23 de setembro de 2017

LATINICES


O Papa Francisco, na peregrinação centenária a 12 e 13 de maio, fez um gesto profético que – parece – passou ao lado dos liturgistas do Santuário de Fátima: celebrou a missa integralmente em português com aquele sotaque latino-americano gostoso.

O Papa quebrou o «protocolo litúrgico» em uso no Santuário que impõe que algumas saudações da missa e a própria consagração sejam feitas em latim.

Pensei que quem de direito tivesse tomado nota do gesto papal.

Enganei-me: o latim continua a ser usado na Eucaristia.

Por volta do santo os acólitos distribuem umas folhinhas brancas com letra e música de algumas partes da oração eucarística em latim…

Talvez por um saudosismo mal resolvido, um revivalismo anacrónico, a ânsia de uma linguagem mistérica... 

Tudo menos liturgia, porque a liturgia literalmente é a energia do/no povo!

Não percebo o alcance da opção.

Se é para chegar a mais gente – já que Fátima é um santuário internacional – então é uma falácia: o latim é uma língua morta e poucos a aprendem e menos ainda a usam…

A consagração em português seria entendida e seguida pela grande maioria dos peregrinos… Em latim nem todos os padres a seguem!

O Papa tem um amor enorme pela liturgia nas línguas vernaculares.

Recentemente publicou um motu próprio a dar mais controlo às conferências episcopais sobre a revisão dos textos litúrgicos em curso.

Antes eram os especialistas que «impunham» a tradução oficial.

A revisão do missal em inglês foi muito traumática: os revisores encartados impuseram uma linguagem litúrgica que tem pouco a ver com o inglês corrente.

A oração comum em Fátima é linda porque é feita em línguas vivas: dá um sentido de universalidade à liturgia e ao lugar.

O latim? Destoa!

18 de setembro de 2017

ANA TABAN, ESTOU CANSADO


Colectivo sul-sudanês usa as artes para promover paz e liberdade de expressão.

Há cerca de um ano, um grupo de artistas do Sudão do Sul juntou-se para criar uma plataforma activista pela paz na sequência dos combates de Julho de 2016 em Juba que fizeram um número indeterminado de mortos. Decidiram chamar-se Ana Taban («Estou Cansado», em árabe).

Músicos, actores, comediantes, guionistas, criadores de moda, artistas plásticos formaram o Ana Taban para terem uma influência positiva na nação em guerra consigo própria desde Dezembro de 2013.

Estão cansados da guerra e do sofrimento; de verem de braços cruzados o país a arder; de viverem num país rico em recursos naturais com uma economia em colapso; de formarem uma diversidade cultural linda destruída pelo tribalismo; de verem um povo faminto numa terra fértil; de serem usados para se matarem uns aos outros para benefício de alguns.

Ana Taban propõe-se promover os valores da paz, coragem, integridade, cidadania, não-violência e não-alinhamento político através de acções concretas no país e nos campos de refugiados que albergam um milhão de sul-sudaneses nos países vizinhos.

Os jovens activistas escrevem no seu manifesto que «querem ser uma plataforma para a juventude do Sudão do Sul contribuir com as próprias ideias em matérias importantes que afectam a nação». Fazem-no através de concertos, arte urbana, murais, dramas, vídeos, canções, Internet…

Querem também encorajar a juventude «a participar activamente em temas importantes a respeito da nação e recusar serem usados como instrumentos de guerra e destruição».

Finalmente, pretendem «empoderar a juventude do Sudão do Sul, equipando os jovens com talentos para serem poderosos influenciadores da paz através do poder da sua arte e dos dons que Deus lhes deu».

Um programa vasto que pretende virar o sentido da história no Sudão do Sul. O país mais jovem do mundo tem vivido num caldo de violência e guerra desde o século XIX, quando turcos e árabes atacavam as comunidades sulistas ao longo do Nilo Branco para fazerem escravos. Entre 1955 e 2017, passou quarenta e três anos a lutar contra o Governo arabizante do Norte e contra si próprio e menos de duas décadas em paz.

«O sofrimento continua a cobrir o nosso amado país com o sangue, as lágrimas e a fome dos inocentes. Até quando?», pergunta o colectivo na sua página no Twitter.

Jacob Bul Bior, actor e porta-voz do colectivo, explicou-me numa mensagem electrónica que o impacto maior de Ana Taban está no alargamento do espaço cívico para os jovens se expressarem. «Havia tanto medo no ano passado e agora vemos melhorias; temos mais e mais jovens a participarem nos nossos eventos e a falarem livremente sobre aquilo que é importante para eles. Com os limites à liberdade de expressão e de informação no país, sentimos que isto é importante e levou a uma mudança maior», escreveu.

É o que auguro: os Sul-Sudaneses precisam de paz e de reconciliação para se erguerem das cinzas da guerra fratricida e construírem a nação vibrante com que sonharam a 9 de Julho de 2011 quando celebraram a independência com tanta esperança.

17 de setembro de 2017

MISSÃO DO CORAÇÃO AO CORAÇÃO


As Jornadas Missionárias 2017 decorreram em Fátima a 16 e 17 de setembro sob o tema inspirador «Missão do coração ao coração» no âmbito do jubileu centenário de Fátima.

