22 de julho de 2017

VIDA CONSAGRADA: TEMPOS NOVOS, MUDANÇAS NOVAS




A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de Janeiro de 2017 umas orientações intituladas Vinho novo, odres novos – A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto.

O documento é um exercício de discernimento prático para «ler práticas inadequadas, indicar processos bloqueados, fazer perguntas concretas, pedir razões das estruturas de relação, de governo e de formação sobre o apoio real dado à forma de vida evangélica das pessoas consagradas» como explica o penúltimo parágrafo da curta introdução.

Esta inovação tem a ver com a atualização histórica dos carismas face às realidades socioculturais que vivemos (as novas pobrezas) e a linguagem (simbolismo) para os comunicarmos às novas gerações.

A evolução social, económica, política, científica e tecnológica a par com a intervenção estatal em nichos tradicionalmente ocupados pelos consagrados transformaram-nos em presença redundante. Por outro lado, emergências novas e inéditas pedem exigências que continuam à espera de resposta por parte da vida consagrada.

Os religiosos estão superados? Somos fósseis vivos, dinossauros cristãos em vias de extinção? «As novas pobrezas interpelam a consciência de muitos consagrados e solicitam aos carismas históricos novas formas de resposta generosa frente às novas situações e aos novos descartes da história. Daí o florescimento das novas formas de presença e de serviço nas múltiplas periferias existenciais» (nº 7).

Há novas alianças com os leigos a par de uma mudança de registo imprescindível: passar da gestão das crises e da sobrevivência à imaginação criativa de novos percursos de vida e consagração (n.º 8).



1. DESAFIOS EM ABERTO

O desafio maior é a inovação: «o velho esquema institucional tem dificuldade em dar passagem a novos modelos de modo decidido» (nº 9).

Há três questões em aberto: «harmonia e coexistência» entre a tradição e as inovações pedidas pelo Concílio; avaliação do funcionamento dos «elementos de mediação» face às novidades; ver o que «bebemos»: vinho novo ou a martelo para «esconder» erros/problemas não resolvidos.

Nalgumas realidades da vida consagrada as pessoas sentem-se incapazes de acolher os sinais daquilo que é novo. Por isso, «não podemos continuar a protelar o dever de entendermos juntos onde se encontra o nó a desatar, para sairmos da paralisia e superarmos o medo frente ao futuro» (nº 10). Um trabalho em conjunto, portanto! «Estamos juntos!» como dizem os moçambicanos.



2. FORMAÇÃO


A debandada que afeta a vida religiosa não vem «sempre e apenas» das crises afectivas mas «muitas vezes essas crises afectivas são fruto de uma remota desilusão por uma vida de comunidade sem autenticidade» (nº 13); crise de fé e excesso de atividades bem como o isolamento dos jovens em comunidades maioritariamente de pessoas idosas provocando um fosso de gerações no que se refere à espiritualidade, oração e pastoral.

O nº 24 é bem mais contundente: «dentre os motivos principais dos abandonos, destacam-se […] o debilitamento da visão de fé, os conflitos na vida fraterna e a vida fraterna débil em termos de humanidade».

O caminho? Recriar a linguagem simbólica da vida religiosa tendo em conta a diversificação cultural que transforma os institutos a partir de dentro.

«O cuidado em vista a um crescimento harmonioso entre a dimensão espiritual e a dimensão humana implica uma atenção específica à antropologia das diversas culturas e à sensibilidade própria das novas gerações, com particular referência aos novos contextos de vida. Só um reentendimento profundo do simbolismo que toca verdadeiramente o coração das novas gerações pode evitar o perigo de se contentarem com uma adesão apenas superficial, de tendência e até de moda, onde parece que a busca de sinais exteriores transmite segurança de identidade», lê-se no nº 14.

Combinar essa recriação do simbolismo com os ideais de beleza e conforto das gerações de hoje é um desafio enorme.

As orientações exigem respostas concretas de todos os institutos desde a formação (novos formadores-peregrinos abertos a novos percursos de formação sinodal e personalizada usando o modelo iniciático e a comunidade formativa) à necessidade urgente de uma cultura de formação permanente ou contínua e iniciação séria ao governo (nº 16). Com exigências destas não admira que haja tão poucos candidatos a formadores!

Para amadurecer a reciprocidade entre homens e mulheres na vida consagrada, o documento pede «promover relações de irmandade entre consagradas e consagrados dentro da Igreja» (nº 18). Obejtivo? «Para se tornarem um modelo de sustentabilidade antropológica) (nº 18).

Não podemos continuar a viver de costas voltadas, mulheres e homens da vida consagrada.



3. AUTORIDADE

O documento faz uma reflexão profunda sobre a crise de autoridade que afeta a vida religiosa. Propõe a passagem do autoritarismo à subsidiariedade e à delegação para garantir as autonomias de cada nível de autoridade (geral, provincial e comunidades). O serviço da autoridade deve partir de uma espiritualidade de comunhão participativa (nº 21) autonomizando as pessoas para gerirem o dia-a-dia em normalidade (nº 21) em vez de criar dependências infantis sem espaço para a originalidade.

O documento critica a clericalização da vida consagrada e nota que os empenhos pastorais podem debilitar a vida comunitária dos membros-padres.

«A terminologia “superiores” e “súbditos” já não é adequada», sublinha o nº 24, propondo o fim das pirâmides da autoridade.

Interessante também a perspectiva de preparar as novas gerações para o governo dos institutos durante o período de formação de base.



4. ADMINISTRAÇÃO DE BENS

O documento faz uma reflexão robusta sobre o tema da administração dos bens e relaciona-o com o profetismo da vida fraterna: «A vida consagrada tem sido capaz de se opor profeticamente, cada vez que o poder económico correu o risco de humilhar as pessoas. Na atual situação global de crise financeira […] os consagrados são chamados a ser verdadeiramente fiéis e criativos para não faltarem à profecia da vida comum internamente e da solidariedade para com o exterior sobretudo em relação aos mais pobres e mais frágeis» (nº 26) através da transparência económica e financeira e da distribuição de bens.

Um sublinhado a reter: «Os bens dos institutos são bens eclesiais e participam das mesmas finalidades no modo evangélico da promoção da pessoa humana, da missão e da partilha caritativa e solidária com o povo de Deus» (nº 28).»



5. INOVAR É PRECISO

As Orientações propõem caminhos concretos, um GPS para a recriação da vida consagrada:

  • Aprender «um processo de abertura infinita à novidade do Reino» (nº 29);
  • Abrir caminhos novos de esperança, «descobrir novos percursos rumo à autenticidade do testemunho evangélico e carismático da vida consagrada» (nº 30);
  • Assumir atitudes e escolhas novas que sublinhem o primado do serviço e a solidariedade como os mais pobres (nº 31);
  • Ultrapassar o fosso geracional através da inculturação, multiculturalidade e interculturalidade e da modificação de estruturas (nº 33);
  • Passar dos seminários/noviciados trentinos para novas formas e estruturas que sustentem os consagrados (nº 35);
  • Exercer autoridade de proximidade (nº 36);
  • Preparar formadores que aceitem a multiculturalidade como forma de viver a fé (nº 37) e as suas consequências e exigências (nº 38) através de novos estilos, estruturas (nº 39) e processos de internacionalização (nº 40);
  • Recentrar o serviço da autoridade na dinâmica da fraternidade ao serviço da comunhão (nº 41), de projetos comuns (nº 42) e «novos equilíbrios culturais na vida e no governo dos institutos» (nº 53).

6. MISSÃO IMPOSSÍVEL

Partilhei esta reflexão com o conselho provincial e os membros de uma comunidade em Portugal. Um dos missionários comentou que o documento é muito belo, mas «é uma missão impossível».

Eu acredito que Vinho novo, odres novos tem em si todos os ingredientes necessários para renovar a vida consagrada. Mas necessita de um envolvimento emocional por parte das religiosas e religiosos. Se começamos a construir obstáculos do género «Missão impossível» então é mais um documento para ser votado ao pó das prateleiras.

18 de julho de 2017

QUATRO PALAVRAS PARA UM JUBILEU


Os participantes no simpósio sobre os 150 anos do Instituto enviaram-nos quatro palavras que sustêm o altar da memória sobre o qual colocamos o nosso futuro como oferenda sagrada ao Senhor da missão: mística, humildade, fraternidade e ministerialidade.

Mística: o grande teólogo Karl Rahner escreveu que «o Cristão do século xxi ou será místico ou não será cristão» e acrescentou «desde que não se entendam por mística fenómenos parapsicológicos raros, mas uma experiência de Deus autêntica, que brota do interior da existência». A oração e a espiritualidade contemplativas são a fonte da vida fraterna e do serviço missionário, de cenáculos de apóstolos. A mística, segundo a mensagem que os participantes no simpósio escreveram a todos os missionários, também ajuda a aprender a fé e a esperança com os pobres com quem fazemos causa comum.

Humildade: como Instituto estamos mais pequenos e frágeis e somos chamados a passar do protagonismo ao testemunho como modo de vida missionária. Mais do que fazer missão, somos desafiados a ser missão, a partilhar o tesouro que enche o nosso coração.

Fraternidade
: para sermos missionários melhores temos que nos amar mais uns aos outros, melhorar as relações humanas dentro das comunidades combonianas, torná-las verdadeiros cenáculos de apóstolos. O nosso sistema formativo está muito desequilibrado: prepara missionários com uma grande cabeça – ricos em intelectualidade – e com um coração atrofiado – pobres em humanidade. Depois o projeto comum não devia ser a soma dos projetos pessoais, mas um projeto de vida e de missão para todos. É imperioso partilhar mais as nossas experiências pessoais de Deus – a autoridade de Jesus vinha disso mesmo: ele não ensinava teologia, partilhava a experiência do Abba (Papá) das longas noites de contemplação em lugares ermos. É fácil falar sobre desporto, política, sobre os outros … e torna-se tão difícil expressar o Deus que habita no mais profundo de nós mesmos! A vida comunitária não deve ser vista como funcional (trabalhamos melhor juntos) nem como segurança (cama, mesa e roupa lavada para os «consumidores de comunidade»). A forma como vivemos é a primeiro Evangelho que anunciamos. Somos presente de Deus uns para os outros, não somos estranhos nem pesos a suportar.

Ministerialidade: a quebra nos números e na energia missionária do Instituto e da Província leva a uma inevitável redução de compromissos. Fechar Calvão – uma experiência compreensivelmente dolorosa para alguns e um sinal lindo da relação esponsal que mantêm com as pessoas com quem vivem o discipulado – é o primeiro passo nessa revisão, mas não deve ser o único. Os participantes propõem a qualificação em certos campos de evangelização, porque – ao contrário do que diz a sabedoria popular milenar – não somos pau para toda a colher. A chave está no trabalho em rede, em novas alianças ministeriais (como no-lo recordam os Documentos Capitulares 2015): com a família comboniana, com a Igreja local e com outros parceiros estratégicos da sociedade civil. E o fazer da missão o motor de continuidade do nosso processo formativo permanente para fortalecer a paixão por Cristo e pela humanidade.

