22 de abril de 2017

PARA MOÇAMBIQUE POR VISEU



P. João Cotta e D. José da Cruz M. Pinto,
protagonistas da fundação comboniana em Viseu

Os Missionários Combonianos chegaram a Portugal, numa primeira fase, a fim de aprenderem o Português para a evangelização em Moçambique. Estávamos no ano de 1946.

O bispo de Nampula, D. Teófilo de Andrade, frente às dificuldades de uma missionação numa população com maioria muçulmana, pretende missionários habituados ao contacto com população deste tipo.

Com a proteção de D. Teodósio de Gouveia, arcebispo de Lourenço Marques (atual Maputo) – que conhecera a ação dos combonianos em Cartum (Sudão), conseguiu que o Superior Geral lhes mandasse em Julho de 1946 um primeiro missionário: o P.e José Zambonardi.

Do acordo então estabelecido do bispo com os Combonianos estabeleceu-se a chegada de um grupo de missionários e a fundação de um seminário menor em Portugal, para formação de futuros missionários combonianos portugueses, de acordo com o exigido no Acordo Missionário de 7/5/1940 entre a Santa Sé e o Governo Português.

Para preparar o grupo de missionários, vieram para Lisboa, para aprender português, em Janeiro de 1947, os Padres Miguel Selis (que os viseenses vieram a conhecer muito bem e tem o seu nome numa das ruas da nossa cidade), Sílvio Caselli, Quinto Nanneti e os Irmãos Lamberto Agostini e José Bagiolli e em Abril, desse mesmo ano, o Pe. Ângello Velloso.

Na sua estadia em Lisboa, são apoiados, entre outros, pelos Franciscanos, Irmãs de S. José de Cluny e Salesianos.

Sete meses depois, em Julho de 1947, é estabelecida em Nampula a primeira comunidade Comboniana constituída pelos Padres Miguel Zambonardi, Miguel Selis e Quinto Nannetti.


Viseu: Casa-mãe

Havia que cumprir a segunda parte do acordo estabelecido em Nampula: fundar um seminário menor comboniano em Portugal.

Nomeia-se o P.e João Cotta, comboniano de 63 anos, com muita experiência neste tipo de trabalhos, em dezembro de 1946. Só em fins de Março de 1947 consegue o visto para Portugal. No dia 1 de Abril é recebido pelo Pe. Miguel Selis na estação de comboios de Santa Apolónia. Durante 15 dias procura aprender algumas palavras em português.

A 15 de Abril é recebido na Nunciatura Apostólica e no Patriarcado. Dão-lhe como pistas de criação do seminário menor: Évora, Guarda ou Porto.

No dia 16 de Abril dirige-se a Fátima, onde celebra na Capelinha das Aparições e entra em contacto com os missionários da Consolata.

A 17 de Abril está em Aveiro; e, no dia 20 é recebido pelo bispo, D. João Evangelista, que conhecera os combonianos em Verona e para o qual trazia uma carta de apresentação. Este bispo, vendo a dificuldade de o apoiar na sua diocese, oferece-se para escrever uma carta de apresentação ao bispo de Viseu, D. José da Cruz Moreira Pinto. No dia 21 ainda visita os seminários de Cucujães e Mogofores. Mas fica desiludido.

No dia 22 à noite chega a Viseu ao fim de pouco mais de 23 dias da sua chegada a Portugal… No dia 23 às 10 h da manhã o secretário de D. José vai buscá-lo ao hotel Portugal onde dormira, leva-o à Sé Catedral e dali para o paço episcopal. Aí se agenda uma entrevista com o Bispo para as 14h. Essa entrevista vai demorar cinco horas, dada a satisfação de D. José da Cruz Moreira Pinto, que via resposta à sua ânsia de ter uma congregação masculina na sua diocese, objetivo pelo qual há muito rezava. Era dia da festa do Patrocínio de S. José. O único senão que o bispo via era a falta de vocações na diocese.

