficientemente puras…
Os meus anos não passaram
leves,
mas deixaram sinais profundos
como os carros sobre as veredas
do campo.
Com certeza sei que deserto
e silêncio
não se encheram só do meu
movimento, e que,
agarrado à Tua mão,
conhecerei uma libertação contínua.

Noutra poesia escreve:

Mas às vezes, calado
e com fôlego débil,
tremo por esta estranha
vocação
de ser somente um fósforo
ou mais simplesmente
um pavio.
E talvez, de irmão,
Nem isso sequer…

Um fósforo? Um pavio? Um luzeiro no Céu!

22 de julho de 2017

VIDA CONSAGRADA: TEMPOS NOVOS, MUDANÇAS NOVAS




A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de Janeiro de 2017 umas orientações intituladas Vinho novo, odres novos – A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto.

O documento é um exercício de discernimento prático para «ler práticas inadequadas, indicar processos bloqueados, fazer perguntas concretas, pedir razões das estruturas de relação, de governo e de formação sobre o apoio real dado à forma de vida evangélica das pessoas consagradas» como explica o penúltimo parágrafo da curta introdução.

Esta inovação tem a ver com a atualização histórica dos carismas face às realidades socioculturais que vivemos (as novas pobrezas) e a linguagem (simbolismo) para os comunicarmos às novas gerações.

A evolução social, económica, política, científica e tecnológica a par com a intervenção estatal em nichos tradicionalmente ocupados pelos consagrados transformaram-nos em presença redundante. Por outro lado, emergências novas e inéditas pedem exigências que continuam à espera de resposta por parte da vida consagrada.

Os religiosos estão superados? Somos fósseis vivos, dinossauros cristãos em vias de extinção? «As novas pobrezas interpelam a consciência de muitos consagrados e solicitam aos carismas históricos novas formas de resposta generosa frente às novas situações e aos novos descartes da história. Daí o florescimento das novas formas de presença e de serviço nas múltiplas periferias existenciais» (nº 7).

Há novas alianças com os leigos a par de uma mudança de registo imprescindível: passar da gestão das crises e da sobrevivência à imaginação criativa de novos percursos de vida e consagração (n.º 8).



1. DESAFIOS EM ABERTO

O desafio maior é a inovação: «o velho esquema institucional tem dificuldade em dar passagem a novos modelos de modo decidido» (nº 9).

Há três questões em aberto: «harmonia e coexistência» entre a tradição e as inovações pedidas pelo Concílio; avaliação do funcionamento dos «elementos de mediação» face às novidades; ver o que «bebemos»: vinho novo ou a martelo para «esconder» erros/problemas não resolvidos.

Nalgumas realidades da vida consagrada as pessoas sentem-se incapazes de acolher os sinais daquilo que é novo. Por isso, «não podemos continuar a protelar o dever de entendermos juntos onde se encontra o nó a desatar, para sairmos da paralisia e superarmos o medo frente ao futuro» (nº 10). Um trabalho em conjunto, portanto! «Estamos juntos!» como dizem os moçambicanos.



2. FORMAÇÃO


A debandada que afeta a vida religiosa não vem «sempre e apenas» das crises afectivas mas «muitas vezes essas crises afectivas são fruto de uma remota desilusão por uma vida de comunidade sem autenticidade» (nº 13); crise de fé e excesso de atividades bem como o isolamento dos jovens em comunidades maioritariamente de pessoas idosas provocando um fosso de gerações no que se refere à espiritualidade, oração e pastoral.

O nº 24 é bem mais contundente: «dentre os motivos principais dos abandonos, destacam-se […] o debilitamento da visão de fé, os conflitos na vida fraterna e a vida fraterna débil em termos de humanidade».

O caminho? Recriar a linguagem simbólica da vida religiosa tendo em conta a diversificação cultural que transforma os institutos a partir de dentro.

«O cuidado em vista a um crescimento harmonioso entre a dimensão espiritual e a dimensão humana implica uma atenção específica à antropologia das diversas culturas e à sensibilidade própria das novas gerações, com particular referência aos novos contextos de vida. Só um reentendimento profundo do simbolismo que toca verdadeiramente o coração das novas gerações pode evitar o perigo de se contentarem com uma adesão apenas superficial, de tendência e até de moda, onde parece que a busca de sinais exteriores transmite segurança de identidade», lê-se no nº 14.

Combinar essa recriação do simbolismo com os ideais de beleza e conforto das gerações de hoje é um desafio enorme.

As orientações exigem respostas concretas de todos os institutos desde a formação (novos formadores-peregrinos abertos a novos percursos de formação sinodal e personalizada usando o modelo iniciático e a comunidade formativa) à necessidade urgente de uma cultura de formação permanente ou contínua e iniciação séria ao governo (nº 16). Com exigências destas não admira que haja tão poucos candidatos a formadores!

Para amadurecer a reciprocidade entre homens e mulheres na vida consagrada, o documento pede «promover relações de irmandade entre consagradas e consagrados dentro da Igreja» (nº 18). Obejtivo? «Para se tornarem um modelo de sustentabilidade antropológica) (nº 18).

Não podemos continuar a viver de costas voltadas, mulheres e homens da vida consagrada.



3. AUTORIDADE

O documento faz uma reflexão profunda sobre a crise de autoridade que afeta a vida religiosa. Propõe a passagem do autoritarismo à subsidiariedade e à delegação para garantir as autonomias de cada nível de autoridade (geral, provincial e comunidades). O serviço da autoridade deve partir de uma espiritualidade de comunhão participativa (nº 21) autonomizando as pessoas para gerirem o dia-a-dia em normalidade (nº 21) em vez de criar dependências infantis sem espaço para a originalidade.

O documento critica a clericalização da vida consagrada e nota que os empenhos pastorais podem debilitar a vida comunitária dos membros-padres.

«A terminologia “superiores” e “súbditos” já não é adequada», sublinha o nº 24, propondo o fim das pirâmides da autoridade.

Interessante também a perspectiva de preparar as novas gerações para o governo dos institutos durante o período de formação de base.



4. ADMINISTRAÇÃO DE BENS

O documento faz uma reflexão robusta sobre o tema da administração dos bens e relaciona-o com o profetismo da vida fraterna: «A vida consagrada tem sido capaz de se opor profeticamente, cada vez que o poder económico correu o risco de humilhar as pessoas. Na atual situação global de crise financeira […] os consagrados são chamados a ser verdadeiramente fiéis e criativos para não faltarem à profecia da vida comum internamente e da solidariedade para com o exterior sobretudo em relação aos mais pobres e mais frágeis» (nº 26) através da transparência económica e financeira e da distribuição de bens.

Um sublinhado a reter: «Os bens dos institutos são bens eclesiais e participam das mesmas finalidades no modo evangélico da promoção da pessoa humana, da missão e da partilha caritativa e solidária com o povo de Deus» (nº 28).»