Estas são as quatro palavras-chave que nos abrem à vida comboniana em plenitude.

Mística, humildade, fraternidade, ministerialidade: quatro palavras mágicas que desvendam o segredo da felicidade comunitária e pessoal. Estas quatro palavras vão fazer o conteúdo da assembleia provincial juntamente com as lições da nossa história em Portugal sob o tema genérico Coração missionário jubilar.

16 de julho de 2017

COMBONIANO NOMEADO BISPO AUXILIAR NA ÁFRICA CENTRAL

Um missionário comboniano espanhol foi nomeado bispo auxiliar da diocese de Bangassou, na República Centro-Africana.

O Vaticano anunciou na terça-feira, 11 de julho, que o Santo Padre nomeou o padre Jesús Ruiz Molina bispo auxiliar de Bangassou.

O P. Jesús tem 58 anos e era até agora pároco de Moumgoumba e coordenador diocesano da pastoral de catequese na diocese centro-africana de M’Baiki.

Nasceu em La Cueva de Roa, Burgos e foi ordenado em 1987.

Trabalhou em Espanha (animação missionária, formação e Leigos Missionários Combonianos-LMC), Chade (pároco e provincial) e República Centro-Africana (pároco, coordenador de pastoral e conselheiro provincial).

A teóloga Susana Vilas Boas, leiga missionária comboniana que trabalhou largos anos com o P. Jesús na comunidade internacional LMC de Moungoumba, descreve o novo prelado como «alguém que dá cor à missão e cuja criatividade não se esgota quando se trata do anúncio do Evangelho».

O P. Jesús é bispo titular da diocese de Are da Mauritânia que, entretanto, deixou de existir.

Vai ser bispo auxiliar de Dom Juan José Aguirre, que também é comboniano e espanhol e tem feito um trabalho notável de reconciliação e paz entre muçulmanos e outros grupos na sua diocese.


15 de julho de 2017

Obituário: P. ROGÉRIO ARTUR DE SOUSA


29-4-1933 | 24-6-2017

Era visível que o P. Rogério Artur de Sousa se estava a apagar como uma lamparina a consumir as últimas gotas de azeite. Andava mais calado, gostava de se sentar no presbitério junto ao Santíssimo Sacramento em silêncio enquanto a comunidade rezava as laudes com as combonianas e alguns leigos. Deixou de usar a prótese dentária. Mas mantinha o sentido de humor: da última vez que estive com ele, bateu-me com a inseparável bengala na cabeça com carinho e disse: «Ó provincial, continuas a crescer!»

Entretanto, é internado a 15 de junho no Hospital São Teotónio de Viseu com um quadro de insuficiência cardíaca e tem alta uma semana depois. No dia 24 de junho sente dificuldades para jantar e por volta das 20h00 retira-se para o quarto. Dada a respiração difícil e laboriosa é chamada a emergência médica que se limita a confirmar a morte. O P. Rogério entra no Céu no dia em que a Igreja celebra o nascimento de São João Batista. O decano dos padres combonianos portugueses conta 84 anos de idade.

O P. Rogério nasce a 29 de abril de 1933 no lugar de Sargaçais, paróquia de Souto de Aguiar, concelho de Aguiar da Beira do casal de agricultores António Augusto de Sousa e Rosa de Jesus.

Dos oito filhos do casal (duas mulheres e seis homens) cinco enveredaram pela vida religiosa: uma moça entra nas Irmãs Doroteias e quatro moços nos combonianos: dois padres (P. Rogério e P. José de Sousa) e dois irmãos (o Ir. Miguel dos Santos que falece em 1979 em Coimbra e o Ir. Jorge Fernandes de Sousa que, entretanto, deixa o Instituto no Brasil).

O P. Rogério entra para os combonianos do Seminário Maior de Viseu em 1951. Faz o noviciado em Gozzano (Itália) e os primeiros votos a 9 de setembro de 1954 em Viseu juntamente com o Ir. António Martins da Costa – os primeiros dois portugueses a professar no Instituto sete anos depois de os combonianos terem chegado a Viseu.

Cursa teologia em Venegono (Itália) entre 1954 e 1957 e em Viseu no ano de 1957-1958. Faz a profissão perpétua em 10 de março de 1958 e é ordenado a 27 de julho em Viseu onde permanece como professor até 1960.

Nesse ano parte para Moçambique para a missão de Lunga. Regressa a Portugal em 1962 e integra a equipa que produz a revista Além-Mar em Paço d’Arcos. Dois anos depois, vai para VN de Famalicão como formador do seminário menor.

Em 1967 retorna a Moçambique como capelão militar. Três anos depois volta ao serviço missionário ativo em várias missões da diocese de Nampula: Carapira (1970-1971), Nacala (1971-1974), Mossuril (1974-1976) e Memba (1976-1987).

O P. Rogério faz parte do grupo de 11 combonianos expulsos de Moçambique a 13 de abril de 1974 em retaliação pelo Um Imperativo de Consciência escrito pelo Bispo Manuel Vieira Pinto e pelos combonianos.

Volta a Moçambique logo que a situação política o permite. Nos primeiros anos da independência os tempos são difíceis. Escreve a 5 de dezembro de 1981 de Namahaca: «Por aqui vai-se vivendo e até finalmente depois da conclusão das aulas a 25/11 se vai respirando um pouco de alívio. Não haja dúvidas que de 3/9 até fins de novembro foi preciso trabalhar como um moiro. Na diocese, vamos tendo quase por toda a parte possibilidade de contactar com os crentes. Há 15 dias também no Monapo se abriram as portas. Aguardamos ainda quanto a Mussoril, Lunga e Mueria.»

Em 1987, regressa a Portugal e fica em Lisboa até 1993 como membro da redação das revistas. Além de escrever (assina os artigos com o seu nome e também usa pseudónimo), traduz muito material do italiano para português.

Em 1993, o Conselho Geral destinou-o ao Brasil, mas nunca chega a partir porque «a Vinda Intermédia de Jesus – que ainda não é a derradeira – está para breve.»

Passa dois anos fora de comunidade, é reintegrado em Lisboa, transferido para VN Famalicão para o serviço de confissões e em 2013 vem para Viseu para o Centro de Acolhimento da Província.

O P. Rogério é um missionário humilde e zeloso com uma grande devoção à Divina Misericórdia. Tenta dar corpo a um movimento laical – Missionários da Divina Misericórdia – inspirado nos escritos e visões de Santa Faustina, fruto de uma inquietação antiga: «Já há muitos anos venho sentindo uma necessidade grande de divulgar e manifestar sobremaneira a Misericórdia de Deus, para que nestes tempos que também são de confusão e afastamento de Deus, os homens e o mundo reencontrem com alegria “as fontes da Salvação” para as quais o Coração Trespassado de Jesus não deixa de apontar.» Um projeto que lhe acarreta inúmeras dificuldades com o Instituto.

O P. Rogério também faz parte do Renovamento Carismático e propõe aos superiores investigar o tema Comboni e o Divino Espírito Santo e escrever um livro sobre o tema.

Para o P. José de Sousa, o seu irmão «foi sempre em tudo como Missionário Comboniano. A experiência que ele fez de estar fora da comunidade em Lisboa trouxe-lhe muito entusiasmo na fé e muito sofrimento. Rogério levou sempre a vida e o sim a Comboni muito a sério. Como difusor com livros próprios da Divina Misericórdia sofreu críticas exageradas, injustas acerca desse assunto que foi plenamente assumido por São João Paulo II e a festa/domingo da Divina Misericórdia. Uniu-se à Cruz com uma entrega total nas mãos de Deus esquecendo tudo o que o fez sofrer. A devoção ao santo Padre Pio o confortou e conformou.»

O P. Claudino Ferreira Gomes descreve bem o P. Rogério: «Seja o Senhor louvado pelo seu servo e amigo, que tanto esperava a vinda de Jesus. Será feliz quando o Senhor em Pessoa lhe explicar esse mistério. Entretanto, eu agradeço a Deus pela dedicação missionária e pastoral e pelo espírito contemplativo do P. Rogério. E por todas as vezes que me atendeu de confissão até há pouco tempo, aconselhando sempre com zelo e sabedoria.»

O advogado Dr. Aurélio Pinto, antigo aluno comboniano recorda o P. Rogério sobretudo como pedagogo: «Não posso deixar de manifestar a tão grata memória do saudoso Padre Rogério, pela relevância que teve na minha formação e educação religiosa e humana, de que me apraz destacar o seu sentido de prática de justiça e rigor, moldados pelo amor cristão que certamente orientavam a sua vida.»

É este missionário que agradecemos, celebramos e entregamos ao Senhor das misericórdias.

P. José Vieira

6 de julho de 2017

P. ROGÉRIO DE SOUSA: TRIBUTOS


O P. Rogério Artur de Sousa partiu para o Pai a 24 de junho de 2017. O decano dos padres combonianos portugueses tinha 84 anos. Eis alguns dos tributos que lhe foram prestados:

O meu irmão foi sempre em tudo como Missionário Comboniano. A experiência que ele fez de estar fora da comunidade em Lisboa trouxe-lhe muito entusiasmo na fé e muito sofrimento. Rogério levou sempre a vida e o sim a Comboni muito a sério. Como difusor com livros próprios da Divina Misericórdia sofreu críticas exageradas, injustas acerca desse assunto que foi plenamente assumido por São João Paulo II e a festa/domingo da Divina Misericórdia. Uniu-se à Cruz com uma entrega total nas mãos de Deus esquecendo tudo o que o fez sofrer. A devoção ao santo Padre Pio o confortou e conformou.
P. José de Sousa (Viseu)

Vimos comunicar-vos que o Pe. Artur de Sousa, missionário comboniano, que pertencia à comunidade de Viseu, faleceu no dia 24 de junho, por volta das 21.30, de insuficiência cardíaca.

Muitos se lembrarão do sorriso bonito do Pe. Rogério pelos espaços da casa de Viseu!

Somos felizes por tê-lo conhecido.

Em comunhão no Coração de Jesus,
Ir Mª do Carmo Ribeiro (LMC Portugal)


Paz à sua alma

Unidos na oração à família de sangue e à família comboniana.
P. António Carlos (Filipinas)


Uno-me a todos os combonianos de Portugal nesta ocasião da passagem para o Pai do nosso irmão P. Rogério Artur de Sousa.