Logo, nesse mesmo dia, foi apresentado pelo bispo ao vice-reitor do Seminário, Monsenhor João Crisóstomo, e ao Cónego Luís Alves, pároco da Catedral. D. José pediu a ambos que ajudassem o P.e João Cotta a encontrar local para estabelecer o Seminário Comboniano. A opinião do bispo era de que esse local se deveria situar nas cercanias de Viseu ou quando muito em Mangualde. O comboniano ficou hospedado no Seminário, mas não parou. Na companhia de Mons. João Crisóstomo e alguns padres de Viseu, visita Mangualde e arredores, S. Pedro do Sul e a zona das Termas de S. Pedro.

Depois de algumas dificuldades era comprada a atual quinta onde se situa o Seminário das Missões de Viseu, registada a 20 de Setembro , onde outorgaram pelos Combonianos o P.e João Cotta e o P.e Dr. Serrano, ecónomo que foi da Diocese de Viseu

A 17 de Outubro o Governo Civil reconhece e regista oficialmente o Instituto Comboniano como «corporação missionária ao abrigo do Acordo Missionário de 7/5/ 1940 entre a Santa Sé e o Governo Português».

24 de Outubro, daquele ano de 1947, considera-se data da fundação do Seminário das Missões de Viseu sob a invocação do Imaculado Coração de Maria.

Havia decorrido o pequeno período de meio ano desde a chegada do P.e João Cotta a Viseu, pela primeira vez, tendo vindo desiludido da sua tentativa de Aveiro.


Primeiras impressões sobre Viseu

O P. João Cotta descreveu ao superior geral as primeiras impressões de Viseu numa carta de abril de 1947: «O panorama é verde, como na Suíça. A diocese é uma das melhores, em espírito cristão e bondade do clero. A cidade tem 20 mil habitantes e a diocese conta com trezentos mil. Estamos no centro-norte de Portugal, com boas comunicações. Sua Excelência [o Senhor D. José da Cruz Moreira Pinto] deseja que a casa [onde se estabeleceria o Seminário menor comboniano] tenha alguns sacerdotes para o apostolado na cidade e na diocese.»

Prof. Valente

18 de abril de 2017

AMARAM, VIVEMOS!


O Livro do Ben Sira termina a evocação do glorioso profeta Elias com um versículo enigmático, um dizer (quase) perdido: «Felizes os que te viram e os que morreram no amor; pois, nós também viveremos certamente» (Sir 48,11).

Este é o ícone bíblico que para mim melhor evoca os 70 anos de história dos combonianos em Portugal: porque os nossos antepassados no Instituto amaram, também nós vivemos. A nossa consagração é energizada e nutrida pelo amor que dedicaram a Jesus Cristo e ao serviço missionário em Portugal e no mundo, a seiva que nos alenta. São «parábolas existenciais» e pontos de referência como no-lo recorda o nº 14 dos Documentos Capitulares 2015.

Revisitar, escrever a história da província não é encenar com trajes da época algum evento medieval tão em moda. A história não se simula ou representa; evoca-se, recorda-se para resgatar a memória, para lançar o futuro.

O Papa Francisco alerta que «a falta de memória histórica é um defeito grave da nossa sociedade». E ajunta: «Conhecer e ser capaz de tomar posição perante os acontecimentos passados é a única possibilidade de construir o futuro» (Amoris Laetitia 193).

Assim, revisitar a história da província portuguesa dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus não é tão-pouco embandeirar em arco, pavonear-se no passeio das vaidades.

É celebrar o passado por inteiro, com as suas luzes e sombras, com a sua graça e pecado, com as conquistas e as derrotas para nos inspirarmos e ousarmos caminhos novos de animação missionária, pastoral vocacional de rosto comboniano e governo com a mesma audácia inovadora, generosa, alegre, inserida e próxima dos que nos precederam.