5. INOVAR É PRECISO

As Orientações propõem caminhos concretos, um GPS para a recriação da vida consagrada:

  • Aprender «um processo de abertura infinita à novidade do Reino» (nº 29);
  • Abrir caminhos novos de esperança, «descobrir novos percursos rumo à autenticidade do testemunho evangélico e carismático da vida consagrada» (nº 30);
  • Assumir atitudes e escolhas novas que sublinhem o primado do serviço e a solidariedade como os mais pobres (nº 31);
  • Ultrapassar o fosso geracional através da inculturação, multiculturalidade e interculturalidade e da modificação de estruturas (nº 33);
  • Passar dos seminários/noviciados trentinos para novas formas e estruturas que sustentem os consagrados (nº 35);
  • Exercer autoridade de proximidade (nº 36);
  • Preparar formadores que aceitem a multiculturalidade como forma de viver a fé (nº 37) e as suas consequências e exigências (nº 38) através de novos estilos, estruturas (nº 39) e processos de internacionalização (nº 40);
  • Recentrar o serviço da autoridade na dinâmica da fraternidade ao serviço da comunhão (nº 41), de projetos comuns (nº 42) e «novos equilíbrios culturais na vida e no governo dos institutos» (nº 53).

6. MISSÃO IMPOSSÍVEL

Partilhei esta reflexão com o conselho provincial e os membros de uma comunidade em Portugal. Um dos missionários comentou que o documento é muito belo, mas «é uma missão impossível».

Eu acredito que Vinho novo, odres novos tem em si todos os ingredientes necessários para renovar a vida consagrada. Mas necessita de um envolvimento emocional por parte das religiosas e religiosos. Se começamos a construir obstáculos do género «Missão impossível» então é mais um documento para ser votado ao pó das prateleiras.

18 de julho de 2017

QUATRO PALAVRAS PARA UM JUBILEU


Os participantes no simpósio sobre os 150 anos do Instituto enviaram-nos quatro palavras que sustêm o altar da memória sobre o qual colocamos o nosso futuro como oferenda sagrada ao Senhor da missão: mística, humildade, fraternidade e ministerialidade.

Mística: o grande teólogo Karl Rahner escreveu que «o Cristão do século xxi ou será místico ou não será cristão» e acrescentou «desde que não se entendam por mística fenómenos parapsicológicos raros, mas uma experiência de Deus autêntica, que brota do interior da existência». A oração e a espiritualidade contemplativas são a fonte da vida fraterna e do serviço missionário, de cenáculos de apóstolos. A mística, segundo a mensagem que os participantes no simpósio escreveram a todos os missionários, também ajuda a aprender a fé e a esperança com os pobres com quem fazemos causa comum.

Humildade: como Instituto estamos mais pequenos e frágeis e somos chamados a passar do protagonismo ao testemunho como modo de vida missionária. Mais do que fazer missão, somos desafiados a ser missão, a partilhar o tesouro que enche o nosso coração.

Fraternidade
: para sermos missionários melhores temos que nos amar mais uns aos outros, melhorar as relações humanas dentro das comunidades combonianas, torná-las verdadeiros cenáculos de apóstolos. O nosso sistema formativo está muito desequilibrado: prepara missionários com uma grande cabeça – ricos em intelectualidade – e com um coração atrofiado – pobres em humanidade. Depois o projeto comum não devia ser a soma dos projetos pessoais, mas um projeto de vida e de missão para todos. É imperioso partilhar mais as nossas experiências pessoais de Deus – a autoridade de Jesus vinha disso mesmo: ele não ensinava teologia, partilhava a experiência do Abba (Papá) das longas noites de contemplação em lugares ermos. É fácil falar sobre desporto, política, sobre os outros … e torna-se tão difícil expressar o Deus que habita no mais profundo de nós mesmos! A vida comunitária não deve ser vista como funcional (trabalhamos melhor juntos) nem como segurança (cama, mesa e roupa lavada para os «consumidores de comunidade»). A forma como vivemos é a primeiro Evangelho que anunciamos. Somos presente de Deus uns para os outros, não somos estranhos nem pesos a suportar.

Ministerialidade: a quebra nos números e na energia missionária do Instituto e da Província leva a uma inevitável redução de compromissos. Fechar Calvão – uma experiência compreensivelmente dolorosa para alguns e um sinal lindo da relação esponsal que mantêm com as pessoas com quem vivem o discipulado – é o primeiro passo nessa revisão, mas não deve ser o único. Os participantes propõem a qualificação em certos campos de evangelização, porque – ao contrário do que diz a sabedoria popular milenar – não somos pau para toda a colher. A chave está no trabalho em rede, em novas alianças ministeriais (como no-lo recordam os Documentos Capitulares 2015): com a família comboniana, com a Igreja local e com outros parceiros estratégicos da sociedade civil. E o fazer da missão o motor de continuidade do nosso processo formativo permanente para fortalecer a paixão por Cristo e pela humanidade.

Estas são as quatro palavras-chave que nos abrem à vida comboniana em plenitude.

Mística, humildade, fraternidade, ministerialidade: quatro palavras mágicas que desvendam o segredo da felicidade comunitária e pessoal. Estas quatro palavras vão fazer o conteúdo da assembleia provincial juntamente com as lições da nossa história em Portugal sob o tema genérico Coração missionário jubilar.

16 de julho de 2017

COMBONIANO NOMEADO BISPO AUXILIAR NA ÁFRICA CENTRAL

Um missionário comboniano espanhol foi nomeado bispo auxiliar da diocese de Bangassou, na República Centro-Africana.

O Vaticano anunciou na terça-feira, 11 de julho, que o Santo Padre nomeou o padre Jesús Ruiz Molina bispo auxiliar de Bangassou.

O P. Jesús tem 58 anos e era até agora pároco de Moumgoumba e coordenador diocesano da pastoral de catequese na diocese centro-africana de M’Baiki.

Nasceu em La Cueva de Roa, Burgos e foi ordenado em 1987.

Trabalhou em Espanha (animação missionária, formação e Leigos Missionários Combonianos-LMC), Chade (pároco e provincial) e República Centro-Africana (pároco, coordenador de pastoral e conselheiro provincial).

A teóloga Susana Vilas Boas, leiga missionária comboniana que trabalhou largos anos com o P. Jesús na comunidade internacional LMC de Moungoumba, descreve o novo prelado como «alguém que dá cor à missão e cuja criatividade não se esgota quando se trata do anúncio do Evangelho».

O P. Jesús é bispo titular da diocese de Are da Mauritânia que, entretanto, deixou de existir.

Vai ser bispo auxiliar de Dom Juan José Aguirre, que também é comboniano e espanhol e tem feito um trabalho notável de reconciliação e paz entre muçulmanos e outros grupos na sua diocese.


15 de julho de 2017

Obituário: P. ROGÉRIO ARTUR DE SOUSA


29-4-1933 | 24-6-2017

Era visível que o P. Rogério Artur de Sousa se estava a apagar como uma lamparina a consumir as últimas gotas de azeite. Andava mais calado, gostava de se sentar no presbitério junto ao Santíssimo Sacramento em silêncio enquanto a comunidade rezava as laudes com as combonianas e alguns leigos. Deixou de usar a prótese dentária. Mas mantinha o sentido de humor: da última vez que estive com ele, bateu-me com a inseparável bengala na cabeça com carinho e disse: «Ó provincial, continuas a crescer!»