Deus o receba na sua casa, tendo em conta a sua dedicação à missão e ao anúncio da alegria do Evangelho.

Consola-nos o facto que no dia de ontem, em Nampula, professaram os primeiros noviços do novo Noviciado. Eles irão ocupar o lugar dos que vão falecendo. Deus continua presente na sua Igreja e chama novos jovens a quem confiar o anúncio da Boa Nova.

Deus dê descanso à alma do P. Rogério e console os seus familiares, especialmente ao seu irmão P. Zé e à Irmã Maria do Carmo e a todos os amigos e conhecidos.
P. Luís Albuquerque (Maputo – Moçambique)


Deus envolva o P. Rogério na sua misericórdia. Era zeloso, à sua maneira, das coisas de Deus. Certamente está já nas mãos dele.

Estou unido à província e a toda a sua família.
P. Júlio (Nampula – Moçambique)


O saudoso padre Rogério foi hoje lembrado e elogiado no Encontro de Espiritualidade Comboniana, na Maia. Rezámos por ele na oração e na Eucaristia.

Também pelas duas irmãs que faleceram em acidente na Amazónia; muito senti a sua perda, mesmo não as conhecendo.

Que todos permaneçam como tochas acesas no nosso caminho missionário, intercedendo junto do Pai.
Mário Breda (LMC-Portugal) 


No dia em que celebramos na República Democrática do Congo a Festa do Coração de Jesus, quero unir-me a toda a província de Portugal na oração pelo eterno repouso do P. Rogério. Que o Senhor o acolha na sua misericórdia.
Zé Arieira (RD Congo)


Choque grande ao receber a notícia.
A ti, cabeça da Província, apresento os meus pêsames, em comunhão com todos os nossos irmãos missionários combonianos.Seja o Senhor louvado pelo seu servo e amigo, que tanto esperava a vinda de Jesus. Será feliz quando o Senhor em Pessoa lhe explicar esse mistério.

Entretanto, eu agradeço a Deus pela dedicação missionária e pastoral e pelo espírito contemplativo do P. Rogério. E por todas as vezes que me atendeu de confissão até há pouco tempo, aconselhando sempre com zelo e sabedoria.
P. Claudino (Lisboa)


Que o Rogério descanse na paz de Deus. Recordo os anos que vivi com ele em Famalicão. Rezo por ele e pela sua família.
Dave (Filipinas)


As minhas condolências ao Pe. Zé e família.
P. J. Juan Valero (Uganda)


Uno-me a ti e à província neste momento de adeus ao Rogério. Rezo pelo Rogério e pela família.
José Eduardo Freitas (Matany-Uganda)


Em comunhão com toda a província,
Manuel João (Castel d’Azzano – Itália)


Muito obrigado pela informação sobre o falecimento do nosso P. Rogério. Estarei unido a ti, que representas toda a nossa família Comboniana, ao P. José de Sousa e toda a sua família, nestes dias de mágoa, mas também de esperança e de fé.
P. Francisco Machado (Gana)


Estou unido ao luto e à esperança cristã, por ocasião do falecimento do Padre Rogério de Sousa.

Particulares sentimentos ao Padre José de Sousa e outros familiares, e aos colegas da comunidade de Viseu.

Que descanse em paz, e interceda por nós todos, e por Moçambique em particular por que muito sofreu.
Manuel dos Anjos (Tete – Moçambique)


Nós missionários do “mato” temos estado fora do resto do mundo, sem net há tanto tempo!

Nestes dias estou em Adis Abeba e por isso tive possibilidade de abrir a net, depois de umas semanas, e encontrei as várias mensagens tuas, especialmente sobre a morte da Conceição Primitivo e do nosso grande padre Rogério! Solidariedade com estas perdas para a nossa província e uma oração pelo seu eterno repouso!

A vida por aqui continua, sempre animados com a missão e sempre a rodar!

Graças a Deus por estes anos e pelos nossos irmãos maiores que tanto me ensinaram sobre a felicidade na vida dedicada a Deus e à Missão! As maiores felicidades para a província!
Quim (Etiópia)

Tendo, somente agora, por consulta ao V/ boletim informativo de 29/06/2017, tomado conhecimento do falecimento do S/ confrade P.e Rogério de Sousa, não posso deixar de manifestar-lhe, a si e a todos os confrades combonianos e grandes amigos, a tão grata memória do saudoso Padre Rogério, pela relevância que teve na minha formação e educação religiosa e humana, de que me apraz destacar o seu sentido de prática de justiça e rigor, moldados pelo amor cristão que certamente orientavam a sua vida.
Aurélio Pinto

4 de julho de 2017

SAFARIS DE LETRAS


Os registos escritos das viagens africanas fascinam.
Heródoto visitou a Líbia e o Egipto há 2450 anos. As impressões que este grego, chamado Pai da História, escreveu fizeram escola atraindo gerações para um continente que se instalou definitivamente no imaginário dos Europeus, e, por via destes, do mundo. Ler quem depois dele se fez aos bosques e sertões de África para no-la dar a conhecer é outra forma de viajar – e de compreender o berço da humanidade.

O meu conterrâneo Alexandre de Serpa Pinto (1846-1900) levou-me de Benguela, na costa angolana do Atlântico, a Durban, cidade sul-africana debruçada sobre o Índico, com a cabrinha Córa e o papagaio Calungo por entre maravilhas e perigos. Abriu caminho pelo interior desconhecido com aguardente, panos e outras bugigangas, numa odisseia de 17 meses a pé, de cavalo, padiola, piroga e carroça.

Como eu Atravessei a África do Atlântico ao Índico relata essa viagem épica e científica extremamente perigosa de Angola até à África do Sul passando pela Zâmbia e o Zimbabué entre 12 de Novembro de 1877 e 19 de Março de 1879. Ilustrou-a com alguns desenhos a traço. Contém muitas notas geográficas e etnográficas e inúmeros registos científicos e medições que o explorador cinfanense fez. Tudo num português com mais de 100 anos: como a língua evoluiu à margem dos acordos ortográficos!

Serpa Pinto baloiçou perigosamente sobre as Cataratas Vitória para determinar a sua altura e posição. Mozia-oa-tunia, o nome da extraordinária cortina de água na língua local, é nas suas palavras «a mais prodigiosa maravilha do continente africano», «uma soberba maravilha que gera sentimentos de terror e tristeza».

Paul Theroux levou-me do Cairo, no Egipto, ao Cabo, na África do Sul, por terra e por água, excepto para entrar e sair do Sudão – teve de tomar o avião. Viagem por África é um diário que anota impressões profundas de lugares e de pessoas. Fala de Comboni, dos missionários, incluindo um comboniano que encontrou no Egipto, censura evangélicos e ONG, apresenta um registo reflexivo sobre o que vê e ouve. «A minha viagem foi uma delícia e uma revelação», escreve logo na segunda página.

Viajei com Gonçalo Cadilhe da Ponta das Agulhas, na África do Sul, até Tânger, em Marrocos. África acima vem num registo muito auto-referencial. O autor viaja por terra e por água usando transportes públicos e boleias. «Abriu» um posto de controlo com comprimidos de alho que ofereceu às autoridades por afrodisíacos.

Outro registo interessante é o diário que o padre Francisco Álvares escreveu da viagem da embaixada portuguesa à Etiópia entre 1520 e 1526 da qual era capelão. Verdadera Informaçam das terras do Preste Joam das Indias, publicado em 1540, é o primeiro livro de viagens sobre a Etiópia. Li-o quando vivia no país – a páginas tantas fiquei com a impressão que uma parte da Etiópia estava parada no tempo. Descreve a corte ambulante do rei Lebna Dengel no seu esplendor, o quotidiano e a fé dos Abissínios, com alguns mal-entendidos à mistura.

De onde vem esta atracção pela África, pelas viagens e pelos seus diários? Gonçalo Cadilhe, escritor-viajante, explica: «Tal como a vida, que não se repete quando termina, também cada dia em África pede para ser absorvido como se não houvesse outros. Sei porque me sinto tão sensível, tão vivo: porque este continente restitui ao europeu a sua fragilidade de grão de areia perdido no deserto da eternidade. É uma descoberta. Uma vertigem.»

28 de junho de 2017

INCÊNDIOS: CATARSE NACIONAL


O concerto solidário JUNTOS POR TODOS que encheu a Meo Arena de Lisboa e foi transmitido pelos três canais em simultâneo foi um grande momento de catarse nacional.

Sofremos, zangamo-nos, choramos com as populações que sofreram na pele a catástrofe que atingiu Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira da Pera, Sertã e Pampilhosa da Serra.

O balanço é tremendo: 64 mortos, mais de 200 feridos, 63 casas e 29 indústrias  afetadas, 53 mil hectares de floresta ardidos.

O concerto solidário de 25 artistas que encheu a Meo Arena com 14 mil pessoas foi o grande momento de catarse nacional para fazer as pazes com a tragédia.

O espectáculo juntou 1.153 000,00 de euros em favor das populações afetadas pelo grande incêncio.

Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias Portuguesas que gere o fundo, prometeu gastar bem gasto cada cêntimo da solidariedade dos telespetadores.

Agora, que fizemos as pazes com a tragédia, importa apurar responsabilidades e sobretudo planear o futuro para que a catástrofe não se volte a repetir.

Como escreveram os bispos na nota sobre os incêndios, «O nosso país, de ano para ano, tem sido de tal modo assolado por incêndios que estes se tornaram um autêntico flagelo com proporções quase incontroláveis. É a área anualmente ardida que já supera a de qualquer outro país europeu, mesmo aqueles que têm condições climatéricas semelhantes à nossa.»

Os bispos pedem uma mudança de registo por parte da sociedade em geral: «Finalmente, para a mudança de mentalidade e hábitos sociais, tão necessária para a prevenção e o combate aos incêndios, há que mobilizar toda a sociedade, nas suas diversas instâncias: o Estado com os seus responsáveis mais diretos; a Igreja e todas as outras confissões religiosas; as autarquias locais de maior e menor amplitude; as escolas nos seus sucessivos graus de ensino; a comunicação social nas suas diversas expressões; as mais variadas associações e muitas outras instituições, seja qual for a sua dimensão. Mas todos de forma concertada.»

23 de junho de 2017

«DEUS AMOU TANTO»


«Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna. De facto, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele.» (Jo 3, 16)

Caríssimos confrades,

Saudações e orações.

Boa Festa do Sagrado Coração de Jesus.

Deus nosso Pai mandou o seu único Filho, como sinal do seu amor pela humanidade necessitada e sofredora e consolou-nos a todos nós através do envio do Espírito Santo, dom do seu filho Jesus Cristo, nosso Senhor Crucificado e Ressuscitado. Nós acreditamos que cada discípulo e discípula, sejam chamados e enviados a anunciar, testemunhar e servir este amor de Deus. Nós todos agradecemos ao Senhor porque fez de São Daniel Comboni e de nós, os seus filhos, Missionários Combonianos, mensageiros, testemunhas e servos do seu amor.