D. Manuel Linda, presidente da comissão episcopal Missão e Nova Evangelização, abriu as jornadas dizendo que é no coração, fonte do pensar e do querer, que se abraçam as grandes opções de vida.

A Doutora Isabel Varanda reflectiu sobre o tema «Sim… Faça-se… – Aceitação da missão. Acreditar no impossível».

«Ser missionário é não ser autorreferencial», sublinhou a teóloga da UCP- Braga.

Dom António Couto tratou o tema mariano «Feliz porque acreditaste… – Participação do missionário no mistério de Cristo».

«O missionário verdadeiro tem que ter o sabor de Deus, tem que estar ao dispor de Deus» ao jeito de Maria, disse o biblista, Bispo de Lamego. E recordou: «Meia hora de leitura diária da Bíblia dá uma indulgência plenária e é a grande porta santa que nos abre à vida.»

O padre Adelino Ascenso, Superior Geral dos Missionários da Boa Nova, partilhou uma reflexão sobre o tema «A minha alma engrandece o Senhor… – Da experiência de Deus às experiências dos missionários».

«Só a partir da experiência de Deus é que estamos aptos a narrar Deus», sublinhou o presidente dos IMAG, os institutos missionários ad gentes.

A Doutora Margarida Cordo trabalhou o tema «Apareceu no céu um grande sinal… – Missão como promessa e realidade.»

«Ninguém é missionário por narcisismo, pois já se desprendeu do que nos torna adictos ao individualismo, reforçados pelas exigências e desafios da realidade», a psicoterapeuta salientou.

Os cerca de 250 participantes dividiram-se em quatro grupos para reflectirem sobre quatro questões concretas.

Sublinharam a necessidade de um amor missionário, mais colaboração entre os agentes de evangelização, proximidade para acolher, escutar, ir ao encontro dos mais fragilizados, ter tempo para os outros e para Deus, simplificar a linguagem para chegar às periferias, cuidar da casa comum e das pessoas, porque o cuidado leva à justiça e à paz.

O Doutor André Costa Jorge reflectiu sobre o tema candente «Exaltou os humildes… – Missão como denúncia e acolhimento. Tráfico humano e refugiados.»

«Nós existimos todos porque fomos acolhidos. Se fomos acolhidos porque não acolher? Quem acolhe, ganha. Todos os povos que acolheram imigrantes, tornaram-se mais felizes e mais ricos. Acolher o estrangeiro, traz-nos felicidade, não nos traz pobreza», disse o responsável do JRS - Portugal, o Serviço Jesuíta aos Refugiados.

Frei João Lourenço encerrou as Jornadas com o tema «Magnificat – Cântico missionário para hoje.»

«Como Maria, ser missionário é colocar-se à disponibilidade de Deus, deixar-se acolher por Ele para que possamos ser instrumentos daquele acolhimento que abre os corações à ação do Espírito», salientou o biblista franciscano.

As Jornadas Missionárias 2017 foram integradas na peregrinação nacional das Obras Missionárias Pontifícias a Fátima no jubileu centenário.

11 de setembro de 2017

BEM-HAJA, D. ANTÓNIO


Conheci-o na minha infância: foi coadjutor em Cinfães nos dois anos a seguir à sua ordenação a 8 de dezembro 1972. Éramos vizinhos. Ficámos amigos. 

Aprendi a apreciar a sua simplicidade, o seu sorriso tranquilo, o seu conversar manso, a profundidade do seu pensamento, a arte de bem pregar um sermão…

Encontrámo-nos muitas vezes em Cinfães, Lamego, Braga, Aveiro, Porto, Fátima… Conversas longas, tranquilas, sem a pressa do despachar… a querer saber de todos e de tudo, uma curiosidade amiga, uma amizade preocupada com as pessoas.

Entesouro as nossas conversas, a sua amizade, o seu testemunho de homem de Deus e homem da Igreja, construtor de pontes e de consensos, com uma paciência extremada…

Sempre me senti bem recebido pelo Dr. António – como lhe chamávamos em Cinfães.

Aprendi muito com o senhor e do senhor!

Homem dedicado até ao limite!

Numa das visitas que lhe fiz no Porto, encontrei-o cansado. Perguntei: – O Dom António não fez férias?

– Ó Zé, o meu pai nunca fez férias!, foi a sua resposta.

A sua amizade para com os combonianos era enorme. Tinha um coração comboniano: como o mostrou aos provinciais combonianos europeus em 2014; como falou aos participantes na Assembleia Europeia da Missão, na Eucaristia conclusiva a 13 de março, na Maia; como afirmou ao aceitar presidir à Peregrinação da Família Comboniana a Fátima, a 22 de julho.

A sua homilia da Peregrinação é um legado espiritual à Família Comboniana.

Esta manhã, a notícia do seu falecimento deixou-me pasmado: não queria acreditar que o Dom António tinha falecido de ataque cardíaco. Tão de repente, aos 69 anos.