Entretanto, é internado a 15 de junho no Hospital São Teotónio de Viseu com um quadro de insuficiência cardíaca e tem alta uma semana depois. No dia 24 de junho sente dificuldades para jantar e por volta das 20h00 retira-se para o quarto. Dada a respiração difícil e laboriosa é chamada a emergência médica que se limita a confirmar a morte. O P. Rogério entra no Céu no dia em que a Igreja celebra o nascimento de São João Batista. O decano dos padres combonianos portugueses conta 84 anos de idade.

O P. Rogério nasce a 29 de abril de 1933 no lugar de Sargaçais, paróquia de Souto de Aguiar, concelho de Aguiar da Beira do casal de agricultores António Augusto de Sousa e Rosa de Jesus.

Dos oito filhos do casal (duas mulheres e seis homens) cinco enveredaram pela vida religiosa: uma moça entra nas Irmãs Doroteias e quatro moços nos combonianos: dois padres (P. Rogério e P. José de Sousa) e dois irmãos (o Ir. Miguel dos Santos que falece em 1979 em Coimbra e o Ir. Jorge Fernandes de Sousa que, entretanto, deixa o Instituto no Brasil).

O P. Rogério entra para os combonianos do Seminário Maior de Viseu em 1951. Faz o noviciado em Gozzano (Itália) e os primeiros votos a 9 de setembro de 1954 em Viseu juntamente com o Ir. António Martins da Costa – os primeiros dois portugueses a professar no Instituto sete anos depois de os combonianos terem chegado a Viseu.

Cursa teologia em Venegono (Itália) entre 1954 e 1957 e em Viseu no ano de 1957-1958. Faz a profissão perpétua em 10 de março de 1958 e é ordenado a 27 de julho em Viseu onde permanece como professor até 1960.

Nesse ano parte para Moçambique para a missão de Lunga. Regressa a Portugal em 1962 e integra a equipa que produz a revista Além-Mar em Paço d’Arcos. Dois anos depois, vai para VN de Famalicão como formador do seminário menor.

Em 1967 retorna a Moçambique como capelão militar. Três anos depois volta ao serviço missionário ativo em várias missões da diocese de Nampula: Carapira (1970-1971), Nacala (1971-1974), Mossuril (1974-1976) e Memba (1976-1987).

O P. Rogério faz parte do grupo de 11 combonianos expulsos de Moçambique a 13 de abril de 1974 em retaliação pelo Um Imperativo de Consciência escrito pelo Bispo Manuel Vieira Pinto e pelos combonianos.

Volta a Moçambique logo que a situação política o permite. Nos primeiros anos da independência os tempos são difíceis. Escreve a 5 de dezembro de 1981 de Namahaca: «Por aqui vai-se vivendo e até finalmente depois da conclusão das aulas a 25/11 se vai respirando um pouco de alívio. Não haja dúvidas que de 3/9 até fins de novembro foi preciso trabalhar como um moiro. Na diocese, vamos tendo quase por toda a parte possibilidade de contactar com os crentes. Há 15 dias também no Monapo se abriram as portas. Aguardamos ainda quanto a Mussoril, Lunga e Mueria.»

Em 1987, regressa a Portugal e fica em Lisboa até 1993 como membro da redação das revistas. Além de escrever (assina os artigos com o seu nome e também usa pseudónimo), traduz muito material do italiano para português.

Em 1993, o Conselho Geral destinou-o ao Brasil, mas nunca chega a partir porque «a Vinda Intermédia de Jesus – que ainda não é a derradeira – está para breve.»

Passa dois anos fora de comunidade, é reintegrado em Lisboa, transferido para VN Famalicão para o serviço de confissões e em 2013 vem para Viseu para o Centro de Acolhimento da Província.

O P. Rogério é um missionário humilde e zeloso com uma grande devoção à Divina Misericórdia. Tenta dar corpo a um movimento laical – Missionários da Divina Misericórdia – inspirado nos escritos e visões de Santa Faustina, fruto de uma inquietação antiga: «Já há muitos anos venho sentindo uma necessidade grande de divulgar e manifestar sobremaneira a Misericórdia de Deus, para que nestes tempos que também são de confusão e afastamento de Deus, os homens e o mundo reencontrem com alegria “as fontes da Salvação” para as quais o Coração Trespassado de Jesus não deixa de apontar.» Um projeto que lhe acarreta inúmeras dificuldades com o Instituto.

O P. Rogério também faz parte do Renovamento Carismático e propõe aos superiores investigar o tema Comboni e o Divino Espírito Santo e escrever um livro sobre o tema.

Para o P. José de Sousa, o seu irmão «foi sempre em tudo como Missionário Comboniano. A experiência que ele fez de estar fora da comunidade em Lisboa trouxe-lhe muito entusiasmo na fé e muito sofrimento. Rogério levou sempre a vida e o sim a Comboni muito a sério. Como difusor com livros próprios da Divina Misericórdia sofreu críticas exageradas, injustas acerca desse assunto que foi plenamente assumido por São João Paulo II e a festa/domingo da Divina Misericórdia. Uniu-se à Cruz com uma entrega total nas mãos de Deus esquecendo tudo o que o fez sofrer. A devoção ao santo Padre Pio o confortou e conformou.»

O P. Claudino Ferreira Gomes descreve bem o P. Rogério: «Seja o Senhor louvado pelo seu servo e amigo, que tanto esperava a vinda de Jesus. Será feliz quando o Senhor em Pessoa lhe explicar esse mistério. Entretanto, eu agradeço a Deus pela dedicação missionária e pastoral e pelo espírito contemplativo do P. Rogério. E por todas as vezes que me atendeu de confissão até há pouco tempo, aconselhando sempre com zelo e sabedoria.»

O advogado Dr. Aurélio Pinto, antigo aluno comboniano recorda o P. Rogério sobretudo como pedagogo: «Não posso deixar de manifestar a tão grata memória do saudoso Padre Rogério, pela relevância que teve na minha formação e educação religiosa e humana, de que me apraz destacar o seu sentido de prática de justiça e rigor, moldados pelo amor cristão que certamente orientavam a sua vida.»

É este missionário que agradecemos, celebramos e entregamos ao Senhor das misericórdias.

P. José Vieira

6 de julho de 2017

P. ROGÉRIO DE SOUSA: TRIBUTOS


O P. Rogério Artur de Sousa partiu para o Pai a 24 de junho de 2017. O decano dos padres combonianos portugueses tinha 84 anos. Eis alguns dos tributos que lhe foram prestados:

O meu irmão foi sempre em tudo como Missionário Comboniano. A experiência que ele fez de estar fora da comunidade em Lisboa trouxe-lhe muito entusiasmo na fé e muito sofrimento. Rogério levou sempre a vida e o sim a Comboni muito a sério. Como difusor com livros próprios da Divina Misericórdia sofreu críticas exageradas, injustas acerca desse assunto que foi plenamente assumido por São João Paulo II e a festa/domingo da Divina Misericórdia. Uniu-se à Cruz com uma entrega total nas mãos de Deus esquecendo tudo o que o fez sofrer. A devoção ao santo Padre Pio o confortou e conformou.
P. José de Sousa (Viseu)

Vimos comunicar-vos que o Pe. Artur de Sousa, missionário comboniano, que pertencia à comunidade de Viseu, faleceu no dia 24 de junho, por volta das 21.30, de insuficiência cardíaca.