Tudo o que o nosso pai Fundador, São Daniel Comboni, compreendeu do grande amor de Deus, levava-o ao Sagrado Coração de Jesus, símbolo do amor de Deus pela humanidade.

«Necessitando extremamente da ajuda do Sagrado Coração de Jesus, soberano da África Central, o qual é a alegria, a esperança, a fortuna e tudo para os seus pobres missionários, dirijo-me a si, amigo… para encomendar e confiar ao S. Coração os interesses mais preciosos da minha laboriosa e difícil missão, à qual consagrei toda a minha alma, o meu corpo, o meu sangue e a minha vida!» (E 5255-5256).

Caríssimos confrades, neste ano em que celebramos os 150 anos do nosso Instituto Missionário, queremos continuar a contemplar e agradecer a Deus, pelo amor vivido na sua vida por São Daniel Comboni e por tantos nossos confrades e pela grande generosidade para com o povo de Deus não obstante as nossas fragilidades, os nossos limites e os nossos pecados.

«Quero partilhar a vossa sorte e o dia mais feliz da minha existência será aquele em que eu possa dar a vida por vós» (E 3159). Sim, Comboni e os nossos confrades deixaram alargar o seu coração para que se assemelhasse um pouco mais ao de Jesus, para fazer causa comum e participar com generosidade na missão de Deus, entre os povos, onde estamos, e sobretudo entre os que sofrem, são marginalizados e empobrecidos.

«Encontro-me sempre com os meus queridos leprosos, falo-lhes da bondade do Senhor, e ensino a palavra de Deus. Tenho a igreja contígua à minha casita, Jesus próximo de Giosuè: quem, mais feliz do que eu? Não é este um pequeno céu? Quanto ao mal que me visitou, oh, eu beijo a mão do Senhor que me presenteou com a lepra; poder sofrer assim; para estas almas, não é uma graça? Eu não tenho senão um desejo: morrer leproso entre os meus leprosos!» (Ir. Giosuè Dei Cas, 1880-1932)

Sim, continuamos a agradecer ao Senhor por cada um dos nossos confrades que fazem causa comum e anunciam Jesus Cristo e o seu Evangelho para construir o Reino de Deus, recordando-nos que alguns pagaram o seu testemunho com a própria vida. «A Cruz é a solidariedade de Deus, que assume o caminho e o sofrimento humano, não para o eternizar mas para o suprimir. A maneira com que quer suprimi-lo não é através da força nem com o domínio, mas pela vida do amor. Cristo pregou e viveu esta nova dimensão. O medo da morte não o fez desistir do seu projecto de amor. O amor é mais forte do que a morte» (P. Ezechiele Ramin, Homilia aos Fiéis, Sexta-feira Santa, Cacoal, 05.04.1985)

Portanto, vivamos esta festa tão cara a todos nós com o olhar fixo no Coração de Jesus, deixando-nos enriquecer com o testemunho daqueles que nos precederam ao longo da história do nosso Instituto e empenhando-nos sempre mais na fidelidade quotidiana aos valores do Evangelho.

Boa Festa do Sagrado Coração!

No ano do 150º aniversário da fundação do nosso Instituto
O Conselho Geral

22 de junho de 2017

«SOLIDÁRIOS COM AS VÍTIMAS DOS INCÊNDIOS»


Bispos de Portugal apelam à solidariedade para com as vítimas dos incêndios que queimaram e mataram no centro do país.


Mensagem da Conferência Episcopal Portuguesa

Reunidos em Fátima, nas Jornadas Pastorais e em Assembleia Plenária extraordinária, nós, os Bispos portugueses, acompanhamos com dor, preocupação solidária e oração a dramática situação dos incêndios que provocaram numerosas vítimas e que estão a causar enorme devastação no país.

Partilhamos, antes de mais, a dor dos que choram os seus familiares e amigos que perderam a vida, pedindo a Deus que os acolha junto de Si. Manifestamos igualmente o nosso reconhecimento e apoio aos bombeiros, às organizações de socorro e aos numerosos voluntários, nacionais e estrangeiros, que envidam todos os esforços para salvar vidas, minorar danos e evitar a perda de pessoas e de bens, mesmo à custa de canseiras e riscos pessoais.

Na sequência do que afirmámos na Nota Pastoral de 27 de abril de 2017 «Cuidar da casa comum – prevenir e evitar os incêndios», estamos conscientes da necessidade de medidas mais preventivas, concretas e concertadas sobre esta calamidade que todos os anos atinge o nosso país. Neste momento, porém, em cada uma das nossas Igrejas diocesanas, sentimo-nos próximos e comprometidos com a situação dramática dos que sofrem. A partir das nossas comunidades cristãs, das Cáritas Diocesanas e da Cáritas Portuguesa, e de outras instituições eclesiais, participamos no esforço de acudir às vítimas, providenciar meios de primeira necessidade e colaborar no ressurgir da esperança, da solidariedade e do alento para reconstruir a vida e o futuro.

Pedimos a todas as comunidades cristãs e a quem deseje associar-se que, além de outras iniciativas solidárias, dediquem a oração, o sufrágio e o ofertório do primeiro domingo de julho a esta finalidade e que enviem o produto desta recolha fraterna para a Cáritas Portuguesa [Conta Cáritas na CGD: 0001 200000 730 - IBAN: PT50 0035 0001 00200000 730 54], a fim de ser encaminhado com brevidade para aqueles que necessitam.

Fátima, 21 de junho de 2017

20 de junho de 2017

Darfur: OPERÁRIO SALVA MISSIONÁRIOS DE SEQUESTRO


P. Feliz com Sr. Tong

Desde que cheguei a Nyala, Darfur, ja vai para 11 anos, há uma palavra que nós missionários ouvimos frequentemente de tanta gente que nos quer bem. Refiro-me especificamente ao alerta e bom conselho a respeito de sequestros e raptos de veículos e de pessoas, especialmente de estrangeiros. Esta é, de facto, uma triste realidade que não parou de existir desde o inicio da guerra/conflito armado do Darfur, em 2003.

De entre os sequestrados ao longo destes últimos anos contam-se também alguns conhecidos e amigos pessoais, incluindo o pároco da comunidade copta-ortodoxa de Nyala que foi raptado a 14 abril de 2016 e ficou em cativeiro durante 42 dias.

Infelizmente, esta maléfica e diabólica atividade continua atual nestas paragens. Na sexta-feira passada, 9 de junho, de manhãzinha, a horas em que as ruas estão praticamente desertas por ser o mês de Ramadão, o sinistro veio bater à porta da missão católica. Mas, graças ao Deus Altíssimo, não levou a melhor.

Eram três homens: um de arma kalashnikov em punho; outro de rosto completamente velado com o turbante; o terceiro sem qualquer distintivo.

Damos graças a Deus que nenhum de nós os dois missionários se encontrava por perto quando s bateram à porta da missão.

Tong, operário da missão que veio do Sudão do Sul, tinha chegado um pouco antes. Foi ele próprio que lidou com o caso e que imediatamente nos veio contar enquanto tomávamos o café da manhã.

Depois do apressado e abreviado «Assalam aleicum», ouvimos da sua boca a narração do que aconteceu.

Os assaltantes perguntaram: «Onde estão os abunas (padres)? Chama-os aqui à porta», ameaçaram.

Porém, Tong foi muito corajoso pela maneira como soube repelir os assaltantes: «Podes apertar o gatilho e disparar, se assim o quiseres; fica certo, porém, que não vou buscar os padres.»

Foi arrojada a resposta de Tong àquele que lhe apontava a arma ao peito. O breve relato do corrupto acidente deixou-nos sem palavras e sem reacção imediata.

Mais tarde, conversando com operário, pressenti que tinha algo a acrescentar à história do rapto falhado daquela manhã.

O portão estava aberto. Tong fez questão de me mostrar, mesmo aí ao lado, o local exacto onde esteve parada a carrinha Toyota, à espera de, em caso de êxito final e missão cumprida, arrancar com os dois padres cativos.

A seguir, num misto de orgulho e humildade, confessou: «Se me ponho a pensar donde me veio tal coragem para responder aos atacantes, não saberia explicar». Ao que eu respondi: «Não é questão de pôr-se a pensar; o que temos é muito que agradecer.»

E é mesmo esta a mensagem que aqui deixo ao enviar estas notícias aos amigos. Nós, os padres Lorenzo Baccin e Feliz Martins da missão católica de Nyala não cessamos de agradecer a Deus que nos livrou das mãos dos raptores.

Ao mesmo tempo, a nossa oração é em favor de todos aqueles que são vítimas de sequestros e raptos, como consequência da desgovernação caótica desta região sudanesa do Darfur.
Feliz C. Martins
Nyala – Sudão

9 de junho de 2017

CARTA AOS CONFRADES DA REPÚBLICA CENTRO AFRICANA


Os participantes no Simpósio dos 150 anos do Instituto dos Missionários Combonianos em Roma escreveram uma carta de apoio e de encorajamento aos Combonianos, Combonianas e Leigos Combonianos que trabalham com o povo centrafricano martirizado. 

«Este Instituto torna-se como que um pequeno cenáculo de Apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia em direção do centro da Nigrícia tanto raios quanto os seus Missionários zelosos e virtuoso que saem do seu seio;  estes raios que brilham e, simultaneamente, aquecem, manifestam necessariamente a natureza do Centro de que provêm»
(São Daniel Comboni)


Muito estimado P.e Médard e confrades da República Centro Africana,

reunidos aqui em Roma como Família Missionária Comboniana para o Simpósio dos 150 anos do nosso Instituto, o nosso pensamento e o nosso coração querem unir-se a vós.

O Simpósio é um momento de profunda comunhão com todos os confrades e irmãs que em diferentes missões continuam esta obra que o nosso fundador iniciou há 150 anos.

De um modo todo particular, sobretudo após os acontecimentos de Bangassou, queremos exprimir-vos a nossa solidariedade e a nossa fraternidade e, sobretudo a nossa oração por todos vós: Combonianos, Combonianas, Seculares e Leigos Combonianos, que caminhais com o martirizado povo centro-africano. Dais-nos, uma vez mais, um testemunho de amor e de misericórdia para com todos; um testemunho de fé cristã nesse Deus que nos chama a responder ao mal com o bem.

Com a vossa vida dizeis-nos que ser Missionários Combonianos, apesar de por vezes ser difícil, vale a pena. Obrigado porque estais a semear a boa semente, seguindo os passos de Comboni, com a mesma certeza que «as obras de Deus nascem e crescem aos pés da Cruz».