O meu muito bem-haja reconhecido ao P. Manuel Augusto Lopes Ferreira por ter aceitado o convite do Conselho Provincial para aprofundar e escrever a história dos 70 anos da presença comboniana em Portugal.

Durante mais de um ano fez um trabalho aturado e meticuloso de investigação nos arquivos gerais em Roma, nos arquivos provinciais em Lisboa e nos das comunidades. Espirrou com o pó, leu imenso, entrevistou, verificou nomes, datas e factos. Produziu um trabalho persistente e consistente de análise crítica de uma fita do tempo de 70 anos que atravessa momentos históricos, sociais e eclesiais muito contrastantes.

A todos os leitores, sobretudo aos confrades, auspico que esta viagem pelas avenidas da memória comboniana em Portugal sirva de inspiração para gizar caminhos novos de amor missionário.

Somos convocados a amar hoje para que os de amanhã também possam viver o carisma comboniano!

11 de abril de 2017

ANO COMBONIANO

2017, além de mariano é também ano comboniano. Celebramos os 150 anos da fundação do Instituto e 70 anos de presença em Portugal. Para embandeirar em arco? É melhor não! Um ano jubilar é uma estação de acção de graças pelo passado de luzes e sombras; pelo presente de alegrias e tristezas; pelo futuro que já é no coração de Deus. Ou melhor: «Com Comboni, celebrar o passado, sonhar o futuro com gratidão e esperança» – como proclama o logótipo do jubileu comboniano português.

Percorrer as avenidas da memória numa peregrinação de afetos e de saudade, recordando as pessoas que construíram a história comboniana, rever os acontecimentos que fazem a história, é um exercício fundamental para vivermos o presente com serenidade e projetarmos o futuro com esperança.

«A falta de memória histórica é um defeito grave da nossa sociedade. É a mentalidade imatura do “já está ultrapassado”. Conhecer e ser capaz de tomar posição perante os acontecimentos passados é a única possibilidade de construir um futuro que tenha sentido», adverte o Papa Francisco no n.º 193 da Amoris Laetitia.

Celebramos o ano comboniano num contexto de crise vocacional: a província envelhece e diminui e um escolástico e um noviço decidiram dar rumo novo às suas vidas em março. O que é que Deus nos quer dizer através destes factos, Ele que é o Senhor da História?

Quando soube a notícia das saídas peguei nas 50 contas azuis que me ofereceram e disse Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo… outras tantas vezes. Mais não sabia que rezar… Aliás, esta é uma situação bastante comum na minha experiência de liderança. O que me leva a pensar que temos que viver o ano jubilar em duas perspectivas bem combonianas: a obra é de Deus e somos um (pequeno) cenáculo de apóstolos.

Muitos anos antes do P. Josemaría Escrivá se assenhorear do termo Opus Dei para a sua prelatura, Comboni usou-o para definir o Instituto, o Plano e o seu serviço missionário. O termo obra de Deus aparece citado 39 vezes nos Escritos.

Numa extensa Relação histórica e estado do vicariato da África Central que enviou à Sociedade de Colónia (Alemanha) em 1877 Daniel Comboni escreve: «O quadro histórico que preparei para os senhores e no qual passei por alto muitas coisas, é testemunho de que esta obra surgiu ao pé da cruz e que traz o selo da cruz adorável, pela qual se converte em obra de Deus» (E 4972).

A 20 de abril de 1881, meio ano antes da sua morte, comenta numa carta ao P. José Sembianti: «o instituto de Verona conseguiu algo na mais difícil de todas as obras do apostolado católico, de que a nossa obra recebeu certamente a bênção divina e de que, na verdade, é obra de Deus» (E 6663).