Muitos se lembrarão do sorriso bonito do Pe. Rogério pelos espaços da casa de Viseu!

Somos felizes por tê-lo conhecido.

Em comunhão no Coração de Jesus,
Ir Mª do Carmo Ribeiro (LMC Portugal)


Paz à sua alma

Unidos na oração à família de sangue e à família comboniana.
P. António Carlos (Filipinas)


Uno-me a todos os combonianos de Portugal nesta ocasião da passagem para o Pai do nosso irmão P. Rogério Artur de Sousa.

Deus o receba na sua casa, tendo em conta a sua dedicação à missão e ao anúncio da alegria do Evangelho.

Consola-nos o facto que no dia de ontem, em Nampula, professaram os primeiros noviços do novo Noviciado. Eles irão ocupar o lugar dos que vão falecendo. Deus continua presente na sua Igreja e chama novos jovens a quem confiar o anúncio da Boa Nova.

Deus dê descanso à alma do P. Rogério e console os seus familiares, especialmente ao seu irmão P. Zé e à Irmã Maria do Carmo e a todos os amigos e conhecidos.
P. Luís Albuquerque (Maputo – Moçambique)


Deus envolva o P. Rogério na sua misericórdia. Era zeloso, à sua maneira, das coisas de Deus. Certamente está já nas mãos dele.

Estou unido à província e a toda a sua família.
P. Júlio (Nampula – Moçambique)


O saudoso padre Rogério foi hoje lembrado e elogiado no Encontro de Espiritualidade Comboniana, na Maia. Rezámos por ele na oração e na Eucaristia.

Também pelas duas irmãs que faleceram em acidente na Amazónia; muito senti a sua perda, mesmo não as conhecendo.

Que todos permaneçam como tochas acesas no nosso caminho missionário, intercedendo junto do Pai.
Mário Breda (LMC-Portugal) 


No dia em que celebramos na República Democrática do Congo a Festa do Coração de Jesus, quero unir-me a toda a província de Portugal na oração pelo eterno repouso do P. Rogério. Que o Senhor o acolha na sua misericórdia.
Zé Arieira (RD Congo)


Choque grande ao receber a notícia.
A ti, cabeça da Província, apresento os meus pêsames, em comunhão com todos os nossos irmãos missionários combonianos.Seja o Senhor louvado pelo seu servo e amigo, que tanto esperava a vinda de Jesus. Será feliz quando o Senhor em Pessoa lhe explicar esse mistério.

Entretanto, eu agradeço a Deus pela dedicação missionária e pastoral e pelo espírito contemplativo do P. Rogério. E por todas as vezes que me atendeu de confissão até há pouco tempo, aconselhando sempre com zelo e sabedoria.
P. Claudino (Lisboa)


Que o Rogério descanse na paz de Deus. Recordo os anos que vivi com ele em Famalicão. Rezo por ele e pela sua família.
Dave (Filipinas)


As minhas condolências ao Pe. Zé e família.
P. J. Juan Valero (Uganda)


Uno-me a ti e à província neste momento de adeus ao Rogério. Rezo pelo Rogério e pela família.
José Eduardo Freitas (Matany-Uganda)


Em comunhão com toda a província,
Manuel João (Castel d’Azzano – Itália)


Muito obrigado pela informação sobre o falecimento do nosso P. Rogério. Estarei unido a ti, que representas toda a nossa família Comboniana, ao P. José de Sousa e toda a sua família, nestes dias de mágoa, mas também de esperança e de fé.
P. Francisco Machado (Gana)


Estou unido ao luto e à esperança cristã, por ocasião do falecimento do Padre Rogério de Sousa.

Particulares sentimentos ao Padre José de Sousa e outros familiares, e aos colegas da comunidade de Viseu.

Que descanse em paz, e interceda por nós todos, e por Moçambique em particular por que muito sofreu.
Manuel dos Anjos (Tete – Moçambique)


Nós missionários do “mato” temos estado fora do resto do mundo, sem net há tanto tempo!

Nestes dias estou em Adis Abeba e por isso tive possibilidade de abrir a net, depois de umas semanas, e encontrei as várias mensagens tuas, especialmente sobre a morte da Conceição Primitivo e do nosso grande padre Rogério! Solidariedade com estas perdas para a nossa província e uma oração pelo seu eterno repouso!

A vida por aqui continua, sempre animados com a missão e sempre a rodar!

Graças a Deus por estes anos e pelos nossos irmãos maiores que tanto me ensinaram sobre a felicidade na vida dedicada a Deus e à Missão! As maiores felicidades para a província!
Quim (Etiópia)

Tendo, somente agora, por consulta ao V/ boletim informativo de 29/06/2017, tomado conhecimento do falecimento do S/ confrade P.e Rogério de Sousa, não posso deixar de manifestar-lhe, a si e a todos os confrades combonianos e grandes amigos, a tão grata memória do saudoso Padre Rogério, pela relevância que teve na minha formação e educação religiosa e humana, de que me apraz destacar o seu sentido de prática de justiça e rigor, moldados pelo amor cristão que certamente orientavam a sua vida.
Aurélio Pinto

4 de julho de 2017

SAFARIS DE LETRAS


Os registos escritos das viagens africanas fascinam.
Heródoto visitou a Líbia e o Egipto há 2450 anos. As impressões que este grego, chamado Pai da História, escreveu fizeram escola atraindo gerações para um continente que se instalou definitivamente no imaginário dos Europeus, e, por via destes, do mundo. Ler quem depois dele se fez aos bosques e sertões de África para no-la dar a conhecer é outra forma de viajar – e de compreender o berço da humanidade.

O meu conterrâneo Alexandre de Serpa Pinto (1846-1900) levou-me de Benguela, na costa angolana do Atlântico, a Durban, cidade sul-africana debruçada sobre o Índico, com a cabrinha Córa e o papagaio Calungo por entre maravilhas e perigos. Abriu caminho pelo interior desconhecido com aguardente, panos e outras bugigangas, numa odisseia de 17 meses a pé, de cavalo, padiola, piroga e carroça.

Como eu Atravessei a África do Atlântico ao Índico relata essa viagem épica e científica extremamente perigosa de Angola até à África do Sul passando pela Zâmbia e o Zimbabué entre 12 de Novembro de 1877 e 19 de Março de 1879. Ilustrou-a com alguns desenhos a traço. Contém muitas notas geográficas e etnográficas e inúmeros registos científicos e medições que o explorador cinfanense fez. Tudo num português com mais de 100 anos: como a língua evoluiu à margem dos acordos ortográficos!