Concluímos com as palavras pronunciadas pelo Papa Francisco por ocasião da abertura da Porta Santa em Bangui: «Todos pedimos a paz, a misericórdia e a reconciliação, o perdão, o amor, para Bangui, para toda a República Centro-Africana, para o mundo inteiro, para os povos vítimas da guerra, imploramos a paz!».

Que Maria, Rainha da Nigrícia, São Daniel Comboni e todos os confrades e irmãs que nos precederam, intercedam por todos nós.

Roma, 1 de Junho de 2017.

Os participantes ao Simpósio pelos 150 anos do Instituo dos Missionários Combonianos.

8 de junho de 2017

COM GRATIDÃO E ESPERANÇA


Mensagem conclusiva do simpósio aos confrades

Nós, missionários combonianos, provenientes das diversas circunscrições e acompanhados por membros da Família Comboniana, reunimo-nos em Roma para celebrar o aniversário dos 150 anos do nosso instituto. Para todos nós celebrar significa antes de mais fazer memória das nossas origens e da história que o Senhor está a traçar connosco e com os povos que encontramos no nosso caminho. Recordar não é um exercício de arqueologia, mas um processo vivo de agradecimento ao Senhor e entrega confiante do nosso futuro nas suas mãos. Recordar é partir de novo, renovados.


Herança: da gratidão à fidelidade

O nascimento do nosso instituto não aconteceu à mesa, mas foi fruto de um longo processo de vida e missão. Foi um parto doloroso e atormentado num momento de mudança epocal. Nascemos na pobreza, sem apoios eclesiásticos, políticos e económicos particulares. Este evento quase único na história do movimento missionário do século xix deu-nos uma grande liberdade de responder à nossa vocação especial. Embora o percurso de definição jurídica não tenha sido simples, é claro que Comboni desejava uma família de missionários que fossem:

  • ad vitam, ou seja não só dispostos a doar o seu tempo, mas a sua própria vida pela missão;
  • católicos, isto é não prisioneiros de lógicas nacionalistas;
  • apaixonados por Deus e pelos povos, fazendo causa comum com os pobres.

O papa Francisco diz-nos que «a alegria do missionário brilha sempre sobre o fundo de uma memória grata». A gratidão é reconhecer-se amados e, impelidos por este amor, sair para partilhar a experiência com os outros. A gratidão não é estática, mas é um movimento dentro de nós, fora de nós e à frente, é um caminho. Nesta ótica, a reunificação do instituto, a nova regra de vida e a canonização de São Daniel Comboni tornam-se momentos qualificantes da nossa história e ocasiões para partir de novo e continuar o seu percurso com criatividade.

Gratidão significa reconhecer na nossa história a fidelidade de Deus, espelhada na generosa fidelidade de tantos confrades de ontem e de hoje: fidelidade ao Evangelho, a Comboni, à missão árdua, à oração, à pobreza evangélica, ao povo de Deus e à internacionalidade.


Caminhos de regeneração

Hoje temos os instrumentos para estudar e conhecer melhor o fundador e a nossa história, e este simpósio deu o seu contributo a este fim. Estamos conscientes de que cada vez que nos aproximamos de Comboni e da sua graça carismática damos um salto qualitativo.

É necessária uma reconfiguração do nosso instituto. Encontramo-nos perante o desafio de uma missão que não se detém, que está ainda longe das suas metas. O envelhecimento dos membros do nosso instituto, acompanhado de uma quebra de vocações em muitas das nossas circunscrições, os novos paradigmas de missão e a alteração do nosso papel no seio das igrejas locais são alguns dos desafios que acrescentam inquietação ao nosso presente. Esta missão exige um testemunho que vai muito para além das obras e questiona o nosso estilo de vida, e pede-nos a entrega cabal de nós mesmos.

Sentimos que a reconfiguração do nosso instituto passa através de quatro caminhos: a mística, a humildade, a fraternidade e a ministerialidade.

1. Mística. Não é apenas questão de redescobrir o gosto da oração, mas desenvolver uma espiritualidade da presença de Deus na história dos povos e nos rostos das pessoas. A fé e a esperança dos pobres ensinam-nos esta mística, sem a qual corremos o risco de definhar e de perder o sentido do nosso caminho missionário.

2. Humildade. Conscientes dos nossos limites e fragilidades, sentimo-nos chamados a passar do protagonismo ao testemunho. Hoje não conta só «fazer missão», mas antes e sobretudo «ser missão». Não bastam as palavras e a obras, há muitas pessoas capazes de falar e de fazer, por vezes melhor do que nós. O desafio que se nos apresenta é mostrar com a nossa vida o tesouro que guardamos no coração.

3. Fraternidade. Tanto nas intervenções como nos trabalhos de grupo surgiu muitas vezes o desejo de nos amarmos mais uns aos outros. Precisamos de crescer na qualidade das nossas relações comunitárias. Este problema manifesta-se na insuficiência de discernimento e de projetos comunitários e na pouco partilha das nossas vivências. Alguns de nós não se sentem em casa nas nossas comunidades. Ser irmãos entre nós exige momentos de reconciliação, até mesmo sacramentais. Mais fraternidade ajudaria a integrar missão e consagração e a melhorar o nosso discernimento comunitário.

4. Ministerialidade. Os novos contextos sociais convidam-nos a rever com urgência a nossa ministerialidade. Hoje temos necessidade de ser mais bem qualificados nos diversos campos da evangelização, trabalhando em equipa com todos os sujeitos da família comboniana e da igreja local. A missão é ponto de referência de todo o percurso formativo. A ministerialidade não chega se não for fundada sobre a paixão de Cristo pela humanidade.

Deste aniversário partimos como irmãos, conscientes dos desafios e das dificuldades, mas carregados de esperança:

«O missionário não se deixa abater por nenhuma dificuldade. Todas as cruzes são meritórias porque se trabalha somente por Cristo e pela missão» (São Daniel Comboni).

«Que o Espírito faça sobreabundar em vós a esperança» (Papa Francisco).

7 de junho de 2017

MEMORAR


Nós somos povo pascal! Filhos da ressurreição, somos convocados a fazer memória da Páscoa do Senhor, das passagens da Trindade Santa nas nossas vidas, na nossa história transformando-as em vidas e história de salvação.

«Fazei isto em memória de mim», confiou Jesus aos discípulos da primeira Eucaristia, aos discípulos de todas as Eucaristias. Somos povo da memória.

Fazer memória é, primeiro, escancarar a mente e o coração ao Espírito Santo num Pentecostes quotidiano. Sem o Paráclito não há memória! Jesus disse aos discípulos: «O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há de recordar-vos tudo» (João 14, 26).

O P.e David Glenday comenta assim esta passagem inspiradora: «Para os discípulos, para nós, recordar é em primeiro lugar não um esforço ou projeto de nós próprios, mas um dom, uma graça, um trabalho do Espírito.»

Memoramos as maravilhas que o Senhor operou pelos Missionários Combonianos, para os Missionários Combonianos, através dos Missionários Combonianos em sete décadas de presença em Viseu e em Portugal.

O Senhor abençoou-nos «porque o seu amor é eterno» (Salmo 136).

Abençoou-nos através do carinho acolhedor da diocese de Viseu, da cidade, da região, do país.

Abençoou-nos através de todas as pessoas que com o seu afeto e amizade tornaram possível esta história singular de 70 anos em Portugal.

Abençoou-nos através das missionárias e missionários que nos precederam nesta peregrinação com o Senhor da Missão. Vivemos porque elas e eles amaram: «Felizes os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente», recorda a Escritura (Ben Sira 48,11).

Abençoou-nos inspirando há 150 anos o P.e Daniel Comboni a fundar o Instituto Missionário para a Nigrícia.

O fundador escreveu a um amigo: «Lembre-se de mim, que me é grato viver na sua memória» (Escritos 714).

É-nos grato aos combonianos de ontem e de hoje viver na memória acolhedora da Igreja e da sociedade civil de Viseu, de Portugal. E, confiantes na misericórdia do Senhor, pedir humildemente perdão pelos nossos pecados.

Memorar é viver na memória uns dos outros!

Que o Senhor nos abençoe a todos!

3 de junho de 2017

O DALAI LAMA E O ARCEBISPO: ALEGRIA


Dizem-se almas gémeas, irmãos espirituais, mas aparentemente não poderiam ser mais diferentes: Tenzin Gyatso é o 14º Dalai Lama, monge budista e líder do povo do Tibete no exílio. Desmond Tutu é sul-africano, cristão, arcebispo anglicano do Cabo, na África do Sul.

Dois prémios nobel da paz, dois seres humanos especiais que acreditam na bondade inerente de cada pessoa e na esperança e compaixão como elementos fundamentais para o nosso relacionamento, para a nossa felicidade.

Fazem da humanidade partilhada o ponto de partida para o seu diálogo intenso, feito de palavras, de gargalhadas e de gestos durante uma semana, sobre a alegria, a sua natureza verdadeira, obstáculos e pilares.

Os diálogos decorreram em Dharamsala, no exílio indiano do Dalai Lama.

A ocasião que os juntou foi a celebração dos 80 anos do líder espiritual dos tibetanos.

Trocaram ideias, carinhos, brincadeiras, grandes risadas, exploraram juntos as respetivas tradições religiosas.

O Dalai Lama é um monge budista e não bebe álcool. Mas essa tradição não o impediu de comungar do cálice durante a Eucaristia que o arcebispo celebrou para ele. E de dar dois passos de dança – outro interdito dos monges budistas – instigado pelo arcebispo na grande festa de aniversário.

Essa semana única foi registada em vídeo. Douglas Abrams conduziu os debates, fez as perguntas, trabalhou as gravações. E nasceu O livro da alegria – alcançar a felicidade num mundo em mudança.

Dois homens de duas geografias e teologias tão diversas pensam a uma só voz: o que nos separa é de facto muito pouco.

Algumas frases que guardei:

ALEGRIA/DOR: «Tristemente, muitas das coisas que corroem a nossa alegria e a nossa felicidade são criadas por nós próprios. Muitas vezes, resultam das tendências negativas da mente, da reatividade emocional, ou da nossa incapacidade para apreciarmos e utilizarmos os recursos que existem no nosso interior» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «Cuidar dos outros, ajudar os outros, é, em última análise, a forma de descobrir a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MEDO: ««Na verdade, o medo faz parte da natureza humana; é uma resposta natural que surge face ao perigo. Mas, com coragem, quando de facto surge o perigo, poderão ser mais destemidos, mais realistas. Por outro lado, se deixarem a vossa imaginação à solta, exacerbam a situação, o que gera mais medo» (Dalai Lama).