O Instituto Comboniano é de Deus: coloquemo-lo nas mãos de quem pertence e vivamos com alegria e dedicação o serviço que a Igreja portuguesa nos pede: a sua animação missionária através «do crisol do sofrimento, da cruz e do martírio» (E 6339) que é feito de cansaço, falta e envelhecimento dos missionários, dificuldade em responder adequadamente aos desafios da missão na Europa de hoje, comunicação com uma sociedade cada vez mais estranha à linguagem de e sobre Deus, medo dos desafios, comodismo da zona de conforto… O conselho de Pedro é actual: «No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça; com mansidão e respeito» (1 Pedro 3, 15-16a).

Por outro lado, Comboni sonhou o Instituto como um (novo e pequeno) cenáculo de apóstolos. O fundador usa essa descrição cinco vezes nas suas cartas em relação ao Colégio Urbano (E 2027), ao Colégio/Instituto das Missões da Nigrícia (E 2622, 2648, E 4088) e ao Seminário Mastai de Roma (E 4763).

A nossa carta de identidade mais importante encontramo-la no Capítulo I das Regras do Instituto das Missões para a Nigrícia de 1871 sobre a sua natureza e objectivo: «Este Instituto torna-se, pois, como um pequeno cenáculo de apóstolos para a África, um ponto luminoso que envia até ao centro da Nigrícia tantos raios quantos os solícitos e virtuosos missionários que saem do seu seio. E estes raios, que juntos resplandecem e aquecem, revelam necessariamente a natureza do centro de onde procedem» (E 2648).

Comboni começa por nos definir como pequenos, homens atenciosos de virtude: a idade e o tamanho não nos devem complexar ou preocupar, mas sim a atenção e a retidão. O importante é estarmos em estado permanente de missão como cenáculo de apóstolos que aquecem o mundo com o amor de Deus através dos seus corações. Podemos descrever o Instituto como uma aliança ou rede cordial para acalentar o mundo, sobretudo os mais pobres e abandonados.

Os Documentos Capitulares 2015 citam a definição duas vezes. No nº 3 lemos: «São Daniel Comboni, nosso pai na missão, chama-nos a ser um «pequeno cenáculo de apóstolos» (E 2648), sempre prontos a actualizar o nosso carisma perante os novos desafios missionários (RV 1,3)».

O nº 33 define as coordenadas da expressão, o GPS da vida comum: «Sentimos necessidade de recuperar o sentido de pertença, a alegria e a beleza de ser verdadeiro “cenáculo de apóstolos”, comunidade de relações profundamente humanas. Somos chamados a valorizar, primeiro entre nós, a interculturalidade, a hospitalidade e “a convivialidade das diferenças”, convencidos de que o mundo tem imensa necessidade deste testemunho.»

Pertença, alegria, beleza, relações humanas profundas, interculturalidade – se o Conselho Geral cumprir a obrigação capitular de internacionalizar a província, hospitalidade, diferenças aceitadas e integradas são as peças com que construímos o puzzle do testemunho missionário, da comunidade evangelizadora.

2017 também é ano mariano: celebra 300 anos da Aparecida, no Brasil, e o centenário do acontecimento de Fátima. Também é uma festa comboniana. O P. João Cotta visitou Fátima duas semanas depois de ter chegado a Portugal para «confiar a Maria a congregação, as missões e esta nova obra» como escreveu. E sonhava estabelecer uma presença comboniana na Cova da Iria, mas foi «levado» a assentar arraiais noutras paragens. O resto é Uma história singular!

Uma santa Páscoa na alegria e na paz do Ressuscitado.

Com carinho!

8 de abril de 2017

PÁSCOA 2017


A morte e a vida confrontam-se num duelo prodigioso.
O Senhor da Vida estava morto, mas agora, vivo, triunfa
(Liturgia pascal)

Roma, 16 de abril de 2017
Queridos irmãos,

A celebração da ressurreição do Senhor Jesus vos dê paz e alegria para anunciar o seu Evangelho até aos confins remotos da terra.