Serpa Pinto baloiçou perigosamente sobre as Cataratas Vitória para determinar a sua altura e posição. Mozia-oa-tunia, o nome da extraordinária cortina de água na língua local, é nas suas palavras «a mais prodigiosa maravilha do continente africano», «uma soberba maravilha que gera sentimentos de terror e tristeza».

Paul Theroux levou-me do Cairo, no Egipto, ao Cabo, na África do Sul, por terra e por água, excepto para entrar e sair do Sudão – teve de tomar o avião. Viagem por África é um diário que anota impressões profundas de lugares e de pessoas. Fala de Comboni, dos missionários, incluindo um comboniano que encontrou no Egipto, censura evangélicos e ONG, apresenta um registo reflexivo sobre o que vê e ouve. «A minha viagem foi uma delícia e uma revelação», escreve logo na segunda página.

Viajei com Gonçalo Cadilhe da Ponta das Agulhas, na África do Sul, até Tânger, em Marrocos. África acima vem num registo muito auto-referencial. O autor viaja por terra e por água usando transportes públicos e boleias. «Abriu» um posto de controlo com comprimidos de alho que ofereceu às autoridades por afrodisíacos.

Outro registo interessante é o diário que o padre Francisco Álvares escreveu da viagem da embaixada portuguesa à Etiópia entre 1520 e 1526 da qual era capelão. Verdadera Informaçam das terras do Preste Joam das Indias, publicado em 1540, é o primeiro livro de viagens sobre a Etiópia. Li-o quando vivia no país – a páginas tantas fiquei com a impressão que uma parte da Etiópia estava parada no tempo. Descreve a corte ambulante do rei Lebna Dengel no seu esplendor, o quotidiano e a fé dos Abissínios, com alguns mal-entendidos à mistura.

De onde vem esta atracção pela África, pelas viagens e pelos seus diários? Gonçalo Cadilhe, escritor-viajante, explica: «Tal como a vida, que não se repete quando termina, também cada dia em África pede para ser absorvido como se não houvesse outros. Sei porque me sinto tão sensível, tão vivo: porque este continente restitui ao europeu a sua fragilidade de grão de areia perdido no deserto da eternidade. É uma descoberta. Uma vertigem.»

28 de junho de 2017

INCÊNDIOS: CATARSE NACIONAL


O concerto solidário JUNTOS POR TODOS que encheu a Meo Arena de Lisboa e foi transmitido pelos três canais em simultâneo foi um grande momento de catarse nacional.

Sofremos, zangamo-nos, choramos com as populações que sofreram na pele a catástrofe que atingiu Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira da Pera, Sertã e Pampilhosa da Serra.

O balanço é tremendo: 64 mortos, mais de 200 feridos, 63 casas e 29 indústrias  afetadas, 53 mil hectares de floresta ardidos.

O concerto solidário de 25 artistas que encheu a Meo Arena com 14 mil pessoas foi o grande momento de catarse nacional para fazer as pazes com a tragédia.

O espectáculo juntou 1.153 000,00 de euros em favor das populações afetadas pelo grande incêncio.

Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas que gere o fundo, prometeu gastar bem gasto cada cêntimo da solidariedade dos telespetadores.

Agora, que fizemos as pazes com a tragédia, importa apurar responsabilidades e sobretudo planear o futuro para que a catástrofe não se volte a repetir.

Como escreveram os bispos na nota sobre os incêndios, «O nosso país, de ano para ano, tem sido de tal modo assolado por incêndios que estes se tornaram um autêntico flagelo com proporções quase incontroláveis. É a área anualmente ardida que já supera a de qualquer outro país europeu, mesmo aqueles que têm condições climatéricas semelhantes à nossa.»

Os bispos pedem uma mudança de registo por parte da sociedade em geral: «Finalmente, para a mudança de mentalidade e hábitos sociais, tão necessária para a prevenção e o combate aos incêndios, há que mobilizar toda a sociedade, nas suas diversas instâncias: o Estado com os seus responsáveis mais diretos; a Igreja e todas as outras confissões religiosas; as autarquias locais de maior e menor amplitude; as escolas nos seus sucessivos graus de ensino; a comunicação social nas suas diversas expressões; as mais variadas associações e muitas outras instituições, seja qual for a sua dimensão. Mas todos de forma concertada.»

23 de junho de 2017

«DEUS AMOU TANTO»


«Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.» (Jo 3, 16)

Caríssimos confrades,

Saudações e orações.

Boa Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Deus nosso Pai mandou o seu único Filho, como sinal do seu amor pela humanidade necessitada e sofredora e consolou-nos a todos nós através do envio do Espírito Santo, dom do seu filho Jesus Cristo, nosso Senhor Crucificado e Ressuscitado. Nós acreditamos que cada discípulo e discípula, sejam chamados e enviados a anunciar, testemunhar e servir este amor de Deus. Nós todos agradecemos ao Senhor porque fez de São Daniel Comboni e de nós, os seus filhos, Missionários Combonianos, mensageiros, testemunhas e servos do seu amor.

Tudo o que o nosso pai Fundador, São Daniel Comboni, compreendeu do grande amor de Deus, levava-o ao Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor de Deus pela humanidade.

«Necessitando extremamente da ajuda do Sagrado Coração de Jesus, soberano da África Central, o qual é a alegria, a esperança, a fortuna e tudo para os seus pobres missionários, dirijo-me a si, amigo… para encomendar e confiar ao S. Coração os interesses mais preciosos da minha laboriosa e difícil missão, à qual consagrei toda a minha alma, o meu corpo, o meu sangue e a minha vida!» (E 5255-5256).

Caríssimos confrades, neste ano em que celebramos os 150 anos do nosso Instituto Missionário, queremos continuar a contemplar e agradecer a Deus, pelo amor vivido na sua vida por São Daniel Comboni e por tantos nossos confrades e pela grande generosidade para com o povo de Deus não obstante as nossas fragilidades, os nossos limites e os nossos pecados.

«Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós» (E 3159). Sim, Comboni e os nossos confrades deixaram alargar o seu coração para que se assemelhasse um pouco mais ao de Jesus, para fazer causa comum e participar com generosidade na missão de Deus, entre os povos, onde estamos, e sobretudo entre os que sofrem, são marginalizados e empobrecidos.

«Encontro-me sempre com os meus queridos leprosos, falo-lhes da bondade do Senhor, e ensino a palavra de Deus. Tenho a igreja contígua à minha casita, Jesus próximo de Giosuè: quem, mais feliz do que eu? Não é este um pequeno céu? Quanto ao mal que me visitou, oh, eu beijo a mão do Senhor que me presenteou com a lepra; poder sofrer assim; para estas almas, não é uma graça? Eu não tenho senão um desejo: morrer leproso entre os meus leprosos!» (Ir. Giosuè Dei Cas, 1880-1932)

Sim, continuamos a agradecer ao Senhor por cada um dos nossos confrades que fazem causa comum e anunciam Jesus Cristo e o seu Evangelho para construir o Reino de Deus, recordando-nos que alguns pagaram o seu testemunho com a própria vida. «A Cruz é a solidariedade de Deus, que assume o caminho e o sofrimento humano, não para o eternizar mas para o suprimir. A maneira com que quer suprimi-lo não é através da força nem com o domínio, mas pela vida do amor. Cristo pregou e viveu esta nova dimensão. O medo da morte não o fez desistir do seu projecto de amor. O amor é mais forte do que a morte» (P. Ezechiele Ramin, Homilia aos Fiéis, Sexta-feira Santa, Cacoal, 05.04.1985)

Portanto, vivamos esta festa tão cara a todos nós com o olhar fixo no Coração de Jesus, deixando-nos enriquecer com o testemunho daqueles que nos precederam ao longo da história do nosso Instituto e empenhando-nos sempre mais na fidelidade quotidiana aos valores do Evangelho.