No da 29 de agosto não lhe dei os parabéns, porque estava no Mosteiro do Couço em retiro e a cobertura da rede telemóvel é muito fraca… Queria mandar-lhe um email, mas fui adiando…

Está no abraço terno e eterno do Pai das misericórdias, junto à sua querida mãe que tanto amava.

Está em paz no descanso de Deus!

Interceda por nós.

Obrigado pela sua amizade, pelo seu carinho.

Tenho saudades suas.

31 de agosto de 2017

AVÉ MARIA


A ave-maria é a oração cristã mais usada no mundo católico, que rezamos muito frequentemente. Tem duas partes: uma saudação e uma rogação. O processo de incubação da ave-maria foi longo: levou cerca de mil anos; começou no século V e ficou pronta no século XV.


A FORMAÇÃO

A ave-maria começou com a junção das saudações do anjo Gabriel e de Isabel a Nossa Senhora, respetivamente os versículos 28 e 42 do capítulo 1 de São Lucas. Esta junção efetuou-se antes de 446: aparece na homilia de um autor que morreu nessa data.

Os irmãos ortodoxos tomaram a dianteira: a junção aparece nas liturgias orientais de Antioquia e Alexandria entre os séculos IV e V. No século VI chegou à liturgia romana: São Gregório Magno usou-a no Sacramentário Gregoriano, o livro litúrgico por ele publicado.

Depois juntaram os nomes de Maria e Jesus às duas saudações e às vezes também Cristo.

A segunda parte da ave-maria é rogativa, uma oração de súplica. Foi usada na oração da noite para pedir a proteção da Mãe da graça e da misericórdia desde o século XIII.

Os ortodoxos já tinham ajuntado o «rogai por nós pecadores, amém» em Alexandria no ano de 647.

A ave-maria como a temos hoje aparece em 1508 quando os franciscanos juntaram «agora e na hora da nossa morte».

Em 1568 o Papa Pio V promulgou o novo Breviário Romano que saiu do Concílio de Trento e incluiu a ave-maria completa para iniciar a oração do ofício divino.


AS PALAVRAS

Avé: o anjo Gabriel saúda a Virgem de Nazaré, dizendo «Salve» na tradução da Bíblia dos Capuchinhos. O texto grego usa Xairé, que vem de verbo alegrar-se. «Alegra-te» seria uma tradução mais literal.

É difícil traduzir esta saudação: em alemão dizem «Saudada sejas»; em francês «Eu vos saúdo»; em espanhol «Deus te salve»; em inglês «Salvé», em árabe «Paz contigo»…

Eu prefiro «Alegra-te» porque a alegria é a melodia de fundo de toda a bíblia e da experiência de Deus: um santo triste é um triste santo, diz o povo.

A alegria faz bem à saúde: «O coração alegre é, para o corpo, remédio salutar», recorda o Livro dos Provérbios (17,22).

Estamos habituados a rezar a vida como um vale de lágrimas. Mas o salmista recorda-nos que «Aqueles que semeiam com lágrimas, vão recolher com alegria» (Salmo 126,5). E Jesus sublinha-o: «Vós haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza há de converter-se em alegria!» (João 16,20).

Diz Neemias: «A alegria do Senhor é a vossa força» (Neemias 8,10).

E o autor do Eclesiastes aconselha a alegria: «Vai, come o teu pão com alegria e bebe com prazer o teu vinho, porque a Deus agradam as tuas obras» (Eclesiastes 9,7).

Uma alegria que é cósmica: «Alegrem-se os céus, exulte a terra! Ressoe o mar e tudo o que nele existe! Alegrem-se os campos e todos os seus frutos, exultem de alegria todas as árvores dos bosques na presença do SENHOR, que se aproxima e vem para governar a terra! Ele governará o mundo com justiça e os povos, com a sua fidelidade», como proclama o Salmo 96 (vv. 11-13).

Uma alegria que vem de Deus: «É que o Reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo», escreve Paulo aos cristãos de Roma (Romanos 14,17).

Uma alegria que é uma maneira de rezar: «Todas as vezes que me lembro de vós, dou graças ao meu Deus, sempre, em toda a minha oração por todos vós. É uma oração que faço com alegria» (Filipenses 1,3-4).

Uma alegria que é o mandamento do missionário: «Alegrai-vos sempre no Senhor! De novo o digo: alegrai-vos!» escreveu Paulo aos Filipenses (4, 4).

A saudação do anjo a Maria é a saudação a cada um de nós: alegra-te!

Maria: São Jerónimo escreveu que Maria quer dizer Estrela do mar. Mas em hebraico também pode significar menina desejada, rebelião e mar de amargura.

Cheia de graça: é o novo nome que Gabriel chama a Maria de Nazaré. Ela é a agraciada do Senhor. «Cheia de graça», num sentido mais literal da expressão, pode também assumir-se como sinónimo de «plena de Deus» (cheia = plena; Graça = Deus)

É interessante notar que graça e alegria em grego partilham a mesma raiz. Maria é convidada à alegria porque está cheia do amor de amado (outra maneira de traduzir cheia de graça).