Há 150 ano que o nosso Instituto dos Missionários Coimbonianos do Coração de Jesus anuncia a vitória da Vida sobre a morte. Esta vida, que foi vendida por um preço barato, atraiçoada, condenada, cravada na cruz e fechada na escuridão de um sepulcro, encontrou a força para ressurgir e dar-se a cada pessoa humana que se deixa invadir pelo amor incondicional de Deus.

Como outrora, também hoje a vida continua a ser atraiçoada e vendida. Vivemos num mundo onde os radicalismos parecem triunfar, onde não há lugar para os empobrecido e crucificados da história, onde se levantam muros e derrubam pontes. Um mundo onde a economia do egoísmo e da morte cria desperdícios de humanidade, na busca de um bem-estar egoísta no qual nos tornamos incapazes de nos abrirmos ao dom que se faz bênção e é partido para ser partilhado.

Nesta Páscoa de 2017, pensamos em vocês, irmãos nossos, que sabemos que a ides viver aí com os povos aos quais fostes enviados anunciando que outro mundo é possível, um mundo onde vence a vida, um mundo onde todos tenhamos a vida em abundância. Pensamos, sobretudo, nos nossos irmãos que vivem em zonas de guerra, fome, calamidades naturais, em zonas onde nem sempre é fácil descobrir a vida que ressurge. A todos vós queremos recordar as palavras do último Capítulo Geral: «A nossa presença é significativa quando estamos próximos dos grupos humanos marginalizados ou em situações de fronteira» (DC ’15, nº 45.2).

Que esta festa da Páscoa nos encontre prontos para anunciar a vitória da Vida sobre a morte, nos encontre disponíveis para sermos solidários com os que são descartados ou rejeitados, nos encontre prontos a deixar-nos invadir pela Vida de Deus para partilhá-la com os esquecidos da história.

Feliz Páscoa da Ressurreição!
O Conselho Geral

5 de abril de 2017

PRÉMIO SEM VENCEDOR


O Prémio Ibrahim ficou mais um ano em branco.


Mohammed Ibrahim nasceu no Sudão há 70 anos e fez um pé-de-meia considerável no sector das redes móveis de telecomunicações. A revista Forbes coloca-o no lugar número 1577 da lista de 2016 das pessoas bilionárias, com uma fortuna avaliada em 1,14 mil milhões de dólares. É o 46.º mais rico do Reino Unido, onde vive por ser cidadão de sua majestade. Ocupa a posição número 71 da lista dos mais poderosos de 2013.

Em 2006, Ibrahim criou a própria fundação, a Mo Ibrahim Foundation, para apoiar e galardoar a boa governação e a liderança excepcional na África com o Prémio Ibrahim. O galardão distingue líderes africanos que desenvolvem o país, fortificam a democracia e os direitos humanos e promovem a prosperidade equitativa e sustentável.

O prémio é generoso: a personalidade laureada recebe cinco milhões de dólares num período de dez anos (500 mil dólares por ano); depois fica com uma reforma vitalícia de 200 mil dólares por ano.

Um comité de 16 membros tem a missão de passar em revista os mandatos e premiar ex-chefes de Estado ou de governo africanos democraticamente eleitos que exerceram uma liderança excepcional no cumprimento do mandato constitucional e que deixaram o poder nos três anos anteriores à atribuição do prémio.

Com critérios tão apertados, é aceitável que numa década o Prémio Ibrahim só tenha tido quatro vencedores e um laureado honorário. A lista inclui dois ex-presidentes dos países africanos de expressão portuguesa.

Nelson Mandela, «um líder excepcional reconhecido mundialmente», recebeu o prémio honorário em 2007, porque já tinha deixado a presidência sul-africana havia oito anos quando o prémio foi instituído.

Joaquim Chissano embolsou o primeiro Prémio Ibrahim em 2007 «por conduzir Moçambique do conflito à paz e democracia». O seu sucesso? «Trazer paz, reconciliação, democracia estável e progresso económico a Moçambique depois da guerra civil», lê-se na citação.