Boa Festa do Sagrado Coração!

No ano do 150º aniversário da fundação do nosso Instituto
O Conselho Geral

22 de junho de 2017

«SOLIDÁRIOS COM AS VÍTIMAS DOS INCÊNDIOS»


Bispos de Portugal apelam à solidariedade para com as vítimas dos incêndios que queimaram e mataram no centro do país.


Mensagem da Conferência Episcopal Portuguesa

Reunidos em Fátima, nas Jornadas Pastorais e em Assembleia Plenária extraordinária, nós, os Bispos portugueses, acompanhamos com dor, preocupação solidária e oração a dramática situação dos incêndios que provocaram numerosas vítimas e que estão a causar enorme devastação no país.

Partilhamos, antes de mais, a dor dos que choram os seus familiares e amigos que perderam a vida, pedindo a Deus que os acolha junto de Si. Manifestamos igualmente o nosso reconhecimento e apoio aos bombeiros, às organizações de socorro e aos numerosos voluntários, nacionais e estrangeiros, que envidam todos os esforços para salvar vidas, minorar danos e evitar a perda de pessoas e de bens, mesmo à custa de canseiras e riscos pessoais.

Na sequência do que afirmámos na Nota Pastoral de 27 de abril de 2017 «Cuidar da casa comum – prevenir e evitar os incêndios», estamos conscientes da necessidade de medidas mais preventivas, concretas e concertadas sobre esta calamidade que todos os anos atinge o nosso país. Neste momento, porém, em cada uma das nossas Igrejas diocesanas, sentimo-nos próximos e comprometidos com a situação dramática dos que sofrem. A partir das nossas comunidades cristãs, das Cáritas Diocesanas e da Cáritas Portuguesa, e de outras instituições eclesiais, participamos no esforço de acudir às vítimas, providenciar meios de primeira necessidade e colaborar no ressurgir da esperança, da solidariedade e do alento para reconstruir a vida e o futuro.

Pedimos a todas as comunidades cristãs e a quem deseje associar-se que, além de outras iniciativas solidárias, dediquem a oração, o sufrágio e o ofertório do primeiro domingo de julho a esta finalidade e que enviem o produto desta recolha fraterna para a Cáritas Portuguesa [Conta Cáritas na CGD: 0001 200000 730 - IBAN: PT50 0035 0001 00200000 730 54], a fim de ser encaminhado com brevidade para aqueles que necessitam.

Fátima, 21 de junho de 2017

20 de junho de 2017

Darfur: OPERÁRIO SALVA MISSIONÁRIOS DE SEQUESTRO


P. Feliz com Sr. Tong

Desde que cheguei a Nyala, Darfur, ja vai para 11 anos, há uma palavra que nós missionários ouvimos frequentemente de tanta gente que nos quer bem. Refiro-me especificamente ao alerta e bom conselho a respeito de sequestros e raptos de veículos e de pessoas, especialmente de estrangeiros. Esta é, de facto, uma triste realidade que não parou de existir desde o inicio da guerra/conflito armado do Darfur, em 2003.

De entre os sequestrados ao longo destes últimos anos contam-se também alguns conhecidos e amigos pessoais, incluindo o pároco da comunidade copta-ortodoxa de Nyala que foi raptado a 14 abril de 2016 e ficou em cativeiro durante 42 dias.

Infelizmente, esta maléfica e diabólica atividade continua atual nestas paragens. Na sexta-feira passada, 9 de junho, de manhãzinha, a horas em que as ruas estão praticamente desertas por ser o mês de Ramadão, o sinistro veio bater à porta da missão católica. Mas, graças ao Deus Altíssimo, não levou a melhor.

Eram três homens: um de arma kalashnikov em punho; outro de rosto completamente velado com o turbante; o terceiro sem qualquer distintivo.

Damos graças a Deus que nenhum de nós os dois missionários se encontrava por perto quando s bateram à porta da missão.

Tong, operário da missão que veio do Sudão do Sul, tinha chegado um pouco antes. Foi ele próprio que lidou com o caso e que imediatamente nos veio contar enquanto tomávamos o café da manhã.

Depois do apressado e abreviado «Assalam aleicum», ouvimos da sua boca a narração do que aconteceu.

Os assaltantes perguntaram: «Onde estão os abunas (padres)? Chama-os aqui à porta», ameaçaram.

Porém, Tong foi muito corajoso pela maneira como soube repelir os assaltantes: «Podes apertar o gatilho e disparar, se assim o quiseres; fica certo, porém, que não vou buscar os padres.»

Foi arrojada a resposta de Tong àquele que lhe apontava a arma ao peito. O breve relato do corrupto acidente deixou-nos sem palavras e sem reacção imediata.

Mais tarde, conversando com operário, pressenti que tinha algo a acrescentar à história do rapto falhado daquela manhã.

O portão estava aberto. Tong fez questão de me mostrar, mesmo aí ao lado, o local exacto onde esteve parada a carrinha Toyota, à espera de, em caso de êxito final e missão cumprida, arrancar com os dois padres cativos.

A seguir, num misto de orgulho e humildade, confessou: «Se me ponho a pensar donde me veio tal coragem para responder aos atacantes, não saberia explicar». Ao que eu respondi: «Não é questão de pôr-se a pensar; o que temos é muito que agradecer.»

E é mesmo esta a mensagem que aqui deixo ao enviar estas notícias aos amigos. Nós, os padres Lorenzo Baccin e Feliz Martins da missão católica de Nyala não cessamos de agradecer a Deus que nos livrou das mãos dos raptores.

Ao mesmo tempo, a nossa oração é em favor de todos aqueles que são vítimas de sequestros e raptos, como consequência da desgovernação caótica desta região sudanesa do Darfur.
Feliz C. Martins
Nyala – Sudão

9 de junho de 2017

CARTA AOS CONFRADES DA REPÚBLICA CENTRO AFRICANA


Os participantes no Simpósio dos 150 anos do Instituto dos Missionários Combonianos em Roma escreveram uma carta de apoio e de encorajamento aos Combonianos, Combonianas e Leigos Combonianos que trabalham com o povo centrafricano martirizado. 