Os autores protestantes preferem traduzir por «a mais favorecida».

Na Encíclica Redemtoris mater, São João Paulo II escreve: «Quando lemos que o mensageiro diz a Maria «cheia de graça», o contexto evangélico, no qual confluem revelações e promessas antigas, permite-nos entender que aqui se trata de uma «bênção» singular entre todas as «bênçãos espirituais em Cristo». No mistério de Cristo, Maria está presente já «antes da criação do mundo», como aquela a quem o Pai «escolheu» para Mãe do seu Filho na Incarnação ― e, conjuntamente ao Pai, escolheu-a também o Filho, confiando-a eternamente ao Espírito de santidade. Maria está unida a Cristo, de um modo absolutamente especial e excecional; e é amada neste «Filho muito amado» desde toda a eternidade, neste Filho consubstancial ao Pai, no qual se concentra toda «a magnificência da graça». Ao mesmo tempo, porém, ela é e permanece perfeitamente aberta para este «dom do Alto» (cf. Tiago 1,17) Como ensina o Concílio, Maria «é a primeira entre os humildes e os pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem d'Ele a salvação» (RM 8).

A palavra graça está relacionada com oferta livre. O bispo D. António Couto de Lamego propõe outra leitura: a graça é o modo materno de Deus nos olhar enquanto nos embala nos seus braços. Graça é colinho de Deus! Todos gostamos de colinho, todos queremos o colinho de Deus, a sua graça.

O Senhor está contigo: Maria é convidada à alegria e chamada cheia de graça porque o SENHOR está com ela. Não se encontra só!

A saudação de Gabriel recorda a profecia glorificadora de Sofonias sobre Jerusalém: «O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovará. Ele dança e grita de alegria por tua causa» (Sofonias 3,17).

O Senhor é a fonte da graça e da alegria. O SENHOR é o nosso espaço vital. «É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos», anuncia Paulo aos cidadãos de Atenas (Actos 17,28). O salmo 139 canta esta presença envolvente de Deus.

Santo Agostinho diz: «Fizeste nos Senhor para vós, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em vós.»

Através do mistério da Encarnação o SENHOR passa a chamar-se Emanuel, Deus-connosco – recordou o anjo do Senhor a José ao anunciar-lhe o nascimento de Jesus (Mateus 1,23). A Palavra de Deus, o Verbo é companheiro, caminhante, que monta a sua tenta entre nós através do mistério da encarnação (João 1,14 diz literalmente que «O Verbo fez-se carne e acampou – montou a sua tenda – entre nós).

Bendita és tu entre as mulheres: da saudação do anjo passamos à saudação de Isabel que distingue Maria entre todas as mulheres. Porquê? Isabel felicita Maria: «Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor» (Lucas 1,25).

Podia ser por ser a mão do Senhor: de entre todas as mulheres que nasceram e haviam de nascer Maria foi a eleita para ser Mãe de Deus. Mas Isabel diz que a felicidade maior de Maria, a sua bem-aventurança, é ter acreditado na força da Palavra de Deus. Jesus disse «Felizes os que ouvem a Palavra do Senhor e a põem em prática» (Lucas 11,28). Maria é Mãe bem-aventurada não apenas por ter concebido e dado à luz Jesus, mas na medida em que ouve a Palavra de Deus e a põe em prática (cf. Mateus 12,49-50).

Ter fé é isso mesmo: acreditar que a Palavra do Senhor se vai cumprir, que a Palavra tem em si a força da vida. Que o Senhor tem a última palavra e é uma palavra de vida, de vitória.

Bendito o fruto do teu ventre: Isabel diz bem de Maria e diz bem do fruto do seu ventre, Jesus (cujo nome quer dizer Deus salva). O fruto que Eva partilhou com Adão trouxe o pecado, a descoberta da nudez, as dificuldades da vida, a morte. O fruto da semente plantada pela sombra do Espírito Santo no seio de Maria é bendito, porque é vida e vida em plenitude para todos (João 10,10). O mistério da salvação começa na encarnação. Maria inverte o sentido do pecado: se por «Eva» chega a morte, por aquela que é «Avé» (alegre/agraciada) chega a Vida verdadeira.

Jesus: o seu nome em hebraico é a sua missão - Deus salva!

Santa Maria: Deus disse a Moisés: «Sede santos, porque Eu, o SENHOR, sou santo» (Levítico 19,2). Por seu turno, Isaías teve uma visão em que os serafins cantam o Deus três vezes santo cuja glória enche toda a terra como no-lo recorda Isaías (Isaías 6,3), enche cada um de nós.

Santo em hebraico significa separado. Deus é santo porque é separado. Separado de quem? De nós? Não, porque ele é Emanuel, Deus-connosco. Deus é separado dele próprio, não autocentrado, não vive para si. Deus é comunidade trinitária que transborda o seu amor e vem à nossa procura.

Pedro na primeira carta exorta: «Mas, assim como é santo aquele que vos chamou, sede santos, vós também, em todo o vosso proceder, conforme diz a Escritura: Sede santos, porque Eu sou santo» (1Pedro 1,15-16).