MEDO/INFERNO: «Muitas pessoas neste planeta preocupam-se por poderem ir para o Inferno, mas isso vale de nada. Não é preciso ter medo. Enquanto estivermos na terra preocupados com o Inferno, com a morte, com as coisas que podem correr mal, teremos imensa ansiedade e nunca encontraremos a alegria e a felicidade. Se tiverem verdadeiramente medo do Inferno, têm que viver a vossa vida com algum propósito, especialmente ajudando os outros» (Dalai Lama).

PERDÃO/LIBERTAÇÃO: «O perdão é a única forma de sararmos e de nos libertarmos do passado» (Desmond Tutu).

EU/SOFRIMENTO TU/FELICIDADE: «Um pensamento demasiado centrado no eu é uma fonte de sofrimento. Um cuidado compassivo pelo bem-estar dos outros é a fonte da felicidade» (Dalai Lama).

CUIDADO/ALEGRIA: «De facto, cuidarmos dos outros, ajudarmos os outros, é a forma derradeira de descobrirmos a nossa própria alegria e ter uma vida feliz» (Dalai Lama).

MAL/BEM: «Sim, somos capazes das mais horrorosas atrocidades. Podemos fazer uma lista. E Deus chora até que surgem aqueles que dizem querer tentar fazer alguma coisa. É bom lembrar também que temos uma fantástica capacidade para praticar o bem» (Desmond Tutu).

BONDADE: «Sabemos que os seres humanos são basicamente bons. Sabemos que é por aí que temos de começar. Que tudo o resto é uma aberração. Tudo o que se desvie daí é uma exceção – mesmo que de vez em quando possa ser muito frustrante. As pessoas são espantosamente, extraordinariamente boas, incríveis na sua generosidade» (Desmond Tutu)

FELICIDADE/AFETO/GENEROSIDADE: «A única coisa que produzirá felicidade é o afeto e a generosidade. Isso traz realmente força interior e autoconfiança, reduz o medo e desenvolve a confiança, e a confiança traz a amizade» (Dalai Lama).

SOLIDÃO/RAIVA/AMIZADE: «Se estiverem repletos de juízos negativos e raiva, então sentir-se-ão separados das outras pessoas. Sentir-se-ão solitários. Mas, se tiverem um coração aberto e estiverem plenos de confiança e amizade, mesmo que estejam fisicamente sós, mesmo levando uma vida de eremita, nunca se sentirão sozinhos» (Dalai Lama).

2 de junho de 2017

ARCO-ÍRIS DESBOTADO


A «nação arco-íris» perde cor.

A África do Sul fez uma transição notável do regime segregacionista da minoria branca para a democracia multirracial e multipartidária guiada pela figura maior que foi Nelson Mandela sob a bandeira da Nação Arco-Íris.

Com as eleições de 1994, ganhas pelo ANC de Mandela, nascia um tempo fértil de esperança para a maioria dos sul-africanos. A Constituição de 1996 parecia pôr termo ao tempo da segregação e da pobreza institucionalizadas para as populações negras.

A Comissão de Verdade e Reconciliação, conduzida pelo arcebispo Desmond Tutu, sentou frente a frente vítimas e agressores e cancelou o espectro da vingança e do banho de sangue nacional. O arcebispo anglicano cunhou o termo «Nação Arco-Íris» para celebrar a diversidade cultural do país.

Hoje, a esperança da madrugada da liberdade deu lugar à exasperação da canícula do meio-dia. A sociedade sul-africana é das mais violentas do globo. Racismo e xenofobia contra estrangeiros africanos e violência contra a mulher estão na ordem do dia. A liderança política enfraqueceu.

A África do Sul é o país mais rico do continente. Os seus recursos naturais importantes incluem ouro, diamantes, cobre, crómio, antimónio, platina, urânio, carvão, ferro, gás natural. Contudo, a riqueza é repartida por uma elite. Um quinto da população vive em pobreza extrema e um quarto está desempregado. Em termos de consumo, os 20 por cento mais pobres da população consomem três por cento do total dos gastos do país, enquanto os 20 por cento mais ricos consomem 65 por cento.

O P.e Jude Burgers, provincial dos Combonianos na África do Sul, escreveu num depoimento: «Sendo sul-africano, eu amo o meu país e o seu povo. Gostaria de ver o melhor do meu país em destaque, e que as muitas áreas que necessitam de tratamento sejam rapidamente cuidadas. Retraio-me quando as escaramuças no nosso Parlamento são transmitidas por todo o mundo. Baixo a cabeça, envergonhado, quando ataques xenófobos e relatórios de corrupção maciça e discriminação são notícia local e internacionalmente.»

A Nação Arco-Íris é produto de migrações milenares que foram compondo o mosaico étnico sul-africano. Ataques contra estrangeiros são comuns devido à crise económica que o país vive. O Governo recusa vistos de residência a estrangeiros africanos, incluindo missionários.

«Embora a África do Sul seja lar de milhões de refugiados, não tem campos de refugiados. Estes refugiados e migrantes vieram de todas as partes do continente africano e também da Ásia. Os refugiados, migrantes e exilados, inicialmente recebidos de braços abertos, experimentam agora hostilidades por parte de algumas populações locais. Lutando com os habitantes locais pelos mesmos recursos, empregos e habitação encontram-se, discriminados pelo simples facto de serem “estrangeiros”», explica o P.e Jude.

Há alguma saída para esta situação de crise profunda? O P.e Jude vê uma escapatória: «Acredito que por meio da educação a nossa sociedade crescerá para ser mais compreensiva e acolhedora.» Mesmo apesar da crise do sector. «Temos milhares de educadores comprometidos e boas instalações educacionais, mas ganhar acesso a uma educação boa é problemático», acrescenta.

Campanhas como #Feesmustfall (Propinas têm de baixar) apontam para a democratização do ensino ao pugnar por educação universitária gratuita para todos.

31 de maio de 2017

PRÉMIO AURORA PARA MÉDICO-MISSIONÁRIO


O Prémio Aurora despertar a humanidade foi atribuído a Tom Catena, 53 anos, um médico-missionário voluntário norte-americano que trabalha nos Montes Nuba do sul do Sudão.

«O Dr. Catena corporiza o espírito do Prémio Aurora, e nós estendemos a nossa gratidão mais profunda a ele e às pessoas e organizações em todo o mundo que o apoiam e inspiram para continuar o seu nobre trabalho apesar das imensas condições desafiantes», disse Ruben Vardanyan, cofundador da Iniciativa Humanitária Aurora e da Universidade Mundo Unido.

E acrescentou: «Estamos honrados por partilhar a sua história com o mundo para iluminar a boa vontade que existe no mundo para que ajudar outros faça parte da nossa cultura global».

A história do Doctor Tom como é conhecido localmente é, de facto, uma história de dedicação ímpar que merece ser contada.

Chegou como voluntário ao Hospital Católico Mãe da Misericórdia, em Guidel (Montes Nuba), no Sudão, há uma década e por lá ficou apesar da guerra civil que ronda a área e das bombas da força aérea.

Conheci-o em 2010 e fiquei marcado pela sua vida austera e dedicada, pela sua tranquilidade. Vinha para a missa das 7h00 da manhã já com a farda verde de trabalho vestida para começar as consultas e as cirurgias logo a seguir.

Vivia num quarto simples, na área do hospital que foi construída para acolher irmãs de uma congregação portuguesa que decidiram anular a partida depois de a guerra civil voltar em 2011.

Guidel fica na área controlada pelos rebeldes do SPLA-Norte.

Operava sempre com música de fundo: rock and roll, música clássica, religiosa, românica… Brinquei com aquela diversidade eclética de sonoridades. «É para me concentrar», explicou.

É o único cirurgião nos Montes Nuba e faz mais de mil intervenções por ano. Serve cerca de 750 mil pessoas.

A guerra civil dá-lhe imenso trabalho, sobretudo as vítimas civis e militares dos bombardeamentos indiscriminados com explosivos artesanais carregadas de estilhaços da força aérea sudanesa que mantém a população sob terror.

Em Guidel está 24 horas de serviço. Fora de Guidel – nas poucas férias que tira cada dois anos – tenta manter o martírio das pessoas dos Montes Nuba na agenda internacional.

O regime de Cartum tentou neutraliza-lo quando um MIG atacou o quarto em que reside no complexo hospitalar. Mas às 11h00 horas da manhã o Dr. Tom estava há muito de serviço no Hospital e escapou ileso à explosão do míssil assassino.

É a fé cristã que o faz permanecer em Guidel juntamente com a comunidade das irmãs combonianas que com ele colaboram no hospital apesar da guerra.

Deixou a namorada para vir para os Montes Nuba. Recentemente casou-se com uma enfermeira local seguindo os costumes tradicionais.

A revista Time colocou-o entre os cem mais influentes de 2015.

O Dr Tom Catena recebeu cem mil dólares do Prémio Aurora e um milhão que dividiu por três organizações caritativas, segundo a dinâmica do galardão.

O Hospital Católico Mãe da Misericórdia foi construído pelo comboniano sudanês Dom Macram Max, bispo emérito de El Obeid, no Sudão, em 2008 e tem 350 camas.

Na última visita que fiz à região, em 2013, tinha cerca de 500 pacientes nas enfermarias, corredores e tendas de campanha montadas por baixo das árvores nim. A maioria eram vítimas das bombas de Cartum.

30 de maio de 2017

PAPA ADIA VIAGEM AO SUDÃO DO SUL


O Papa adiou uma visita ecuménica ao Sudão do Sul prevista para o Outono.

Greg Burke, porta-voz do Vaticano, disse hoje que a viagem não se fará em 2017.

A insegurança em que o país vive torna a viagem papal demasiado perigosa.

Os líderes cristãos do Sudão do Sul convidaram em outubro passado o Papa Francisco e o Arcebispo anglicano Justin Welby de Cantuária para visitarem juntos o país dilacerado por uma guerra civil letal que destrói o país desde dezembro de 2013.

Centenas de milhares de pessoas morreram em combates sangrentos que visam sobretudo a população civil.

A ONU fala de crimes de guerra e contra a humanidade perpetrados por ambas as partes do conflito.

Metade da população enfrenta a fome. Quase dois milhões foram deslocados pelos combates e um milhão procurou refúgio nos países vizinhoa.

Na semana passada, o arcebispo católico de Juba, Dom Paulino Lukudu Loro, anunciou que esperava a visita ecuménica a 15 de outubro.

O anúncio do adiamento da visita do Papa Francisco e do Arcebispo Welby ao Sudão do Sul foi recebido com tristeza.

Marko Logel, colaborador da Rádio Bakhita em Juba, escreveu no Facebook: «Notícia dececionante para nós. Se pôde visitar RCA, porque não SS esta vez?», pergunta.