«Este Instituto torna-se como que um pequeno cenáculo de Apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia em direção do centro da Nigrícia tanto raios quanto os seus Missionários zelosos e virtuoso que saem do seu seio;  estes raios que brilham e, simultaneamente, aquecem, manifestam necessariamente a natureza do Centro de que provêm»
(São Daniel Comboni)


Muito estimado P.e Médard e confrades da República Centro Africana,

reunidos aqui em Roma como Família Missionária Comboniana para o Simpósio dos 150 anos do nosso Instituto, o nosso pensamento e o nosso coração querem unir-se a vós.

O Simpósio é um momento de profunda comunhão com todos os confrades e irmãs que em diferentes missões continuam esta obra que o nosso fundador iniciou há 150 anos.

De um modo todo particular, sobretudo após os acontecimentos de Bangassou, queremos exprimir-vos a nossa solidariedade e a nossa fraternidade e, sobretudo a nossa oração por todos vós: Combonianos, Combonianas, Seculares e Leigos Combonianos, que caminhais com o martirizado povo centro-africano. Dais-nos, uma vez mais, um testemunho de amor e de misericórdia para com todos; um testemunho de fé cristã nesse Deus que nos chama a responder ao mal com o bem.

Com a vossa vida dizeis-nos que ser Missionários Combonianos, apesar de por vezes ser difícil, vale a pena. Obrigado porque estais a semear a boa semente, seguindo os passos de Comboni, com a mesma certeza que «as obras de Deus nascem e crescem aos pés da Cruz».

Concluímos com as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco por ocasião da abertura da Porta Santa em Bangui: «Todos pedimos a paz, a misericórdia e a reconciliação, o perdão, o amor, para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro, para os povos vítimas da guerra, imploramos a paz!».

Que Maria, Rainha da Nigrícia, São Daniel Comboni e todos os confrades e irmãs que nos precederam, intercedam por todos nós.

Roma, 1 de Junho de 2017.

Os participantes ao Simpósio pelos 150 anos do Instituo dos Missionários Combonianos.

8 de junho de 2017

COM GRATIDÃO E ESPERANÇA


Mensagem conclusiva do simpósio aos confrades

Nós, missionários combonianos, provenientes das diversas circunscrições e acompanhados por membros da Família Comboniana, reunimo-nos em Roma para celebrar o aniversário dos 150 anos do nosso instituto. Para todos nós celebrar significa antes de mais fazer memória das nossas origens e da história que o Senhor está a traçar connosco e com os povos que encontramos no nosso caminho. Recordar não é um exercício de arqueologia, mas um processo vivo de agradecimento ao Senhor e entrega confiante do nosso futuro nas suas mãos. Recordar é partir de novo, renovados.


Herança: da gratidão à fidelidade

O nascimento do nosso instituto não aconteceu à mesa, mas foi fruto de um longo processo de vida e missão. Foi um parto doloroso e atormentado num momento de mudança epocal. Nascemos na pobreza, sem apoios eclesiásticos, políticos e económicos particulares. Este evento quase único na história do movimento missionário do século xix deu-nos uma grande liberdade de responder à nossa vocação especial. Embora o percurso de definição jurídica não tenha sido simples, é claro que Comboni desejava uma família de missionários que fossem:

  • ad vitam, ou seja não só dispostos a doar o seu tempo, mas a sua própria vida pela missão;
  • católicos, isto é não prisioneiros de lógicas nacionalistas;
  • apaixonados por Deus e pelos povos, fazendo causa comum com os pobres.

O papa Francisco diz-nos que «a alegria do missionário brilha sempre sobre o fundo de uma memória grata». A gratidão é reconhecer-se amados e, impelidos por este amor, sair para partilhar a experiência com os outros. A gratidão não é estática, mas é um movimento dentro de nós, fora de nós e à frente, é um caminho. Nesta ótica, a reunificação do instituto, a nova regra de vida e a canonização de São Daniel Comboni tornam-se momentos qualificantes da nossa história e ocasiões para partir de novo e continuar o seu percurso com criatividade.

Gratidão significa reconhecer na nossa história a fidelidade de Deus, espelhada na generosa fidelidade de tantos confrades de ontem e de hoje: fidelidade ao Evangelho, a Comboni, à missão árdua, à oração, à pobreza evangélica, ao povo de Deus e à internacionalidade.


Caminhos de regeneração

Hoje temos os instrumentos para estudar e conhecer melhor o fundador e a nossa história, e este simpósio deu o seu contributo a este fim. Estamos conscientes de que cada vez que nos aproximamos de Comboni e da sua graça carismática damos um salto qualitativo.

É necessária uma reconfiguração do nosso instituto. Encontramo-nos perante o desafio de uma missão que não se detém, que está ainda longe das suas metas. O envelhecimento dos membros do nosso instituto, acompanhado de uma quebra de vocações em muitas das nossas circunscrições, os novos paradigmas de missão e a alteração do nosso papel no seio das igrejas locais são alguns dos desafios que acrescentam inquietação ao nosso presente. Esta missão exige um testemunho que vai muito para além das obras e questiona o nosso estilo de vida, e pede-nos a entrega cabal de nós mesmos.

Sentimos que a reconfiguração do nosso instituto passa através de quatro caminhos: a mística, a humildade, a fraternidade e a ministerialidade.

1. Mística. Não é apenas questão de redescobrir o gosto da oração, mas desenvolver uma espiritualidade da presença de Deus na história dos povos e nos rostos das pessoas. A fé e a esperança dos pobres ensinam-nos esta mística, sem a qual corremos o risco de definhar e de perder o sentido do nosso caminho missionário.

2. Humildade. Conscientes dos nossos limites e fragilidades, sentimo-nos chamados a passar do protagonismo ao testemunho. Hoje não conta só «fazer missão», mas antes e sobretudo «ser missão». Não bastam as palavras e a obras, há muitas pessoas capazes de falar e de fazer, por vezes melhor do que nós. O desafio que se nos apresenta é mostrar com a nossa vida o tesouro que guardamos no coração.

3. Fraternidade. Tanto nas intervenções como nos trabalhos de grupo surgiu muitas vezes o desejo de nos amarmos mais uns aos outros. Precisamos de crescer na qualidade das nossas relações comunitárias. Este problema manifesta-se na insuficiência de discernimento e de projetos comunitários e na pouco partilha das nossas vivências. Alguns de nós não se sentem em casa nas nossas comunidades. Ser irmãos entre nós exige momentos de reconciliação, até mesmo sacramentais. Mais fraternidade ajudaria a integrar missão e consagração e a melhorar o nosso discernimento comunitário.

4. Ministerialidade. Os novos contextos sociais convidam-nos a rever com urgência a nossa ministerialidade. Hoje temos necessidade de ser mais bem qualificados nos diversos campos da evangelização, trabalhando em equipa com todos os sujeitos da família comboniana e da igreja local. A missão é ponto de referência de todo o percurso formativo. A ministerialidade não chega se não for fundada sobre a paixão de Cristo pela humanidade.

Deste aniversário partimos como irmãos, conscientes dos desafios e das dificuldades, mas carregados de esperança:

«O missionário não se deixa abater por nenhuma dificuldade. Todas as cruzes são meritórias porque se trabalha somente por Cristo e pela missão» (São Daniel Comboni).