Maria é santa porque depois de obter resposta às suas legítimas questões diz: «Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lucas 1,38).

Ser santo na cultura do individualismo narcisista globalizado é colocar o OUTRO como o centro da nossa vida, é abraçar a mística do encontro como a saída para os problemas sociais, políticos e culturais que nos desafiam.

Mãe de Deus: este é o título mais lindo de Maria. Foi-lhe dado em 431 no Concílio ecuménico de Éfeso, uma reunião de teólogos para esclarecer a união da divindade e humanidade de Jesus. O cânone primeiro do referido concílio é claro: «Se alguém não confessa que Deus é segundo a verdade o Emanuel e que por isso a santa Virgem é mãe de Deus (pois deu à luz carnalmente o Verbo de Deus feito carne), seja anátema.»

O patriarca Nestório dizia que Maria era mãe de Cristo mas não era mãe de Deus porque em Cristo havia duas pessoas: a humana e a divina.

O que os padres de Éfeso fizeram foi reconhecer aquilo que Paulo escreveu aos cristãos da Galácia: «Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gálatas 4,4).

Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte: Maria é a mãe de Deus e é a nossa mãe. Por isso lhe dizemos: «Rogai por nós pecadores agora e na hora da nossa morte.»

Todos nós somos santos, todos nós somos pecadores. Esta é a ambiguidade da experiência cristã. Precisamos da graça e da misericórdia de Deus para nos cristificarmos, sermos como Cristo.

João recorda na primeira carta que «se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós» (1 João 1,8). Um santo que não reconhece o seu pecado, a sua fragilidade, não é santo: é soberbo.

Maria foi-nos dada como mãe no alto da Cruz. Jesus disse a João: «Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: “Mulher, eis o teu filho!” Depois, disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua» (João 19,26-27). Somos filhos e a mãe intercede por nós. Ela é mãe de misericórdia e volve o seu olhar misericordioso para interceder por nós junto do Pai e pedir a paz e o perdão agora e na hora da verdade: a hora da nossa morte.

Amém: terminamos a ave-maria como terminamos todas as orações – com um AMÉM! Palavra hebraica que quer dizer certamente, estou de acordo, em verdade, verdadeiramente, assim seja. Em linguagem popular: assino de cruz!

O amém é o nosso assentamento áquilo que os nossos lábios, a nossa mente e o nosso coração rezaram. É uma palavra que cristãos, judeus e muçulmanos partilham, rezam. Uma ponte para o diálogo inter-religioso, uma ponte para a paz.

Amém!

CURSO DE MISSIOLOGIA 2017


O Curso de Missiologia é uma iniciativa dos Institutos Missionários Ad Gentes (IMAG) com o apoio das Obras Missionárias Pontifícias em ordem à qualificação do missionário e, consequentemente, da Missão. Este ano, realizou-se entre 21 e 26 de agosto, nas instalações dos Missionários da Consolata, tal como tem sido hábito, e contou com 60 participantes, oriundos de nove países e quatro continentes.

O Curso iniciou com D. António Couto, Bispo de Lamego, que falou sobre o tema “A Missão no Evangelho de S. Mateus”, o evangelista do ano, aquele monumento do perdão, evangelho da Igreja. Mateus, cobrador de impostos, homem marginal, que Jesus escolhe e transforma em grande discípulo; Mateus, aquele cuja experiência explosiva do perdão e da transformação da sua vida o levou a querer que o mesmo perdão e a mesma vida abalassem toda a humanidade. Mateus, o homem renascido que organiza o seu evangelho em cinco discursos: discurso programático da montanha; discurso missionário; discurso das parábolas do Reino; discurso eclesial e discurso escatológico. Mateus, o evangelista que nos mostra o caminho que devemos trilhar: sem ouro nem prata, sem bastão nem sandálias, vendo a imagem de Deus naquele com quem nos cruzamos; sempre abertos à surpresa e com a sensibilidade apurada para que entendamos as parábolas do Reino, tais como a semente, o trigo e a cizânia, o grão de mostarda, o fermento, o tesouro escondido no campo, a pérola.

O segundo dia foi dedicado ao tema “Cristianismo e Globalização: Estado, Igreja e Missionação na Época Moderna e Contemporânea”, um tema vastíssimo que foi tratado magistralmente pelo Prof. Doutor José Eduardo Franco. O Cristianismo como motor de globalização, numa irradiação que iniciou no século XV. Foram realçadas algumas figuras incontornáveis, tais como o Padre António Vieira (1608-1697, Missionário do Ocidente), gigante que tivera como seu par, um século antes, Francisco Xavier (1506-1552, Missionário do Oriente). O sonho, tal como aquele do “Reino de Prestes João”, instigador de muitas expedições missionárias, o que nos mostra a importância da dimensão no imaginário para a nossa “saída” destemida ao encontro da “surpresa de Deus”. O Cristianismo que, com o movimento dos descobrimentos, passou de regional para universal, à semelhança do que tinha acontecido nos inícios da Igreja, embora em dimensões diferentes. Ficou-nos gravada na memória a necessidade do desenvolvimento de uma “metodologia da credibilidade” e do testemunho, não só na China e no Japão como também no mundo ocidental, não só no passado como também no presente.