Festus Mogae foi laureado em 2008 «por manter e consolidar a estabilidade e prosperidade do Botsuana face à pandemia da sida que ameaçava o futuro do seu país e do seu povo».

O comité acrescenta na sua citação que «sob a liderança do presidente Mogae, o Botsuana demonstrou como um país com recursos naturais pode promover desenvolvimento sustentado com boa governação, num continente onde frequentemente a riqueza mineral se tornou maldição».

Depois de dois anos em branco, em 2011 o Prémio Ibrahim foi para Pedro Pires «por transformar Cabo Verde num modelo de democracia, estabilidade e prosperidade crescente» e pelo seu serviço à diáspora cabo-verdiana.

Em 2014, Hifikepunye Pohamba ganhou o prémio «pelo papel no forjar da coesão nacional e reconciliação num momento-chave da consolidação da democracia na Namíbia».

Salim Ahmed Salim, que encabeça o comité do prémio, anunciou que «depois de cuidada deliberação o comité decidiu não atribuir o prémio em 2016».

Para o comité, entre 2015 e 2016 não houve nenhum líder excepcional («que por definição é incomum» – sublinhou Salim) a terminar o mandato de governo na África.

Talvez em 2017 haja melhores notícias!

30 de março de 2017

NEM TUDO É MAU


Saúdo-te da forma que costumas fazer quando me escreves: el salam aleicum. Keif el hal, ya abuna?

Encontro-me de novo em Cartum. Da última vez que aqui estive, em Dezembro passado, disse ao Provincial que não punha mais os pés aqui em Cartum. É que, mais uma das tantas vezes, fiquei um mês à espera da guia de marcha. E muitas graças a Deus que cheguei mesmo a tempo para a missa de Natal a Nyala. Mas esta é uma situação que se torna cada vez mais repetitiva.

A este respeito, que diria ou faria Comboni? E mais ainda, que faria ele face à tão precária situação das renovações dos vistos de residência no país em geral, não nos permitindo planear a vida da missão que fica atropelada/impedida descaradamente pela Security? E tudo isso sem apelo de defesa possível ou tábua de salvação a que nos possamos agarrar. Talvez fazer um sit-in ou outro tipo de protesto contra este tipo de injustiça? Porque não? Claro que este tipo de reacção da nossa parte teria consequências muito negativas para toda a igreja no Sudão e, muito certamente, traria a expulsão dos missionários estrangeiros…

Aquela minha vinda a Cartum em Dezembro passado tinha sido para uma visita urgente ao oftalmologista. E nestes dias, encontro-me de novo aqui em Cartum, não só por marcação de nova consulta de oftalmologia mas também para participar na Assembleia Provincial, além de outros afazeres de tipo procuradoria das missões.

Seria tudo tão fácil e bonito se pudesse estar de retorno a Nyala para a Semana Santa/Páscoa! Deus nos ouça!

Mas, por outra parte, nem tudo é mal. Pelo menos aqui em Cartum tenho um pouco de internet, melhor do que no Darfur, e posso então dar conta da tão longa lista de correio electrónico.

A falta de pessoal nesta província comboniana torna-se cada vez mais penoso e grave. E mais ainda depois da expulsão (sem alegação ou explicação alguma) do nosso confrade ugandês Dominique. O Paulo Aragão… foi-lhe prescrito um período de descanso obrigatório em Viseu. E ainda bem que assim foi. E, mais ainda, alegra-me(nos) saber que a sua cura está em bom progresso. El Hamdu lilah, graças a Deus!

O P. Asfaha, que está agora a caminho de Roma, passou-me o teu recado a respeito do meu meio de comunicação. 