«Que o Espírito faça sobreabundar em vós a esperança» (Papa Francisco).

7 de junho de 2017

MEMORAR


Nós somos povo pascal! Filhos da ressurreição, somos convocados a fazer memória da Páscoa do Senhor, das passagens da Trindade Santa nas nossas vidas, na nossa história transformando-as em vidas e história de salvação.

«Fazei isto em memória de mim», confiou Jesus aos discípulos da primeira Eucaristia, aos discípulos de todas as Eucaristias. Somos povo da memória.

Fazer memória é, primeiro, escancarar a mente e o coração ao Espírito Santo num Pentecostes quotidiano. Sem o Paráclito não há memória! Jesus disse aos discípulos: «O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há de recordar-vos tudo» (João 14, 26).

O P.e David Glenday comenta assim esta passagem inspiradora: «Para os discípulos, para nós, recordar é em primeiro lugar não um esforço ou projeto de nós próprios, mas um dom, uma graça, um trabalho do Espírito.»

Memoramos as maravilhas que o Senhor operou pelos Missionários Combonianos, para os Missionários Combonianos, através dos Missionários Combonianos em sete décadas de presença em Viseu e em Portugal.

O Senhor abençoou-nos «porque o seu amor é eterno» (Salmo 136).

Abençoou-nos através do carinho acolhedor da diocese de Viseu, da cidade, da região, do país.

Abençoou-nos através de todas as pessoas que com o seu afeto e amizade tornaram possível esta história singular de 70 anos em Portugal.

Abençoou-nos através das missionárias e missionários que nos precederam nesta peregrinação com o Senhor da Missão. Vivemos porque elas e eles amaram: «Felizes os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente», recorda a Escritura (Ben Sira 48,11).

Abençoou-nos inspirando há 150 anos o P.e Daniel Comboni a fundar o Instituto Missionário para a Nigrícia.

O fundador escreveu a um amigo: «Lembre-se de mim, que me é grato viver na sua memória» (Escritos 714).

É-nos grato aos combonianos de ontem e de hoje viver na memória acolhedora da Igreja e da sociedade civil de Viseu, de Portugal. E, confiantes na misericórdia do Senhor, pedir humildemente perdão pelos nossos pecados.

Memorar é viver na memória uns dos outros!

Que o Senhor nos abençoe a todos!

3 de junho de 2017

O DALAI LAMA E O ARCEBISPO: ALEGRIA


Dizem-se almas gémeas, irmãos espirituais, mas aparentemente não poderiam ser mais diferentes: Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama, monge budista e líder do povo do Tibete no exílio. Desmond Tutu é sul-africano, cristão, arcebispo anglicano do Cabo, na África do Sul.

Dois prémios nobel da paz, dois seres humanos especiais que acreditam na bondade inerente de cada pessoa e na esperança e compaixão como elementos fundamentais para o nosso relacionamento, para a nossa felicidade.

Fazem da humanidade partilhada o ponto de partida para o seu diálogo intenso, feito de palavras, de gargalhadas e de gestos durante uma semana, sobre a alegria, a sua natureza verdadeira, obstáculos e pilares.

Os diálogos decorreram em Dharamsala, no exílio indiano do Dalai Lama.

A ocasião que os juntou foi a celebração dos 80 anos do líder espiritual dos tibetanos.

Trocaram ideias, carinhos, brincadeiras, grandes risadas, exploraram juntos as respetivas tradições religiosas.

O Dalai Lama é um monge budista e não bebe álcool. Mas essa tradição não o impediu de comungar do cálice durante a Eucaristia que o arcebispo celebrou para ele. E de dar dois passos de dança – outro interdito dos monges budistas – instigado pelo arcebispo na grande festa de aniversário.

Essa semana única foi registada em vídeo. Douglas Abrams conduziu os debates, fez as perguntas, trabalhou as gravações. E nasceu O livro da alegria – alcançar a felicidade num mundo em mudança.

Dois homens de duas geografias e teologias tão diversas pensam a uma só voz: o que nos separa é de facto muito pouco.

Algumas frases que guardei:

ALEGRIA/DOR: «Tristemente, muitas das coisas que corroem a nossa alegria e a nossa felicidade são criadas por nós próprios. Muitas vezes, resultam das tendências negativas da mente, da reatividade emocional, ou da nossa incapacidade para apreciarmos e utilizarmos os recursos que existem no nosso interior» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «Cuidar dos outros, ajudar os outros, é, em última análise, a forma de descobrir a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MEDO: ««Na verdade, o medo faz parte da natureza humana; é uma resposta natural que surge face ao perigo. Mas, com coragem, quando de facto surge o perigo, poderão ser mais destemidos, mais realistas. Por outro lado, se deixarem a vossa imaginação à solta, exacerbam a situação, o que gera mais medo» (Dalai Lama).

MEDO/INFERNO: «Muitas pessoas neste planeta preocupam-se por poderem ir para o Inferno, mas isso vale de nada. Não é preciso ter medo. Enquanto estivermos na terra preocupados com o Inferno, com a morte, com as coisas que podem correr mal, teremos imensa ansiedade e nunca encontraremos a alegria e a felicidade. Se tiverem verdadeiramente medo do Inferno, têm que viver a vossa vida com algum propósito, especialmente ajudando os outros» (Dalai Lama).

PERDÃO/LIBERTAÇÃO: «O perdão é a única forma de sararmos e de nos libertarmos do passado» (Desmond Tutu).

EU/SOFRIMENTO TU/FELICIDADE: «Um pensamento demasiado centrado no eu é uma fonte de sofrimento. Um cuidado compassivo pelo bem-estar dos outros é a fonte da felicidade» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «De facto, cuidarmos dos outros, ajudarmos os outros, é a forma derradeira de descobrirmos a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MAL/BEM: «Sim, somos capazes das mais horrorosas atrocidades. Podemos fazer uma lista. E Deus chora até que surgem aqueles que dizem querer tentar fazer alguma coisa. É bom lembrar também que temos uma fantástica capacidade para praticar o bem» (Desmond Tutu).

BONDADE: «Sabemos que os seres humanos são basicamente bons. Sabemos que é por aí que temos de começar. Que tudo o resto é uma aberração. Tudo o que se desvie daí é uma exceção – mesmo que de vez em quando possa ser muito frustrante. As pessoas são espantosamente, extraordinariamente boas, incríveis na sua generosidade» (Desmond Tutu)

FELICIDADE/AFETO/GENEROSIDADE: «A única coisa que produzirá felicidade é o afeto e a generosidade. Isso traz realmente força interior e autoconfiança, reduz o medo e desenvolve a confiança, e a confiança traz a amizade» (Dalai Lama).

SOLIDÃO/RAIVA/AMIZADE: «Se estiverem repletos de juízos negativos e raiva, então sentir-se-ão separados das outras pessoas. Sentir-se-ão solitários. Mas, se tiverem um coração aberto e estiverem plenos de confiança e amizade, mesmo que estejam fisicamente sós, mesmo levando uma vida de eremita, nunca se sentirão sozinhos» (Dalai Lama).