Seguiu-se, na quarta-feira, a Doutora Teresa Messias, que nos falou da “Espiritualidade Missionária”: a respiração; o desejo de Deus de sair de Si e de Se nos doar. Não missões, mas sim a Missão: a Missão que é Cristo. Antes que nos apercebamos, acontece muita coisa com a existência de Cristo. Contínuo dom do Verbo. Jesus é, Ele próprio, a actividade missionária por excelência. Porque Jesus é, na sua natureza, a Missão. Assim, o apelo a que nos abramos à experiência de fé e à missão, a Ele, numa relação que é Pessoa. Amor dinâmico que é dom de si e recepção do outro. Espiritualidade da missão é uma espiritualidade da desinstalação, uma espiritualidade de movimento interior e exterior; um esvaziamento que gera vida. Esvaziar-se não pode ser conotado com perda, pois perder-se para dar vida é a verdadeira felicidade. Missão, que é Cristo, implica escuta, discernimento e um processo de inculturação. Não é a viagem que faz de nós missionários, mas sim a nossa atitude. A missão começa já, no lugar onde estamos, no mundo onde vivemos: em oração; em comunhão.

A quinta-feira foi dedicada ao tema de “Literatura e teologia: a ficção de Shūsaku Endō”, introduzido pelo Padre Adelino Ascenso. O escritor católico japonês, que viveu entre 1923 e 1996, foi um dos autores mais significativos do século XX, pertencendo a uma geração de escritores cristãos japoneses do pós-guerra. Baptizado aos 12 anos de idade, Endō lutou ao longo de toda a sua vida com questões relacionadas com a sua fé, nomeadamente com a forma de ser, simultaneamente, japonês e cristão. A sua obra literária adquire contornos universais em virtude da natureza profundamente antropológica dos temas teológicos tratados na sua obra de ficção. Após uma parte sistemática sobre os temas de literatura e fé, literatura e teologia, a natureza da narrativa e a tradição literária japonesa, foram apresentados alguns elementos da cultura japonesa: a harmonia, o escondimento, o silêncio e a “tripla insensibilidade” (Deus, pecado e morte), mundo em que o Cristianismo continua a ter uma presença pequena em número, embora a comunidade católica do Japão seja hoje muito respeitada pelos japoneses por causa do serviço que ela presta a todos, independentemente da religião, tal como refere o Papa Francisco. Temas teológicos, tais como o silêncio de Deus, o forte e o fraco, uma nova imagem de Cristo (débil, maternal e companheiro) e a apostasia, foram identificados e avaliados através da análise do romance Silêncio.

Sexta-feira foi o dia do “Diálogo inter-religioso” apresentado pelo Padre José Nunes, onde foi realçada a perspectiva actual da Igreja face às outras religiões, que é a da proposta de um fecundo diálogo, baseado no apreço e respeito por essas mesmas religiões. Qual o estatuto teológico das religiões não-cristãs? Qual o seu valor salvífico? Estas foram algumas das questões levantadas e às quais o docente procurou dar resposta, baseando-se no rico espólio de documentos do magistério sobre este assunto, recorrendo, igualmente, a autores domo Daniélou, Congar e Rahner, entre outros. O desenvolvimento do tema espraiou-se por diversas secções, desde as condições básicas para o diálogo e os seus vários níveis, desaguando na apreciação teológica das religiões não-cristãs. Na qualidade de uma das três perspectivas actuais da Igreja para a missão ad gentes – a par da libertação e da inculturação –, o diálogo inter-religioso é um tema que não poderá, de forma alguma, ser ignorado. De facto, todas as religiões têm elementos estruturantes comuns, tais como o âmbito do sagrado, o mistério, a atitude religiosa e as mediações.

A luz da exposição “As cores do sol: a luz de Fátima no mundo contemporâneo”, cuja visita guiada se realizou no sábado, iluminou toda esta semana do Curso de Missiologia.

Na missa de encerramento, presidida pelo Padre Adelino Ascenso, presidente dos IMAG, foram entregues os diplomas aos 18 cursistas que completaram o biénio de participação e todos foram enviados para os seus campos de trabalho e missão.

A evangelização começou, muitas vezes, a partir da imposição de uma imagem estereotipada de Cristo, procurando-se, então, adaptar as realidades culturais a tal sólida imagem. No entanto, o ponto de partida terá de assentar nos fundamentos da natureza humana. As energias terão de ser concentradas na área da pré-evangelização, preparando-se, deste modo, cuidadosamente, o terreno antes de colocar as sementes. Necessitamos de um novo paradigma da missão, o qual terá de passar pelo “ide e escutai”, “ide e aprendei”. É urgente que nos consciencializemos de que pouco teremos para ensinar: quando muito, seremos instrumentos através dos quais Cristo ensinará. A nossa atitude terá de ser aquela de quem vai ao encontro do diferente com o coração de portas abertas à escuta.
P. Adelino Ascenso
Presidente dos IMAG

24 de agosto de 2017

Ir. ALFREDO FIORINI: MÁRTIR COMBONIANO


Faz hoje 25 anos que o irmão missionário comboniano sucumbiu às balas assassinas numa emboscada no Muiravale, na estrada entre Nacala e Carapira, no norte de Moçambique.