Desculpa, mas, por agora, continuo só com o correio electrónico e o telemóvel. Não sou vocacionado para outros meios. Estou inscrito (por acaso e/ou por engano) no Facebook mas não o uso. Imagino que alguns confrades me deram os parabéns de aniversário no Facebook. Que me desculpem, pois eu não o abro. Aqui deixo o meu agradecimento a ti e outros que vi que me saudaram por correio electrónico no dia do meu aniversário e que pude ver aqui nestes dias em Cartum.

A não ser por razões graves de saúde, este ano não irei de férias porque o colega que chegou é novo em tudo. É que, para além da pastoral directa, o trabalho das (quatro) escolas é muito imperativo e exigente. Somos só dois na comunidade e sempre que um se ausenta – a Cartum ou El Obeid e só por razões inadiáveis – acontece facilmente que fica dependurado por semanas seguidas sem poder reentrar em Nyala.

Amigo Zé Vieira, desculpa, já vou na segunda página. Pois é, para quem não sabe sintetizar as medidas não têm medida.

E a Páscoa está à porta. Com ou sem amêndoas, a Ressurreição é sempre a meta. Tenhas com os confrades em Portugal um bom e frutuoso fim de Quaresma. A culminar com o grande Aleluia da Ressurreição.

Abraço.
Feliz Martins – missionário comboniano no Darfur, Sudão

28 de março de 2017

Sudão do Sul: UMA NOVA EXPERIÊNCIA




Ser refugiados é uma nova experiência que estamos a viver como comunidade. Saímos da missão de Lomin, in Kajo Keji,  a 6 de fevereiro para tratar dos documentos necessários para podermos fazer o nosso apostolado com as pessoas da nossa paróquia nos campos de refugiados onde se encontram no norte do Uganda.

Assim pensámos, mas a situação complicou-se tão depressa que em poucos dias a nossa zona se converteu num campo de batalha e já não pudemos regressar à nossa comunidade.

Foi doloroso não poder regressar à nossa missão e fazer parte dos refugiados, mas esta é a nossa situação e a de milhares de pessoas.

Neste mês e meio em que deixámos a comunidade de Lomin, temos rodado por algumas comunidades combonianas e casas de alojamento porque ainda não temos um lugar própria para estabelecer a comunidade.

Quando recebermos os documentos para viver no norte do Uganda vamos arrendar uma casa num lugar perto dos campos.

Os irmãos da nossa comunidade no princípio do mês arriscaram ir com alguns trabalhadores à nossa missão e o que encontraram foi destruição e solidão.

A nossa casa foi saqueada, as portas dos nossos quartos arrombadas. Os vândalos deixaram pelo chão livros e outras coisas sem valor, tudo atirado e espalhado nos quartos, corredores e quintal.

Na capela da casa, o cálice da missa estava por terra com alguns adornos.

Durante este tempo de espera pelos documentos não estivemos de braços cruzados. Visitámos alguns campos de refugiados para planearmos as nossas actividades no futuro e celebrámos a Eucaristia e os sacramentos.

Já temos um programa intenso para a Semana Santa. Como será? Não sabemos, mas nas celebrações que fizemos havia muitos fiéis.

Darei outras novidades depois da Páscoa.

Por isso, desde já UMA PÁSCOA FELIZ DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR JESUS NOS VOSSOS CORAÇÕES E FAMÍLIAS.

NÃO VOS PREOCUPEIS SE NÃO VOS ESCREVO. POR CÁ NÃO É FÁCIL LIGAR-SE À INTERNET EM TODOS OS LUGARES E A TODAS AS HORAS, ESPECIALMENTE NO NORTE. QUANDO POSSO LER AS VOSSAS MENSAGENS ALEGRO-ME E SINTO-ME MUITO UNIDO A VOCÊS.

Para terminar, não se esqueçam que são parte da minha missão. Por isso não se esqueçam de ter-nos nas vossas orações e na vossa ajuda à nossa gente.
Abuna Jesús, missionário comboniano