A visita do Papa à República Centro-Africana em 2015 conseguiu travar por bastante tempo o conflito entre muçulmanos e milícias oponentes.

27 de maio de 2017

NOSSA SENHORA DO SAGRADO CORAÇÃO

A família comboniana celebra a Memória da Bem-aventurada Virgem Maria «Nossa Senhora do Sagrado Coração» no último sábado de maio.

São Daniel Comboni tinha uma grande devoção por Nossa Senhora e invocava-a sobretudo como Nossa Senhora do Sagrado Coração, «novo e glorioso título» como escreve no Ato de consagração de novembro de 1875. A expressão aparece pelo menos 25 vezes em Escritos, o grosso volume que reúne grande parte da correspondência do fundador.

Nós, família comboniana, herdamos esta dimensão do carisma e celebramo-la no último sábado de maio para estar com Maria através do coração mariano de São Daniel Comboni. Nesta reflexão uso sobretudo três textos: Consagração da Nigrícia a Nossa Senhora de La Salette, na França (a 26 de julho de 1868), Carta pastoral para proclamar a consagração do Vicariato a Nossa Senhora do Sagrado Coração (de 28 de outubro de 1875) e Ato de consagração a Nossa Senhora do Sagrado Coração (de novembro de 1875).



1. Ladainha comboniana

Os Escritos de Daniel Comboni são uma enorme experiência mariana. Comboni acarinhou a Mãe do Céu com inúmeros títulos cheios de ternura. Formam uma verdadeira ladainha missionária comboniana: advogada nossa, advogada mais eloquente que todos os anjos e santos, advogada das causas mais difíceis e desesperadas, chave mística do Coração adorável de Jesus, concerto público e geral de todas as criaturas, conforto precioso do missionário, conforto dos aflitos, coração trespassado, despenseira generosa dois tesouros de graça do Coração de Cristo, domicílio do Eterno Divino Filho, dona do Sagrado Coração de Jesus, elogio universal de todos os seres, esperança dos desesperados, esperança dos pecadores, estandarte da fé, estrela da manhã de luz para os negros, estrela de Jacob, filha predileta do Eterno Pai, filha do Altíssimo, filha do rei David, filha primeira de Eva, guia nas viagens, íris de paz e de reconciliação, luz dos errantes, luz nas trevas, mãe, mãe amorosa, mãe bondosa, mãe bondosa de misericórdia, mãe dolorosa, mãe minha, mãe nossa, mãe venturosa, mãe divina de Deus de Cristo, mãe nossa junto do Coração de Jesus, mãe dos africanos, mãe dos apóstolos, mãe mais amorosa de todas as mães, mãe do bom conselho, mãe da consolação, mãe e rainha da Nigrícia, mãe do vicariato da África Central, mãe piíssima, Maria omnipotente, mestra nossa nas dúvidas, milagre da omnipotência divina, morada inefável do Eterno Divino Espírito, mulher sem mancha, Nossa Senhora do Sagrado Coração, omnipotência suplicável, perpétuo panegírico de todos os séculos, porto dos em perigo, prodígio da graça de Deus, rainha da África, rainha dos anjos, rainha dos apóstolos, rainha dos céus, rainha dos céus e da terra, rainha e mãe dos pobres negros, rainha piedosa da Nigrícia, rainha do Sagrado Coração, reconciliadora dos pecadores, refúgio dos pecadores, refúgio dos pobres, regeneradora do género humano, saúde e fortaleza nas enfermidades, sede da sabedoria, Senhora do Sagrado Coração de Jesus, soberana augusta do Coração de Jesus, sol no meio das trevas, tudo para nós depois de Jesus, virgem bendita, virgem que antes de todas levantastes o estandarte da virgindade, virgem do perdão e da salvação, virgem da reconciliação, virgem divina, virgem imaculada, vitoriosa e Imaculada Mãe de Deus.



2. A pérola negra no diadema da Mãe de Deus
Comboni tinha um sonho: que a Nigrícia do seu coração brilhasse como pérola negra no diadema na cabeça da Imaculada: «Que no diadema ornado de celestiais gemas que cingem a augusta cabeça da Vitoriosa e Imaculada Mãe de Deus, resplandeça o povo dos negros, já conquistado para Cristo, como uma pérola morena», escreve Comboni na petição em favor dos negros da África Central apresentada a 24 de junho de 1870 aos padres do Concílio Vaticano I (E 2314).

Um dos grandes problemas que afligia o coração de pai e pastor de Daniel Comboni era a escravatura. Ele trabalhou incansavelmente com as autoridades civis para abolir tal flagelo. E contava com a intercessão da Virgem Santa Maria nessa cruzada humanitária: «Só a fé de Cristo implantada no centro da África e os Sagrados Corações de Jesus, de Maria Imaculada e de S. José, mais que a rainha da Inglaterra e o Tratado de Paris de 1856, abolirão a escravidão» (E 3250), escreve com fé Comboni de El Obeid, no Sudão, a um padre trentino a 24 de julho de 1873.

Hoje as escravidões são outras mas os Corações de Jesus e de Maria e São José continuam com a mesma força. Temos que lhes recordar os povos sofredores do Sudão do Sul, dos Montes Nubas – gente amada por Comboni, da República Democrática do Congo, da República Centro-Africana, da Síria, do Iraque, do Iémen, do Egito e de tantos outros países. Somos um povo sacerdotal, gente que faz a ponte entre Deus e os seus filhos e filhas, através da oração de intercessão ao jeito de São Daniel Comboni.

Todos enfrentamos dificuldades, problemas, desalentos, medos… A vida também é feita disso! Mas Comboni sabia onde estava a sua força: «As cruzes são inevitáveis; inimigos suscitados pelo dragão do abismo havê-los-á sempre; teremos que sofrer muito. Mas Deus, a sua graça e a Virgem Imaculada serão suficientes contra tudo e estarão sempre connosco» (E 1472).

Comboni tinha uma confiança imensa na Mãe do Céu. O ato de consagração a Nossa Senhora do Sagrado Coração que depois vamos rezar é prova disso. Ele consagrou o seu Vicariato a 14 de Setembro de 1873 ao Coração de Jesus.

«Recordais que as esperanças que então concebemos de que se nos depararia uma nova era de graça e de bênçãos e de que para nós e para os mais de cem milhões de infiéis do nosso laborioso vicariato se abririam os tesouros da piedade e misericórdia deste adorabilíssimo Coração», escreveu na carta circular a anunciar a consagração do Vicariato à Senhora do Sagrado Coração (E 3990). Porque «Maria abre esse Coração e nada o pode fechar; fecha-o e ninguém o pode abrir» (E 3992). Esta era a sua confiança de filho. Ele chama-lhe «chave mística do Coração adorável de Jesus» e pergunta «Se Nossa Senhora é a chave mística do Coração de Jesus, não quererá ela dar acesso aos infinitos tesouros desse Coração adorável a estas almas abandonadas dos descendentes de Cam?» (E 3996).

Outra oração linda de Comboni é esta prece que inseriu na Homilia de Cartum de 11 de maio de 1873 onde muitas missionárias e missionários continuam a beber inspiração. Ele chama a Nossa Senhora piedosa rainha da Nigrícia, Mãe amorosa do seu vicariato, protetora, guardiã e guia, Mãe de Deus, apressadora da hora da África, aplanadora de obstáculos, preparadora dos corações e promotora de vocações.

Também hoje lhe rezamos com as mesmas palavras de há 143 anos: «E agora é a vós a quem me dirijo, ó piedosa Rainha da Nigrícia, e, aclamando-vos como Mãe amorosa deste vicariato apostólico da África Central entregue aos meus cuidados, atrevo-me a suplicar-vos que nos recebais solenemente sob a Vossa proteção a mim e a todos os meus filhos, para que nos guardeis do mal e nos dirijais para o bem. Ó Maria, Mãe de Deus, o grande povo dos negros dorme ainda na sua maior parte nas trevas e sombras da morte: apressai a hora da sua salvação, aplanai os obstáculos, dispersai os inimigos, preparai os corações e enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas» (E 3162-3163).

Comboni sabe que a Mãe do Céu caminha connosco, é a mãe sempre presente.



3. Oração vocacional

Nesta oração de Comboni o que mais me tocou foi a dimensão vocacional da intercessão de Maria: «enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas».

A oração de Comboni é hoje a oração da família comboniana. Temos todos que implorar ao Senhor da seara que envie operários para a grande colheita da salvação.

«Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. Disse, então, aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe”» (Mateus 9, 35-38).

Este ano é um ano comboniano. Celebramos os 150 anos da fundação do Instituto comboniano. Daniel Comboni iniciou a 1 de junho de 1867 o Instituto para as missões da Nigrícia. A 30 de abril recordámos os 70 anos da chegada dos combonianos a Portugal. As celebrações jubilares fazem-se em tempos de míngua vocacional. A média de idades dos combonianos em Portugal é de mais de 66 anos.

Rezar pelas vocações é rezar para que a preocupação de São Daniel Comboni de salvar a África com a África continue. Mas a queda no número de vocações não nos deve desanimar. Comboni repetia que os seus institutos, o seu trabalho são obra de Deus. Deus é quem manda! Nós participamos como família comboniana na missão de Deus.

Por outro lado, Comboni chama ao seu instituto três vezes cenáculo de apóstolos (E 2622, 2648, 4088). Nas Regras de 1871 escreve: «Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio. E estes raios, que juntos resplandecem e aquecem, revelam necessariamente a natureza do centro de onde procedem» (E 2648).

Dois elementos sobressaem nesta definição: O Instituto é um pequeno cenáculo de apóstolos para a África (e agora para a Ásia e as Américas). A sua função? Ser um ponto luminoso apontado ao coração da África e do mundo enviando missionários virtuosos que juntos resplandecem e aquecem – sem perder a sua identidade mas iluminando juntos como as lâmpadas LED.

Por isso, ao celebrarmos a memória de Nossa Senhora do Sagrado Coração queremos rezar ao Senhor da seara e da colheita: «Enviai sempre novos apóstolos a estas remotas regiões tão infelizes e necessitadas».

Amém.

8 de maio de 2017

Fátima: NUTRIR A CONVERSÃO MISSIONÁRIA


Os bispos portugueses escreveram na Carta Pastoral no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima que «em sintonia com a piedade do nosso povo e sob a iluminação do Espírito Santo, nós, os bispos, sentimos a responsabilidade de aprofundar o significado deste acontecimento, de destacar a sua atualidade para a nossa vida cristã e de explicitar as suas potencialidades para nutrir a nossa conversão espiritual, pastoral e missionária» (nº 2).