Conheci-o no outono de 1990.

Veio para Lisboa para aprender português. 

Um homem, sereno, sorridente, sábio com coração de poeta.

Era médico.

Trocou uma carreira promissora na marinha pela vida missionária comboniana.

Chegou a Moçambique a 3 de fevereiro 1991.

Foi destinado ao Hospital de Namapa, uma estrutura sanitária do Governo arruinada pela RENAMO.

Mais tarde foi transferido para a missão do Alua.

Foi morto numa emboscada da RENAMO a 24 de agosto de 1992 no mesmo troço onde a comboniana Teresa Dalle Pezze foi assassinada uma dúzia de anos antes.

Viajava de Nacala para Carapira depois de um curto período de descanso junto ao Índico.

27 balas vararam o carro. Uma atingiu-o em cheio na testa.

Tinha 37 anos.

Os rebeldes, ao aperceber-se que tinham matado um missionário, não tocaram nos pertences.

Foi sepultado a 31 de agosto na Igreja da Terracina natal, mártire entre os mártires.

Escreveu num poema a comentar Mateus 11, 28:

Venho a ti; Tu só lês
dentro de mim
se as minhas intenções
são suficientemente puras…
Os meus anos não passaram
leves,
mas deixaram sinais profundos
como os carros sobre as veredas
do campo.
Com certeza sei que deserto
e silêncio
não se encheram só do meu
movimento, e que,
agarrado à Tua mão,
conhecerei uma libertação contínua.

Noutra poesia escreve:

Mas às vezes, calado
e com fôlego débil,
tremo por esta estranha
vocação
de ser somente um fósforo
ou mais simplesmente
um pavio.
E talvez, de irmão,
Nem isso sequer…

Um fósforo? Um pavio? Um luzeiro no Céu!

22 de julho de 2017

VIDA CONSAGRADA: TEMPOS NOVOS, MUDANÇAS NOVAS




A Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica publicou a 6 de Janeiro de 2017 umas orientações intituladas Vinho novo, odres novos – A vida consagrada desde o Concílio Vaticano II e os desafios ainda em aberto.

O documento é um exercício de discernimento prático para «ler práticas inadequadas, indicar processos bloqueados, fazer perguntas concretas, pedir razões das estruturas de relação, de governo e de formação sobre o apoio real dado à forma de vida evangélica das pessoas consagradas» como explica o penúltimo parágrafo da curta introdução.

Esta inovação tem a ver com a atualização histórica dos carismas face às realidades socioculturais que vivemos (as novas pobrezas) e a linguagem (simbolismo) para os comunicarmos às novas gerações.

A evolução social, económica, política, científica e tecnológica a par com a intervenção estatal em nichos tradicionalmente ocupados pelos consagrados transformaram-nos em presença redundante. Por outro lado, emergências novas e inéditas pedem exigências que continuam à espera de resposta por parte da vida consagrada.

Os religiosos estão superados? Somos fósseis vivos, dinossauros cristãos em vias de extinção? «As novas pobrezas interpelam a consciência de muitos consagrados e solicitam aos carismas históricos novas formas de resposta generosa frente às novas situações e aos novos descartes da história. Daí o florescimento das novas formas de presença e de serviço nas múltiplas periferias existenciais» (nº 7).

Há novas alianças com os leigos a par de uma mudança de registo imprescindível: passar da gestão das crises e da sobrevivência à imaginação criativa de novos percursos de vida e consagração (n.º 8).



1. DESAFIOS EM ABERTO

O desafio maior é a inovação: «o velho esquema institucional tem dificuldade em dar passagem a novos modelos de modo decidido» (nº 9).

Há três questões em aberto: «harmonia e coexistência» entre a tradição e as inovações pedidas pelo Concílio; avaliação do funcionamento dos «elementos de mediação» face às novidades; ver o que «bebemos»: vinho novo ou a martelo para «esconder» erros/problemas não resolvidos.

Nalgumas realidades da vida consagrada as pessoas sentem-se incapazes de acolher os sinais daquilo que é novo. Por isso, «não podemos continuar a protelar o dever de entendermos juntos onde se encontra o nó a desatar, para sairmos da paralisia e superarmos o medo frente ao futuro» (nº 10). Um trabalho em conjunto, portanto! «Estamos juntos!» como dizem os moçambicanos.



2. FORMAÇÃO


A debandada que afeta a vida religiosa não vem «sempre e apenas» das crises afectivas mas «muitas vezes essas crises afectivas são fruto de uma remota desilusão por uma vida de comunidade sem autenticidade» (nº 13); crise de fé e excesso de atividades bem como o isolamento dos jovens em comunidades maioritariamente de pessoas idosas provocando um fosso de gerações no que se refere à espiritualidade, oração e pastoral.

O nº 24 é bem mais contundente: «dentre os motivos principais dos abandonos, destacam-se […] o debilitamento da visão de fé, os conflitos na vida fraterna e a vida fraterna débil em termos de humanidade».

O caminho? Recriar a linguagem simbólica da vida religiosa tendo em conta a diversificação cultural que transforma os institutos a partir de dentro.

«O cuidado em vista a um crescimento harmonioso entre a dimensão espiritual e a dimensão humana implica uma atenção específica à antropologia das diversas culturas e à sensibilidade própria das novas gerações, com particular referência aos novos contextos de vida. Só um reentendimento profundo do simbolismo que toca verdadeiramente o coração das novas gerações pode evitar o perigo de se contentarem com uma adesão apenas superficial, de tendência e até de moda, onde parece que a busca de sinais exteriores transmite segurança de identidade», lê-se no nº 14.

Combinar essa recriação do simbolismo com os ideais de beleza e conforto das gerações de hoje é um desafio enorme.

As orientações exigem respostas concretas de todos os institutos desde a formação (novos formadores-peregrinos abertos a novos percursos de formação sinodal e personalizada usando o modelo iniciático e a comunidade formativa) à necessidade urgente de uma cultura de formação permanente ou contínua e iniciação séria ao governo (nº 16). Com exigências destas não admira que haja tão poucos candidatos a formadores!

Para amadurecer a reciprocidade entre homens e mulheres na vida consagrada, o documento pede «promover relações de irmandade entre consagradas e consagrados dentro da Igreja» (nº 18). Obejtivo? «Para se tornarem um modelo de sustentabilidade antropológica) (nº 18).

Não podemos continuar a viver de costas voltadas, mulheres e homens da vida consagrada.



3. AUTORIDADE

O documento faz uma reflexão profunda sobre a crise de autoridade que afeta a vida religiosa. Propõe a passagem do autoritarismo à subsidiariedade e à delegação para garantir as autonomias de cada nível de autoridade (geral, provincial e comunidades). O serviço da autoridade deve partir de uma espiritualidade de comunhão participativa (nº 21) autonomizando as pessoas para gerirem o dia-a-dia em normalidade (nº 21) em vez de criar dependências infantis sem espaço para a originalidade.

O documento critica a clericalização da vida consagrada e nota que os empenhos pastorais podem debilitar a vida comunitária dos membros-padres.

«A terminologia “superiores” e “súbditos” já não é adequada», sublinha o nº 24, propondo o fim das pirâmides da autoridade.

Interessante também a perspectiva de preparar as novas gerações para o governo dos institutos durante o período de formação de base.



4. ADMINISTRAÇÃO DE BENS

O documento faz uma reflexão robusta sobre o tema da administração dos bens e relaciona-o com o profetismo da vida fraterna: «A vida consagrada tem sido capaz de se opor profeticamente, cada vez que o poder económico correu o risco de humilhar as pessoas. Na atual situação global de crise financeira […] os consagrados são chamados a ser verdadeiramente fiéis e criativos para não faltarem à profecia da vida comum internamente e da solidariedade para com o exterior sobretudo em relação aos mais pobres e mais frágeis» (nº 26) através da transparência económica e financeira e da distribuição de bens.

Um sublinhado a reter: «Os bens dos institutos são bens eclesiais e participam das mesmas finalidades no modo evangélico da promoção da pessoa humana, da missão e da partilha caritativa e solidária com o povo de Deus» (nº 28).»



5. INOVAR É PRECISO

As Orientações propõem caminhos concretos, um GPS para a recriação da vida consagrada:

  • Aprender «um processo de abertura infinita à novidade do Reino» (nº 29);
  • Abrir caminhos novos de esperança, «descobrir novos percursos rumo à autenticidade do testemunho evangélico e carismático da vida consagrada» (nº 30);
  • Assumir atitudes e escolhas novas que sublinhem o primado do serviço e a solidariedade como os mais pobres (nº 31);
  • Ultrapassar o fosso geracional através da inculturação, multiculturalidade e interculturalidade e da modificação de estruturas (nº 33);
  • Passar dos seminários/noviciados trentinos para novas formas e estruturas que sustentem os consagrados (nº 35);
  • Exercer autoridade de proximidade (nº 36);
  • Preparar formadores que aceitem a multiculturalidade como forma de viver a fé (nº 37) e as suas consequências e exigências (nº 38) através de novos estilos, estruturas (nº 39) e processos de internacionalização (nº 40);
  • Recentrar o serviço da autoridade na dinâmica da fraternidade ao serviço da comunhão (nº 41), de projetos comuns (nº 42) e «novos equilíbrios culturais na vida e no governo dos institutos» (nº 53).

6. MISSÃO IMPOSSÍVEL

Partilhei esta reflexão com o conselho provincial e os membros de uma comunidade em Portugal. Um dos missionários comentou que o documento é muito belo, mas «é uma missão impossível».

Eu acredito que Vinho novo, odres novos tem em si todos os ingredientes necessários para renovar a vida consagrada. Mas necessita de um envolvimento emocional por parte das religiosas e religiosos. Se começamos a construir obstáculos do género «Missão impossível» então é mais um documento para ser votado ao pó das prateleiras.