1. O ACONTECIMENTO DE FÁTIMA

As aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos foram preparadas com três aparições do Anjo de Portugal e da Paz em 1916: na primavera na Loca do Cabeço; no verão junto ao Poço do Arneiro numa propriedade dos pais da Lúcia e em outubro de novo na Loca do Cabeço.

Lúcia recorda que o anjo lhes disse na segunda aparição: «Orai, orai muito. Os corações santíssimos de Jesus e de Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia».

O anjo ensinou-lhes duas as orações: «Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam» e «Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.»

Na última aparição também lhes deu a comunhão.

Nossa Senhora apareceu pela primeira vez a Lúcia (10 anos) e aos manos Francisco (9 anos) e Jacinta (7 anos) a 13 de maio e pediu-lhe que viessem àquele lugar e àquela hora cada dia 13 durante seis meses.

As aparições de Fátima redimiram o número 13: para muitos é o número do azar; agora é número santo, o número da Senhora de Fátima. A Mãe apareceu-lhes a 13 de maio, junho, julho, setembro e outubro. A 13 de agosto as autoridades prenderam os pastorinhos e a Senhora apareceu-lhes nos Valinhos a 19 de agosto.

As aparições deram-se num contexto dramático: em Portugal vivia-se a crise política, religiosa e social profunda da primeira república (1910-1926). A Europa vivia os horrores da primeira grande guerra (1914-1918) com o uso de armas químicas e matanças de soldados em massa. Por isso, a mensagem de Fátima é uma mensagem de misericórdia e de paz.

A última aparição, a 13 de outubro, foi presenciada por cerca de 70 mil pessoas que viram o milagre do sol. Termina com a visão da Sagrada Família a abençoar o mundo.

Através das aparições de Nossa Senhora, Deus faz-se proximidade misericordiosa que quer que todos de salvem num ambiente de angústia e incerteza, do mal e do pecado através do convite à conversão, oração e penitência.

«Fátima impôs-se à Igreja», disse o cardeal Manuel Cerejeira, patriarca de Lisboa.

A primeira capelinha foi construída na Cova da Iria em 1919. Foi dinamitada a 6 de março de 1922 e reconstruída e consagrada a 13 de janeiro de 1923.

Entretanto, Francisco faleceu em 1919 e Jacinta em 1920, ambos vítimas da gripe espanhola. Lúcia iniciou a formação no Instituto das Doroteias em 1921. Testemunhou mais três aparições em Tuy e Pontevedra (Espanha) em 1925, 1926 e 1929. Na última, em Tuy viu escrito ao lado do crucificado as palavras Graça e Misericórdia.

A 13 de outubro de 1930, 13 anos depois da última aparição, o bispo D. José Alves Correia da Silva de Leiria declara as aparições aos pastorinhos dignas de crédito e autoriza o culto de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

A primeira peregrinação nacional deu-se a 13 de maio de 1931: Portugal foi consagrado ao Coração de Maria. A 31 de outubro de 1942, Pio XII consagrou-lhe o mundo.

A basílica da Senhora do Rosário foi consagrada a 7 de outubro de 1953.

A 13 de maio de 1967 Paulo VI visita Fátima no âmbito dos 50 anos das aparições. João Paulo II esteve três vezes em Fátima 12 e 13 de maio de 1982 (um ano após o atentado em São Pedro), 12 e 13 de maio de 1991 (depois da queda do muro de Berlim) e 12-13 de maio de 2000 para beatificar Francisco e Jacinta. Bento XVI esteve em Fátima em maio de 2010. O Papa Francisco está entre nós a 12 e 13 de maio para marcar o centenário e canonizar os dois pastorinhos.



2. DOM E CONVITE DA MENSAGEM


A mensagem do acontecimento de Fátima «é essencialmente um dom inefável de graça, misericórdia, esperança e paz, que nos chama ao acolhimento e ao compromisso. Esta interpelação à Igreja a que responda ao dom misericordioso de Deus está profundamente vinculada aos dramas e tragédias da história do século XX, mas conserva ainda a mesma força e exigência para os crentes do nosso tempo», recordam os bispos portugueses (nº 2), uma espiritualidade militante que nutre «a conversão espiritual, pastoral, missionária» (nº 3).

O nosso coração é grande campo de batalha entre o bem e o mal. Jesus desafia-nos a uma «guerra santa» contra o mal que tende a tomar conta de nós. Vivemos numa cultura que inflaciona o «eu», marcada pelo individualismo globalizado, pelo narcisismo e a autorreferencialidade. Vivemos literalmente dobrados sobre o nosso umbigo.

A Senhora convida-nos à oração (recentrar-nos em Deus), conversão (mudar da mente para o coração, deixar de fazer o mal para fazer o bem) e ao sacrifico (um ato de solidariedade).

Os bispos portugueses recordam que o Coração Imaculado de Maria revela o coração misericordioso da Trindade: «na Virgem Maria, no seu coração materno, transparece a vontade misericordiosa de um Deus Trindade que não é indiferente à situação das suas criaturas, que não abandona o pecador na sua culpa, que não esquece os desgraçados no seu sofrimento, que não ignora as vítimas e os excluídos, que sempre oferece o seu perdão e a sua consolação, que abre sempre a porta da esperança, quando os seres humanos se fecham no seu egoísmo ou na sua inconsciência.» (nº 10).

O Papa João Paulo II referiu que Fátima é um dos sinais dos tempos: um falar de Deus que o revela como pai clemente e compassivo.

Por outro lado, o Papa Bento disse que Fátima é a mais profética das aparições modernas.

É necessário notar que com o afastamento de Deus da vida pública sucederam-se os regimes mais mortíferos: o nazismo, o comunismo e a globalização financeira que fizeram e fazem milhões de vítimas.

O apelo à conversão e à penitência podem ser entendidos hoje como um convite a uma vida mais sóbria, menos consumista para protegermos os mais fracos e o meio ambiente. Fátima convida-nos a regressar à palavra que abre o anúncio de Jesus: CONVERTEI-VOS (Marcos 1, 15) passando da nossa cabeça ao coração de Deus através do bem-fazer.

Fátima convida-nos a colaborar com os desígnios de misericórdia. «Quereis oferecer-vos a Deus?», perguntou Maria aos pastorinhos a 13 de maio. Esta oferta a Deus em ato de reparação desafia-nos a passar de uma perspetiva mais intimista e julgadora a um compromisso com os mais pobres.

«A urgência das necessidades dos outros reclamava a penitência, o sacrifício e a reparação. O sacrifício do cristão só pode ser vivido a partir da oração e como oração», sublinham os bispos no nº 12.

É interessante notar a ligação entre o sacrifício e a oração, o sacrifico como oração, como mergulhar no mistério de Deus que está totalmente separado de si para nos acolher a todos.

Não posso rezar sem ter presente o outro – o mais necessitado – na minha oração. Recordamos que um paralítico foi curado por Jesus porque os seus amigos o levaram e tiveram o trabalho de escavar o teto da casa onde estava Jesus para descerem o amigo (Marcos 2, 1-12).

Lúcia dizia que os pastorinhos não podiam ir para o Céu felizes sozinhos. Por isso os bispos escrevem: «Neste caminho de purificação pessoal para a solidariedade está presente uma espiritualidade que aprofunda as suas raízes no núcleo do mistério cristão. Esta espiritualidade educa-se e concretiza-se em práticas que alimentam a atitude teologal e a identificação com Cristo: na Eucaristia, em que Cristo se faz sacramentalmente presente, e na oração do Rosário, em que Ele se faz narrativamente presente na meditação dos seus mistérios» (nº 12).



3. FUTURO DE FÁTIMA

Fátima é uma mensagem mística e profética que clama conversão e compromisso num mundo marcado pelo conflito e pelo confronto. A espiritualidade da religiosidade popular que carateriza Fátima é caminho para Deus que não é inimigo mas fonte de esperança e humanização.

Vimos a Fátima em peregrinação. «Peregrinar, caminhar juntos, leva-nos a sair de nós próprios e a abrirmo-nos aos outros, escutando-os e partilhando a própria existência, com o espírito missionário e sinodal que se espera hoje da Igreja» escrevem os bispos (nº 13).

Maria não fica indiferente ao nosso peregrinar. «A Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe, sai ao encontro dos seus filhos peregrinos a partir da glória da ressurreição de seu filho Jesus, para lhes oferecer consolação, estímulo e alento», notam os bispos (nº 3).

Por outro lado, Maria é o caminho até Jesus, não o fim da nossa devoção. Há uma dimensão cristológica muito forte em Fátima. Foi Francisco que o expressou: «Do que mais gostei foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que a Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus» (nº 9).

O verdadeiro milagre de Fátima é que nos sentimos bem nesta «casa maternal» como lhe chamou o Papa Bento onde nos sentimos «acolhidos, compreendidos, consolados, perdoados, reconfortados e renovados. O Santuário de Fátima converteu-se no coração espiritual de Portugal» (nº 4).

Fátima impõe-nos uma tarefa: não cairmos na indiferença diante de tanto sofrimento que nos chega a casa disfarçados como «espetáculo» através das televisões sensacionalistas e que nos cansa.

«O meu Coração Imaculado triunfará» – prometeu a Senhora aos três pequenos. O amor no fim triunfará, diz a cada um de nós.

Não viemos sozinhos a Fátima. Trazemos no coração e nas preocupações tanta gente, tanto sofrimento, tanta esperança, tantas intenções para entregar à Mãe de Deus. Fazemo-lo juntos, porque a Senhora mais branca que o sol que em Fátima apareceu aos pastorinhos é nossa Mãe, é Mãe de todos.

A Senhora de Fátima é modelo para a Igreja, porque segue Jesus até à cruz «atenta às necessidades dos próximos, aos clamores dos distantes» (Nº 14). Confiamos à Mãe de misericórdia as intenções que trazemos connosco e pedimos-lhe pelos povos sofredores do Sudão do Sul, da República Democrática do Congo, da República Centro-africana, da Etiópia, do Iémen, da Somália, do Darfur, dos Montes Nubas. Confiamos-lhe os cristãos perseguidos na Síria, na Líbia, no Egito, na Nigéria…

Maria é modelo do cristão convidado à conversão, isto é: erradicar do coração a tentação do domínio (nº 14), anúncio de misericórdia e de paz desde a aparição do anjo.

«Fiéis ao carisma de Fátima, somos chamados a acolher o convite à promoção e defesa da paz entre os povos, denunciando e opondo-nos aos mecanismos perversos que enfrentam raças e nações: a arrogância racionalista e individualista, o egoísmo indiferente e subjetivista, a economia sem moral ou a política sem compaixão. Fátima ergue-se como palavra profética de denúncia do mal e compromisso com o bem, na promoção da justiça e da paz, na valorização e respeito pela dignidade de cada ser humano», escrevem os bispos portugueses na sua Carta Pastoral (nº 15).